Tecnologia XI


A TV invade o celular!
Daniel Santos

Essa semana fiz uma coisa que há muito tempo não fazia. Troquei meu telefone celular. Confesso que foi meio complicado me despedir do bom e velho Motorola V150, que já me acompanhava há bastante tempo. Mas fui forçado a fazê-lo, visto que alguns defeitos sem solução estavam tornando minha convivência com o aparelho um verdadeiro martírio. Munido de boa vontade e procurando algo para atender minhas necessidades básicas em relação à telefones celulares — nada de fotos, MP3 ou qualquer parafernália do tipo, apenas ligações e, no máximo, torpedos SMS — acabei simpatizando com um modelo da LG, o Ônix. E levei-o pra casa.

Assim como alguns de vocês ao lerem este artigo podem ter feito, meus amigos diretos me questionaram sobre os porquês de não ter comprado um aparelho com câmera embutida. “Já tenho minha câmera digital”, respondi de bate-pronto. O fato é que, fanático por tecnologia como sou, até agora não vi nenhuma necessidade de trocar meu celular que não essa que descrevi acima, por “forças maiores”, não importa o quanto de entretenimento eles possam me oferecer agora como MP3 players, PDA ou qualquer outra facilidade. Apenas acho que em alguns casos, gosto de me prender ao passado. Até hoje  uso relógio de pulso — e me sinto nu sem ele — mesmo numa época em que se consulta as horas na tela do celular mais do que no relógio.

O que estou tentando dizer é que precisaria haver alguma grandessíssima revolução no mundo da telefonia — em termos de funcionalidade — para que eu resolvesse trocar meu celular novamente. Senão, só quando este que acabei de adquirir, também resolver “bater as botas”. Mas talvez eu acabe trocando de celular mais cedo do que imagino. É que  Intel, Motorola, Nokia, Texas Instruments e mais um conglomerado de gigantes da telefonia e do entretenimento anunciaram nesta segunda-feira a criação da Aliança da TV Digital Móvel, e que irão incluir em seus produtos a compatibilidade com o chamado DVB-H, um padrão europeu de televisão digital, chamado “Digital Video Broadcasting”, para handhelds e outros portáteis, que permite a recepção de sinais digitais em aparelhos celulares.

Eu trocaria meu celular bem rápido, se soubesse que com um novo aparelho eu poderia ter às mãos um receptor de TV portátil quando bem entendesse. Assim, voltando pra casa, entediado após um dia longo e cansativo de serviço, me divertiria com a programação local de qualquer canal de minha preferência, ou com filmes em pay-per-view. Talvez algumas séries, documentários e as notícias da hora também fechassem o pacote.

Nos EUA, onde esta aliança de grandes empresas está tomando forma, o grande problema que pode ser uma barreira para se assistir TV pelo celular está no custo. Serão necessárias várias centenas de milhões de dólares para garantir a criação de toda uma rede que suporte a transmissão de programas e a negociação de direitos autorais. Mas todos os envolvidos estão confiantes, pois sabem que, caso consigam mesmo disponibilizar tal infra-estrutura, os clientes terão interesse em migrar para a nova linha de aparelhos telefônicos que suportarão o DVB-H, num momento em que, lá fora, este mercado da televisão digital se torna cada vez mais competitivo.

No Brasil a conversa é outra, já que estamos um passo atrás na escala de evolução. As últimas notícias demonstram que Brasília e o Governo estão em dúvida sobre qual padrão de televisão digital será adotado. Já descartaram o padrão americano uma vez, sobrando o japonês e o próprio europeu. Mas agora o ministro das comunicações, Hélio Costa, parece ter voltado atrás, reativando a discussão e trazendo o padrão americano de volta ao páreo. O certo é que um decreto de lei estipula 10 de fevereiro deste ano como prazo máximo para determinar-se o padrão adotado, sem o qual, nada feito quando o assunto for celulares que suportem a recepção de sinais de televisão.

Sem TV pelo celular, nada de trocar meu aparelho. O novíssimo Ônix que comprei será meu bom companheiro por um longo tempo. Até que uma definição melhor sobre o assunto aconteça, ou até que ele, também, dê sinais de cansaço. O que quer que aconteça primeiro...

Daniel Santos
Analista de sistemas, também escreve no The Back-up Brain Weblog (
http://danielsantos.org/).

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