Quem te viu, quem TV
Daniel Santos
Você já ouviu falar de TV digital? Se não, saibam que há um grande impasse em curso atualmente em nosso país, e tudo isso porque dois padrões internacionais para a utilização desta tecnologia, o europeu e o japonês, têm sido igualmente defendidos por seus simpatizantes e atacados por seus críticos em debates intermináveis entre o governo, emissoras de televisão, operadoras por assinatura e empresas patrocinadoras da tecnologia.

Cheguei a pensar recentemente que o padrão japonês — que permite a transmissão de TV através de aparelhos de telefone celular, por exemplo, mais facilmente do que o europeu — tinha ganho a batalha contra o europeu, e que seria anunciado a qualquer momento como a escolha brasileira. Mas ainda esses dias, me dei conta de que provavelmente nem tenhamos esta definição este ano. Várias operadoras de televisão por assinatura já descartaram começar a transmitir imagens e som em alta definição este ano sem que um padrão seja finalmente definido, e, sinceramente, acho que isso está mais do que correto. Afinal de contas, sem um modelo a seguir, perdem todos, sejam empresários ou telespectadores.
O interesse em TV digital vem do fato de que ela pode ser usada para transmitir mais canais do que a televisão analógica comum, aproveitando a mesma largura de banda para tanto, e também para a recepção, justamente, de programação em alta definição. Ao ser usado, o sinal digital elimina uma série de problemas conhecidos de muita gente, como a exibição de "fantasmas" na tela, "chuviscos" e estática no som. Embora em alguns casos seja impossível receber um sinal digital — quando a TV comum ainda se sobressai —, acredito que esta tecnologia, que pode chegar ao telespectador final de várias formas, seja através do cabo, satélite, ou, mais recentemente, via internet pela IpTV, realmente o futuro mais certo quando falamos de televisão.
Enquanto governo e demais interessados debatem incansavelmente, iniciativas interessantes vindas dos EUA podem, também elas, acabar definindo uma nova ordem na forma como você ou eu assistimos televisão. Estou falando da mais do que bem-vinda iniciativa de algumas redes norte-americanas, que começaram a disponibilizar alguns episódios de suas séries via Internet, para que qualquer um morando nos EUA e munido de um navegador com Flash player instalado possa assistir a seus programas favoritos. Neste sentido, a CBS apresentou esta semana um serviço chamado Innertube, para a transmissão de streaming pela Internet, no encalço da mais corajosa até o momento, rede ABC, que a partir do último dia 30 de abril já permite que episódios inteiros de séries como Desperate Housewives, Alias e a muito comentada Lost sejam assistidas on-line.
A experiência da emissora deve ir até o final do próximo mês de junho, quando um hiato deverá acontecer, pelo menos até a próxima nova temporada das séries. Até lá, os programas, exibidos na resolução de 700x390 pixels, já estão sendo acompanhados de quatro blocos de comerciais com 30 segundos de duração cada um. Embora se possa adiantar, voltar ou pausar as cenas dos episódios, a função fica indisponível durante os comerciais, ou seja, é obrigatório assisti-los. Mas, se pensarmos bem, isso não é nada ruim, e posso inclusive classificar a situação como "mais do que justa". Afinal de contas, já conhecemos este modelo há anos. Desde que a televisão é televisão, e muito antes de qualquer empresa de TV por assinatura surgir, ele já existe: Chama-se modelo da TV aberta, onde são os patrocinadores quem pagam pela transmissão dos programas.
Transmitir diretamente pela internet, ainda que com comerciais, pode ser uma iniciativa que a médio ou longo prazo talvez venha diminuir a incidência de downloads piratas de séries, principalmente nas redes P2P. Também pode ameaçar o modelo de negócio de empresas como a Apple, que oferece episódios de séries mediante o pagamento de alguns dólares por conteúdo desejado, principalmente caso outras emissoras também resolvam apostar na iniciativa. O fato é que, seja pela TV via internet, seja pelos meios digitais, a conta dos dias que faltam para que a televisão como conhecemos atualmente desapareça tem um resultado cada dia mais exato. Quem viver, verá.
Daniel Santos
Analista de sistemas, também escreve no The Back-up Brain Weblog (http://danielsantos.org/).
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