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A HISTÓRIA DA BANDA QUE ENTENDEU A INDÚSTRIA MUSICAL

COMO “VIDEO KILLED THE RADIO STAR” ANTECIPOU OS CICLOS DA MÚSICA COMERCIAL, MARCOU O INÍCIO E, DE FORMA SIMBÓLICA, O FIM DA ERA MTV

João Carlos

02/01/2026

Placeholder - loading - Crédito da imagem: Capa do single “Video Killed the Radio Star” (1979), do The Buggles. © Island Records / Reprodução: Deezer.
Crédito da imagem: Capa do single “Video Killed the Radio Star” (1979), do The Buggles. © Island Records / Reprodução: Deezer.

Quando Video Killed the Radio Star, do The Buggles, foi lançada no fim dos anos 1970, parecia apenas mais uma canção pop sofisticada, embalada por sintetizadores e uma melodia fácil de memorizar. O tempo mostrou que havia algo mais ali. A música não apenas acompanhava uma mudança em curso, como compreendia a lógica da indústria musical antes que ela própria se reorganizasse.

A canção não falava literalmente sobre o fim do rádio, mas sobre algo mais profundo: como cada nova tecnologia redefine o centro de poder da música, quem ganha visibilidade e quem fica pelo caminho.

A faixa e o álbum que traduziram uma virada cultural

Crédito da imagem: Capa do álbum The Age of Plastic (1980), do The Buggles. © Island Records / Reprodução: Spotify.

Lançada em 1979, “Video Killed the Radio Star” integrou o álbum The Age of Plastic, disco de estreia do The Buggles. O projeto surgiu em um momento decisivo da música pop, quando a produção eletrônica, o estúdio como instrumento criativo e a estética futurista começavam a substituir o modelo tradicional das bandas centradas apenas em performance ao vivo.

Produzido por Trevor Horn, o álbum tinha como conceito refletir sobre tecnologia, mídia e modernidade. A faixa-título acabou se tornando o ponto mais claro dessa proposta, condensando em poucos minutos uma leitura precisa do que estava por vir.

Quem eram os The Buggles

Crédito da imagem: Geoff Downes e Trevor Horn, do The Buggles, em foto promocional. © Island Records / Reprodução: Spotify.

O The Buggles era formado por Trevor Horn e Geoff Downes. Mais do que uma banda convencional, o duo funcionava como um projeto alinhado à nova lógica da indústria fonográfica. Horn vinha de uma formação técnica sólida em estúdio e se tornaria, nos anos seguintes, um dos produtores mais influentes do pop mundial. Downes, tecladista e compositor, traria essa mesma visão futurista para grupos como Yes e Asia.

A união dos dois combinava leitura de mercado, inovação sonora e consciência histórica, algo ainda raro naquele fim de década.

O videoclipe antes mesmo da MTV

O videoclipe de “Video Killed the Radio Star” foi produzido na era pré-MTV, quando vídeos promocionais ainda eram usados de forma pontual por gravadoras, principalmente no Reino Unido. Dirigido por Russell Mulcahy, o clipe apostava em imagens futuristas, efeitos eletrônicos e referências à ficção científica, dialogando diretamente com o conceito do álbum.

Em 1º de agosto de 1981, o clipe entrou para a história ao ser exibido como o primeiro videoclipe da MTV, marcando o início da era dos canais musicais 24 horas. A escolha não foi apenas simbólica: a produção sintetizava, estética e conceitualmente, a linguagem que a televisão musical passaria a adotar nos anos seguintes. Confira a seguir o videoclipe que abriu esse ciclo.

Décadas depois, com o encerramento global de diversos canais dedicados exclusivamente a videoclipes, a música voltou a circular com força nas redes sociais, agora como um espelho histórico do próprio ciclo que ajudou a iniciar.

Uma canção quase profética

Em entrevistas concedidas ao longo dos anos 2000 e 2010, Trevor Horn explicou que a música nasceu da sensação de que “dava para sentir as coisas mudando” dentro da indústria. Ele chegou a mencionar a ideia de que, no futuro, gravadoras poderiam ter computadores “no porão” capazes de fabricar artistas, reduzindo o papel do músico tradicional.

Horn citou influências diretas de J. G. Ballard, pela visão distópica da tecnologia no cotidiano, e do Kraftwerk, pela estética da música mecanizada e impessoal. Não se tratava de prever plataformas específicas, mas de entender o padrão de transformação.

O fim do grupo e a continuidade do produtor

Crédito da imagem: Trevor Horn em foto de perfil publicada em rede social. Reprodução: Facebook.

O The Buggles teve vida curta. Após dois álbuns, o projeto se encerrou no início dos anos 1980, quando Horn e Downes passaram a integrar o Yes. Já Trevor Horn seguiu em trajetória ascendente, tornando-se produtor de artistas como Frankie Goes to Hollywood, Seal e Pet Shop Boys, além de continuar ativo como curador, palestrante e referência quando o assunto é tecnologia e produção musical.

Por que a música ainda importa

Mais de quatro décadas depois, “Video Killed the Radio Star” permanece atual porque não fala apenas de rádio ou televisão, mas de como a música se adapta à tecnologia e ao mercado. É uma canção que entende a indústria como um sistema em constante mutação, onde cada inovação cria oportunidades e descartes na mesma medida.

No fim, a mensagem é desconfortável e simples: toda era que se acredita definitiva está apenas no meio do caminho. A indústria muda, o formato muda, o centro de poder se desloca. E aquela canção lançada em 1979 entendeu esse processo cedo demais.

Assista à apresentação de Trevor Horn interpretando “Video Killed the Radio Star” em evento do Prince’s Trust, realizada na Wembley Arena, em 11 de novembro de 2004.

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