Quando é preciso voar solo
Luiz Biajoni
Entro num sebo procurando sei-lá-o-quê, mas aquele sei-lá-o-quê beeeem específico, manja?
Incrivelmente encontro uns discos bem estranhos nesse sebo. Alguns que eu já tenho. 12 Bar Blues do Scott Weiland e To Record Only Water For Tem Days, de John Frusciante. O primeiro pensamento é: como é que um cara se desfaz de discos assim? Aí vem uma vontade de pagar os 8 reais pedido por cada um, numa ânsia parecida com a que acomete Mel Gibson naquele filme Teoria da Conspiração — ele não pode ver um exemplar de Apanhador no Campo de Centeio que compra! Hehehe.
Scott Weiland era vocalista do Stone Temple Pilots, agora está no Velvet Revolver. Num período do STP, vivia mais drogado que são e foi expulso do grupo por isso. Tomou uma over, quase morreu e acabou internado. Para não pirar de vez, improvisou um estúdio na clínica de recuperação com a ajuda de amigos. E fez esse disco, 12 Bar Blues, doze músicas que falam de desespero, alucinações, nada, procura, saudade, desintoxicação... Coisas importantes para ele naquele momento e para nós, de maneira indelével.
Uma pá de gente boa deu uma mão pra ele nesse disco: Daniel Lanois (produtor de discos do U2 e do Bob Dylan), Brad Mehldau (pianista famoso), Sheryl Crow (que aparece tocando acordeão!), entre outros. Foi lançado pela Atlantic, saiu no Brasil (!) em 98.
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John Frusciante, guitarrista do Red Hot Chilli Peppers, também vivia alucinado, drogado, dentes podres, sangue escorrendo pela testa. Um animal. Tinha ataques. Em 99 decidiu parar com tudo depois de uma bad trip. Quase abandonou a carreira também. Começou a fazer yoga. Passou por uma desintoxicação: dez dias sem comer, tomando apenas água. O resultado desses dez dias é To Record Only Water For Ten Days (Warner, 2001) - o segundo disco solo do cara. Nascido clássico, o álbum tem uma unidade impressionante. Frusciante entra em profunda meditação e revê fatos da sua vida enquanto embarca em “viagens” — mesmo estando completamente careta. Não tem canções com refrão e abusa de guitarras e elementos eletrônicos. Ninguém dá uma mão pro cara: o disco todo é dele sozinho! Ele canta sem se esforçar para parecer bom, mas acaba sendo. E nós ouvimos e nos sentimos purificados.
Corre atrás desses dois limpinhos aí. Vale a pena!
Luiz Biajoni é jornalista, blogueiro e escritor (www.verbeat.org/blogs/biajoni)
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