Meus diálogos prediletos
Alexandre Inagaki
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Foram muitas as vezes em que saí do cinema desejando ter um gravador nas mãos, a fim de poder guardar certos diálogos que ouvi em filmes. Mas enfim, não há nada que uma caneta e alguns rewinds numa fita de vídeo não resolvam. Logo abaixo, seguem alguns dos melhores diálogos já proferidos na tela grande.
• Quatro Casamentos e um Funeral (Four Weddings and a Funeral), dirigido por Mike Newell e roteirizado por Richard Curtis em 1994. Na seqüência transcrita, a personagem de Andie MacDowell conversa com Hugh Grant sobre os amantes que teve na vida, começando a enumerá-los nos dedos:
- O primeiro, é claro - difícil de esquecer: Agradável. Dois: pêlos nas costas. Três. Quatro. Cinco. Seis:Foi no meu aniversário. No quarto dos meus pais.
- Que aniversário?
- Dezessete anos.
- Só chegamos aos dezessete?!
- Eu cresci no campo. Montes de feno para rolar. Tudo bem, sete: hummmm. Oito: (faz com os dedos o sinal de alguma coisa muito pequena) infelizmente, foi um choque e tanto. Nove: encostada numa cerca. Muito desconfortável, não tente. Dez:delicioso. Divino. Ele foi maravilhoso...
- Eu o odeio.
- Onze: evidentemente, dadas as circunstâncias, um desapontamento. Doze a dezessete: anos da universidade. Rapazes sensíveis, carinhosos, inteligentes, mas sexualmente falando, uma droga. Dezoito: partiu meu coração. Anos de sofrimento.
- Sinto muito.
- Depois veio o dezenove - que não me lembro, mas minha companheira de quarto afirma definitivamente que nós fizemos, duas vezes. Então, vinte. Meu Deus, não acredito que cheguei ao vinte! Vinte e um: língua de elefante. Vinte e dois: caía no sono a todo instante. Esse foi meu primeiro ano na Inglaterra.
- Sinto muito.
- Vinte e três e vinte e quatro juntos, foi uma coisa...
- O quê??
- Vinte e cinco: um encanto - francês. Vinte e seis: horrível - francês. Vinte e sete: ele não parava de gritar, foi constrangedor. Spencer, vinte e oito... O pai dele, vinte e nove...
- ?!?!
- Trinta: medonho. Trinta e um: oh, meu Deus. Trinta e dois: encantador. E então, meu noivo - trinta e três.
- Nossa! Então eu venho... depois do seu noivo?
- Não, você foi o trinta e dois. Enfim, aí está. Menos do que a Madonna, mais do que a princesa Di, espero. E você? Com quantas já dormiu?
- Cristo, nada que chegue perto disso. A-hã. Francamente, não sei que merda tenho feito com meu tempo. Trabalho, provavelmente - é isso. Trabalho. Tenho trabalhado até tarde...
• O Marido Ideal (An Ideal Husband), boa adaptação da peça de Oscar Wilde, dirigida e roteirizada por Oliver Parker em 1999. A seguir, a seqüência em que os personagens de Rupert Everett e Minnie Driver duelam verbalmente:
- Está atrasado.
- Sentiu saudade?
- Demais.
- Então sinto não ter atrasado demais. Adoro que sintam saudade.
- Que egoísmo!
- Sou muito egoísta.
- Sempre me fala de seus defeitos.
- Ainda não contei a metade.
- E os outros são ruins?
- Terríveis. Não consigo dormir quando penso neles.
- Bem, eu gosto de seus defeitos, e não dispensaria um único.
- O que mostra seu bom gosto.
• Os diálogos abaixo, dignos de um Shakespeare, foram extraídos de um dos meus filmes de cabeceira, O Sétimo Selo (Det Sjunde Inseglet), obra-prima de 1957 dirigida e roteirizada por Ingmar Bergman:
- É um inferno com as mulheres, e pior sem elas. A melhor coisa é matá-las enquanto se pode.
- Mulheres são inoportunas e insensíveis.
- Bebês e fraldas sujas.
- Unhas e palavras afiadas.
- Tapas, socos e uma sogra.
- E quando você quer dormir...
- Outra melodia.
- Lágrimas e gemidos que acordariam um morto.
- "Por que você não me dá um beijo de boa noite?"
- "Por que você não canta?"
- "Você não me ama mais como antes". "Você não notou a minha mudança". "Você apenas virou-se e cantou". Diabos! Agora ela se foi, seja grato.
(...)
- Talvez eu a ame.
- Talvez você a ame. Vou dizer-lhe uma coisa idiota, amor é uma palavra para luxúria, mais luxúria, trapaça, falsidade e comportamentos idiotas.
- Bem, mas isso machuca de qualquer maneira.
- O amor é a mais negra das pestes, mas ninguém morre de amor, e quase sempre passa.
- O meu não passa.
- É claro que passa. Raramente um par de idiotas morre de amor. Se tudo é imperfeito nesse mundo imperfeito, então o amor é perfeito nessa perfeita imperfeição.
- Que animador. Toda essa conversa e você acredita nas suas tolices.
- Quem disse que eu acredito? Sou um sábio. Peça meu conselho e terá em dobro.
• Woody Allen não poderia estar de fora desta breve compilação. O diálogo abaixo, entre o personagem de Allen e uma monitora de um museu de arte, é de Sonhos de um Sedutor (Play It Again, Sam), filme de 1972 dirigido por Herbert Ross a partir de uma peça de teatro escrita por Woody:
- Este quadro é de Jackson Pollock, não é?
- Sim.
- O que ele representa para você?
- Ele representa a negatividade do universo. O abominável e solitário vazio da existência. O Nada. A condição do Homem forçado a viver em uma árida eternidade desprovida de Deus, como uma breve chama piscando no imenso vácuo com nada a não ser lixo, horror e degradação, presa em uma inútil camisa-de-força em meio aos cosmos negro e absurdo.
- O que você pretende fazer sábado à noite?
- Cometer suicídio.
- Ahn... E na sexta-feira?
Alexandre Inagaki é jornalista e escreve também no blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso.
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