A vida, o amor e as vacas
Alexandre Inagaki
Um dos mistérios mais insondáveis dessa vida é tentar especular por que cargas d'água certos filmes recebem títulos tão infelizes no Brasil. O exemplo mais recente é a nova animação da Disney, Chicken Little, cujo título tupiniquim é uma pérola de redundância redundante: O Galinho Chicken Little. Por que não chamá-lo simplesmente de O Galinho (já que O Pintinho poderia render interpretações maliciosas pouco condizentes com a história do filme)? Não é o primeiro caso de traduções ao melhor estilo "subindo pra cima" ou "monopólio exclusivo", vide O Pequeno Stuart Little ou Brother, do cineasta japonês Takeshi Kitano, que recebeu o dispensável (e igualmente redundante) subtítulo A Máfia Japonesa Yakuza em Los Angeles.

O assunto é quase inesgotável, vide estas outras pérolas de criatividade das distribuidoras brasileiras:
Giant - Assim Caminha a Humanidade
Grease - Nos Tempos da Brilhantina
The Sound of Music - A Noviça Rebelde
Annie Hall - Noivo Neurótico, Noiva Nervosa
Shane - Os Brutos Também Amam
Chains of Gold - Correntes Alucinantes
Blade Runner - O Caçador de Andróides
The Front - Testa de Ferro por Acaso
Dá pra ser pior? É lógico. Esse mal não é exclusivo do Brasil, aliás. Basta lembrar que em Portugal o clássico de Alfred Hitchcock Vertigo, traduzido por aqui como Um Corpo que Cai, ganhou o infeliz título de A Mulher que Viveu Duas Vezes, ou seja, entregando o final logo de cara. Fico pensando: já imaginaram se a moda pega? É de se imaginar quais aberrações poderiam surgir: Sexto Sentido ganharia o título de Um Médico do Outro Mundo, Édipo Rei seria conhecido como O Filho que Traçou a Mãe, Os Suspeitos poderia ser rebatizado para O Perneta Mentiroso, e Cidadão Kane receberia o subtítulo Um Trenó Chamado Rosebud. A propósito, o clássico de Orson Welles ganhou em Portugal a tradução O Mundo a Seus Pés.
Fazendo uma pesquisa no site português Cinedie, me deliciei com as traduções de nossos amigos lusitanos, que em matéria de títulos de filmes, não ficam atrás dos brasileiros. Exemplos?
Do The Right Thing, filme de Spike Lee traduzido literalmente no Brasil como Faça a Coisa Certa, recebeu em além-mar o nome Não Dês Bronca. Speed, mais conhecido como Velocidade Máxima no Brasil, é ganhou o título por lá de Perigo a Alta Velocidade. Die Hard (Duro de Matar) virou Assalto ao Arranha Céus (e Duro de Matar II, coerentemente, é conhecido em Portugal como Assalto ao Aeroporto). Outros exemplos? Ghost = O Espírito do Amor. Ou The French Connection (Operação França) = Os Incorruptíveis Contra a Droga.
Mas há casos em que fica difícil dizer se Brasil ou Portugal são, digamos assim, mais "criativos". Vejam Ferris Bueller Day's Off, por exemplo. Enquanto o Brasil o conhece como Curtindo a Vida Adoidado, os portugueses o chamam de O Rei dos Gazeteiros. City Slickers, comédia sobre três homens da cidade perdidos no velho oeste com Billy Crystal e Jack Palance, é chamado pelos brasileiros de Amigos, Sempre Amigos, mas os lusitanos foram mais longe, e tascaram: A Vida, o Amor e as Vacas. E Big Trouble in Little China, clássico da Sessão da Tarde com Kurt Russell? No Brasil, é Os Aventureiros do Bairro Proibido. Em Portugal... As Aventuras de Jack Burton nas Garras do Mandarim.
Uma última observação: por que as distribuidoras insistem em colocar subtítulos que explicam a trama dos filmes? Exemplos: Trainspotting - Sem Limites, Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento, e Atlantis - O Reino Perdido? Imaginem se a moda pegasse na época de Shakespeare, os títulos que ele não teria dado: Romeu & Julieta - Um Amor Mortal, Hamlet - Um Príncipe Muito Louco, Macbeth - Loucuras de uma Esposa...
Alexandre Inagaki é jornalista e escreve também no blog Pensar Enlouquece, Pense Nisso
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