Cinema - II


Tudo é possivel no mundo das animações
Alexandre Inagaki

Há filmes tão desconcertantes que são impossíveis de se definir em uma só frase. Por exemplo, O Castelo Animado ("Howl's Moving Castle"), filme de animação concebido e dirigido pelo genial Hayao Miyazaki, cujo filme anterior, A Viagem de Chihiro, foi premiado com o Oscar de Melhor Longa Animado e com o Urso de Ouro do Festival de Berlim. É claro que, se fosse exibido na Sessão da Tarde, algum redator de chamadas resumiria esta nova obra-prima de Miyazaki com uma frase do tipo: "Esta galera do barulho enfrentará altas confusões num desenho para toda a família". Mas não podemos nos esquecer que, segundo essas propagandas de TV, até um drama de Ingmar Bergman seria anunciado da maneira mais infame ("Segure-se na poltrona com este filme que é emoção do começo ao fim!").

Não posso deixar de chamar a atenção, pois, para O Castelo Animado, animação que já está quase para sair de cartaz. Isto é, se é que chegou a estrear em sua cidade, uma vez que se trata de um desenho que não se destina a vender bonequinhos ou lancheiras. Porque este é um filme simplesmente impossível de se descrever em poucas linhas. Posso até dizer que é a história de Sophia, uma jovem que trabalha em uma chapelaria, apaixona-se por um bruxo acusado de roubar (literalmente) corações femininos, é amaldiçoada por uma bruxa rival que a transforma numa velha de 80 anos, e que se envolverá com personagens como um espantalho animado, um fogo resmungão, um cachorro asmático e um castelo que anda.

Posso ainda dizer que é a mais bela fábula antibélica que vi em anos, uma poderosa parábola a respeito da insustentável leveza do coração e um filme no qual o aspecto mágico surge de maneira tão espontânea que nos reensina a encarar o mundo com os olhos redivivos de crianças que acham que borboletas são flores que aprenderam a voar, e questionam para onde vão os beijos que a gente deixa de dar. Ainda assim, daria uma pálida impressão do que é O Castelo Animado.

Peço perdão, pois, a você que me lê. Porque tem filmes que são assim, impossíveis de se resumir em algumas meras linhas. E o máximo que posso fazer é ser o mais persuasivo possível a fim de convencer você a se mexer e assisti-lo o quanto antes. Você ainda haverá de me agradecer por isso (posso passar meus dados bancários por e-mail depois, ok?). Cotação: 5 de 5 olhos boquiabertos.

Outra ótima animação, que estreou na semana passada, é Wallace e Gromit - A Batalha dos Vegetais ("Wallace & Gromit: The Curse of the Were-Rabbit), primeiro longa-metragem estrelado pelo inventor Wallace e seu fiel cachorro Gromit, dois personagens criados por um inglês genial chamado Nick Park. Para quem não sabe, Park foi o responsável pelas animações do videoclipe considerado pela revista Rolling Stone como o melhor de todos os tempos: "Sledgehammer", de Peter Gabriel. De quebra, ganhou três Oscars na categoria Melhor Curta de Animação e co-dirigiu, ao lado de Peter Lord, o sucesso Fuga das Galinhas.

Com um currículo desses, fui ao cinema com a certeza de jogo ganho: A Batalha dos Vegetais não teria como ser ruim. Dito e feito: este longa, feito exclusivamente com uma das mais antigas técnicas de animação (stop-motion, vulgo: "massinha"), é garantia certa de diversão, em um roteiro que coloca a dupla Wallace e Gromit como donos de uma empresa responsável por proteger as hortas dos habitantes de uma vila cujo maior evento anual é um concurso de legumes gigantes. Porém, o surgimento de um misterioso "Coelhosomem" em noites de lua cheia complicará a vida de nossos heróis.

Neste desenho, que conta com as vozes de Ralph Fiennes e Helena Bonham-Carter em sua versão legendada, o destaque fica por conta das expressões de Gromit, cachorro mudo que, feito a gata Hello Kitty, aparenta não ter boca, e mesmo assim consegue transmitir mais emoções em sua fisionomia do que Jean-Claude Van Damme em toda a sua cinematografia (ok, exemplo infeliz - até um boneco de Halloween é mais expressivo que o belga canastrão, mas vocês me entenderam). Cotação: 4 de 5 pés de coelho.


Alexandre Inagaki é jornalista e escreve também no blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso.

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