COMO PAUL McCARTNEY SE TORNOU DONO DO DISCO MAIS RARO DO MUNDO?
DO SINGLE “LOVE ME DO” COM CRÉDITO INVERTIDO AO ACETATO DOS QUARRYMEN, A COLEÇÃO DO MÚSICO ESQUENTA O DEBATE SOBRE RARIDADE NA MÚSICA
João Carlos
20/02/2026
A notícia de que Paul McCartney seria o dono do disco mais raro do mundo ganhou repercussão na imprensa musical depois que a Nivessa Vinyl Records publicou em sua conta oficial no Instagram um relato sobre a coleção pessoal do artista.

Créditos da imagem: Paul McCartney © 2018 Mary McCartney / Recordsafari / Instagram
Ao destacar a trajetória do ex-integrante dos Beatles e do Wings, a gravadora chamou atenção para um item específico do acervo de McCartney: a única cópia remanescente da primeira gravação realizada por ele ao lado de John Lennon e George Harrison. Trata-se de um acetato de 1958 dos Quarrymen, frequentemente citado por especialistas como um dos discos mais valiosos já produzidos na história da música.
Mas será que essa afirmação se sustenta?
Estamos, de fato, diante do disco mais raro do mundo — ou a história envolve nuances que vão além de um simples título?
O portal da Antena 1 analisou o contexto histórico e os critérios que ajudam a definir o que pode — ou não — ser considerado o disco mais raro da história da música.
A seguir, você confere o que apuramos.
Antes de responder se Paul McCartney é, de fato, o dono do disco mais raro do mundo, é preciso compreender como se define “raridade” quando falamos de um item fonográfico.
Para um avaliador de uma grande casa de leilões ou para um curador de museu, raridade não é apenas uma questão de número de cópias existentes. Trata-se de um conjunto de fatores que envolvem escassez, estado de conservação, relevância histórica, impacto cultural e, sobretudo, singularidade.
Um disco pode ser raro porque teve tiragem limitada. Pode ser raro por conter um erro de prensagem. Pode ser raro por ter pertencido a uma figura histórica. Mas há um nível acima: quando o objeto representa um ponto de origem — o momento exato em que algo começou.
É nesse critério que o acetato de 1958 dos Quarrymen ganha peso extraordinário. Não se trata apenas de uma gravação antiga. É o registro mais primitivo conhecido de John Lennon, Paul McCartney e George Harrison tocando juntos. Uma peça que antecede oficialmente o nascimento dos Beatles e que, segundo especialistas, não possui outra cópia original conhecida.
Se a raridade for medida pela impossibilidade de substituição, então estamos diante de um item que ultrapassa o valor de mercado e entra no território do patrimônio cultural.
O caso “Love Me Do”: quando um detalhe vira lenda

Créditos da imagem:
Foto apenas ilustrativa. Não se trata da primeira prensagem britânica da Parlophone com crédito invertido “McCartney/Lennon”.
É uma edição promocional norte-americana da Tollie Records.Divulgação / Tollie Records (Edição promocional de “Love Me Do”)
Tollie Records – Cópia promocional de 1964
Se o acetato dos Quarrymen representa o marco zero da história dos Beatles, existe outro episódio que ajuda a entender como o conceito de raridade pode nascer de um detalhe aparentemente pequeno.
Em 5 de outubro de 1962, os Beatles lançaram seu primeiro single oficial no Reino Unido: “Love Me Do”. A canção inaugurava oficialmente a trajetória da banda na gravadora Parlophone e apresentava ao mundo a parceria de composição que se tornaria uma das mais célebres da música popular.
No entanto, as primeiras 250 a 300 cópias prensadas traziam um detalhe curioso na etiqueta: os créditos apareciam como “McCartney/Lennon”, invertendo a ordem que se tornaria padrão mundial — “Lennon/McCartney”.
A alteração foi corrigida rapidamente pela gravadora, e as cópias subsequentes já traziam a ordem consagrada. O resultado? Um pequeno lote que se transformou em objeto de culto entre colecionadores.
Esses exemplares alcançam valores elevados em leilões não apenas pela escassez, mas pelo simbolismo: representam o início oficial da trajetória fonográfica dos Beatles — com um “erro” que nunca mais se repetiria.
Mas há uma diferença importante em relação ao acetato de 1958. As cópias de “Love Me Do” com crédito invertido são raras, mas existem várias delas. São negociáveis. São colecionáveis. Têm preço.
Já o acetato dos Quarrymen é singular — e essa singularidade muda completamente a escala da discussão.
Raridade acidental ou raridade planejada?
A discussão sobre o disco mais raro do mundo ganha outra dimensão quando olhamos para um caso contemporâneo que foge completamente da lógica dos Beatles.
O Wu-Tang Clan é um coletivo norte-americano de hip-hop formado no início dos anos 1990, em Nova York, e considerado um dos grupos mais influentes da história do rap. Conhecido por sua estética crua, produção minimalista e referências à cultura oriental, o grupo ajudou a redefinir o hip-hop da Costa Leste e construiu uma base de fãs global.
Em 2015, o coletivo lançou um projeto que desafiou todas as convenções da indústria musical: o álbum “Once Upon a Time in Shaolin”. Mas chamar de “lançamento” talvez seja impreciso.

Crédito da imagem: Kerrin Thomas / SBS News
A obra foi concebida como uma peça de arte singular. Apenas uma cópia física foi produzida — um álbum duplo acondicionado em uma caixa de prata esculpida à mão. Nenhuma versão digital foi disponibilizada ao público. Nenhuma prensagem adicional foi feita.
O disco foi vendido por aproximadamente 2 milhões de dólares e incluía cláusulas contratuais que restringiam sua exploração comercial pública por 88 anos. Ou seja, trata-se de uma raridade deliberada.
Aqui, a exclusividade não surgiu de um erro de prensagem, de uma tiragem limitada ou de um acaso histórico. Ela foi planejada desde o início.
Esse contraste ajuda a aprofundar a reflexão: o que pesa mais no conceito de raridade? A decisão consciente de produzir uma única cópia ou o valor histórico irrepetível de um documento que registra o nascimento de uma revolução cultural?
O álbum do Wu-Tang Clan é único por design. O acetato dos Quarrymen é único porque representa o momento embrionário da maior banda da história do rock.
Para uma casa de leilões, ambos são itens extraordinários. Para um museu, a pergunta talvez seja outra: qual deles alterou o curso da música popular?
O que realmente define o disco mais raro do mundo
Polêmicas à parte sobre qual seria, afinal, o disco mais raro do mundo, a repercussão da notícia revela algo ainda mais interessante: o fascínio contínuo que o vinil exerce sobre o público e o mercado.
A simples menção à coleção pessoal de Paul McCartney foi suficiente para reacender debates, movimentar fóruns especializados e atrair a atenção de novos colecionadores. Em um momento em que o mercado de discos de vinil vive um novo boom global, histórias como essa funcionam como vitrines poderosas para uma indústria que, há poucas décadas, parecia condenada ao desaparecimento.
Mais do que nostalgia, o vinil voltou a ocupar espaço como objeto de experiência, de memória e de investimento cultural.
E essa discussão ganha ainda mais relevância às vésperas do aguardado Record Store Day, marcado para 18 de abril, data que celebra as lojas independentes de discos e impulsiona lançamentos exclusivos em todo o mundo.
Seja pelo valor histórico de um acetato único, pela raridade de uma prensagem limitada ou pela exclusividade planejada de um álbum contemporâneo, o que permanece é a força simbólica do disco físico — um objeto capaz de atravessar gerações e reacender debates sobre memória, mercado e legado.
Talvez o disco mais raro do mundo não seja apenas aquele que existe em uma única cópia, mas aquele que continua a despertar interesse décadas depois de ter sido gravado.


