A HISTÓRIA DO DISCO GRUNGE DE MARIAH CAREY
O PROJETO ALTERNATIVO QUE MARCOU OS ANOS 90 E GANHOU NOVA LEITURA NA MÚSICA POP
João Carlos
18/02/2026
Em meio aos sucessos pop que definiram sua carreira, há um capítulo menos conhecido — e quase lendário — na trajetória de Mariah Carey. Trata-se de um projeto alternativo com estética grunge/rock, gravado nos anos 1990 e lançado de forma velada sob o nome da banda fictícia Chick, intitulado Someone’s Ugly Daughter.

Crédito: Divulgação / Chick – Someone’s Ugly Daughter (1995)
O projeto tornou-se um ponto de curiosidade entre fãs e críticos ao longo dos anos, reforçando a versatilidade artística de Carey e ampliando a compreensão sobre sua liberdade criativa naquele período.
Toda essa história foi tornada pública e detalhada pela própria artista em sua autobiografia The Meaning of Mariah Carey. No entanto, o tema voltou a ganhar destaque recentemente durante a semana do Grammy 2026, quando a cantora foi homenageada no evento da MusiCares. Na ocasião, Foo Fighters e Taylor Momsen apresentaram ao vivo algumas faixas do álbum, reacendendo o interesse pelo projeto alternativo que durante décadas permaneceu envolto em mistério.
Se você ainda não entendeu essa história por completo, o portal da Antena 1 organiza a cronologia e contextualiza cada capítulo que envolve o chamado “álbum grunge perdido” de Mariah Carey.
Capítulo 1 – O contexto: quando o grunge mudou a indústria
No início dos anos 1990, a música pop vivia uma transição profunda. A estética glam e o pop altamente produzido dos anos 1980 começavam a perder espaço para um som mais cru, introspectivo e visceral.
Foi nesse cenário que o grunge explodiu.
Com o impacto de Nirvana e o lançamento de Nevermind em 1991, o mercado musical mudou radicalmente. A ascensão de Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains consolidou uma estética que valorizava guitarras distorcidas, letras existenciais e uma atitude anti-glamour.
O grunge não foi apenas um gênero. Foi uma mudança de linguagem cultural. A indústria passou a buscar autenticidade, imperfeição e identidade artística menos polida.
Onde estava Mariah Carey nesse momento?
Enquanto o rock alternativo dominava rádios e MTV, Mariah Carey vivia o auge do pop adulto contemporâneo.
Entre 1990 e 1994, ela acumulou números expressivos nas paradas, consolidando-se como uma das artistas mais bem-sucedidas da década. Sua imagem era cuidadosamente construída: vocal impecável, baladas grandiosas e produção sofisticada.
Mas, artisticamente, o ambiente cultural ao redor estava mudando.
E é justamente nesse choque entre o pop altamente controlado e o espírito alternativo da época que nasce Someone’s Ugly Daughter.
Um experimento fora da vitrine principal
Em meio ao sucesso comercial, Mariah decidiu explorar uma sonoridade diferente, alinhada ao espírito alternativo que tomava conta da indústria. O projeto não surgiu como ruptura pública, mas como um espaço paralelo de experimentação criativa.
Enquanto o mercado a via como diva pop, ela testava guitarras mais pesadas, letras menos convencionais e uma estética distante do brilho tradicional.
Era 1995. O grunge já havia atingido o mainstream. E, nos bastidores, Mariah Carey também estava experimentando esse universo.
Capítulo 2 – O projeto que nasceu quase por acaso
Em 1995, enquanto promovia Daydream e consolidava seu domínio nas paradas pop, Mariah Carey decidiu explorar uma vertente criativa que pouco dialogava com sua imagem pública.
Ela passou a compor e gravar uma série de faixas com estética mais crua e abordagem vocal menos ornamental do que o público estava acostumado a ouvir.
O resultado foi Someone’s Ugly Daughter, um projeto influenciado pelo rock alternativo da época. No entanto, o álbum foi lançado oficialmente sob o nome da banda fictícia Chick, sem que Mariah assumisse os vocais principais na versão disponibilizada ao público.
A artista participou ativamente do processo criativo — compondo e gravando as músicas — e seus backing vocals permanecem audíveis em diversas faixas. Porém, sua voz principal foi substituída por outra vocalista na edição lançada naquele ano, decisão que preservava a identidade comercial cuidadosamente construída em torno de sua carreira pop.
Anos depois, em sua autobiografia The Meaning of Mariah Carey, a cantora confirmou que gravou versões completas com seus próprios vocais. Segundo seu relato, a gravadora optou por dissociar oficialmente o projeto de sua imagem mainstream para evitar conflito de mercado naquele momento.
Assim, o disco nasceu como experimento artístico e acabou se tornando um dos capítulos mais curiosos — e debatidos — de sua trajetória.
Capítulo 3 – Por que o álbum voltou a ser motivo de curiosidade
Durante anos, Someone’s Ugly Daughter permaneceu como uma nota de rodapé intrigante na carreira de Mariah Carey — conhecido entre fãs mais atentos, mas distante do grande público.
Isso mudou na semana do Grammy de 2026.
Na cerimônia Pessoa do Ano da MusiCares, homenagem concedida a artistas por sua contribuição à indústria e a causas humanitárias, Mariah foi celebrada por sua trajetória de décadas. E foi justamente nesse palco institucional que o capítulo alternativo de sua carreira ganhou novo destaque.
O Foo Fighters, acompanhado por Taylor Momsen, apresentou um medley de “Hermit” e “Love Is a Scam” — duas faixas do álbum.
A escolha não foi aleatória.
Ao resgatar músicas do projeto alternativo, a homenagem reconheceu publicamente uma fase criativa que por décadas foi tratada como curiosidade paralela. Em um evento ligado diretamente ao universo do Grammy, o álbum deixou de ser apenas um experimento dos anos 90 para se tornar parte oficial da narrativa artística de Carey.
A reação da cantora — que assistiu à apresentação e respondeu com uma ovação de pé — reforçou o peso simbólico do momento.
Mais do que um tributo musical, a performance funcionou como validação histórica.
O que antes era descrito como “o disco grunge secreto” passou a ser encarado como um capítulo legítimo de experimentação artística. E, naturalmente, o público voltou a perguntar:
Onde está esse álbum?
Por que ele nunca foi lançado com a voz original?
A homenagem da MusiCares transformou uma curiosidade cult em assunto novamente relevante — e recolocou Someone’s Ugly Daughter no centro do debate sobre identidade artística e liberdade criativa na indústria dos anos 90.
Capítulo 4 – O suspense sobre o álbum permanece em 2026
A apuração do portal da Antena 1 indica que Someone’s Ugly Daughter, não está disponível de forma integral nas principais plataformas de streaming.
Ou seja, o álbum completo não aparece oficialmente — e tampouco existe qualquer edição com os vocais principais de Mariah Carey disponível comercialmente.
Atualmente, a forma mais acessível de ouvir o projeto na íntegra é por meio de uploads disponíveis no YouTube. A própria Mariah já mencionou publicamente o interesse em remasterizar o material com seus vocais originais, mas essa versão segue inédita.
Em plataformas como Last.fm, algumas faixas podem ser encontradas para audição mediante cadastro. Outros sites oferecem streams fragmentados ou playlists associadas ao projeto, mas não se trata de disponibilização oficial consolidada.
A ausência do álbum nos principais serviços de streaming reforça o caráter quase cult do projeto. Três décadas depois de sua gravação, Someone’s Ugly Daughter permanece como um capítulo parcialmente acessível — e oficialmente incompleto — da discografia ampliada de Mariah Carey.
Epílogo – Significado, recepção moderna e um legado aberto
A repercussão da homenagem na MusiCares reforçou a percepção de que o álbum, ainda que concebido dentro da estética alternativa dos anos 1990, merece ser compreendido como parte legítima da trajetória artística de Mariah Carey — uma intérprete que sempre demonstrou capacidade de transitar entre gêneros com naturalidade.
Do lançamento discreto em 1995 à redescoberta pública em 2026, Someone’s Ugly Daughter percorreu um caminho incomum. De experimento paralelo a referência cult, o projeto passou a simbolizar liberdade criativa, levantando discussões sobre identidade artística, estratégias de mercado e os limites impostos pela indústria musical nos anos 90.
Embora a edição completa com os vocais originais de Mariah Carey ainda não esteja oficialmente disponível nas plataformas digitais, o chamado “disco grunge” deixou de ser apenas uma curiosidade de bastidor. Ele passou a integrar, de forma mais explícita, o legado cultural da artista.
Três décadas depois, permanece como capítulo aberto — um registro que continua despertando interesse e reafirmando que grandes carreiras raramente são lineares. Algumas histórias não desaparecem; apenas aguardam o momento certo para serem redescobertas.
Assista a seguir aos videoclipes oficiais das canções “Malibu” e “Demented”, duas das faixas lançadas no projeto alternativo associado a Mariah Carey sob o nome da banda Chick. Nas versões disponibilizadas oficialmente, os vocais principais são creditados a Clarissa Dane, enquanto Mariah participa nos backing vocals. Ambas as músicas podem ser encontradas em plataformas digitais.
Na sequência, confira também um trecho da entrevista concedida pela cantora em setembro de 2025 ao The Tonight Show Starring Jimmy Fallon, quando comentou o episódio em que interrompeu a transmissão ao vivo do filho na Twitch e voltou a falar sobre o chamado “álbum secreto”.


