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CPI DO JOCKEY CLUB AVANÇA EM SÃO PAULO

COMISSÃO APURA USO DE R$ 61 MILHÕES EM RESTAURO; DEPOIMENTOS INDICAM FALHAS NA PRESTAÇÃO DE CONTAS

João Carlos

24/03/2026

Placeholder - loading - Crédito da imagem: Júlio Zerbatto/Futura Press/Folhapress
Crédito da imagem: Júlio Zerbatto/Futura Press/Folhapress

A CPI do Jockey Club, em andamento na Câmara Municipal de São Paulo, ganhou novo capítulo com a retomada dos trabalhos e a realização de depoimentos considerados centrais para o avanço das investigações. A comissão apura possíveis irregularidades no uso de R$ 61,3 milhões de recursos públicos destinados ao restauro do patrimônio histórico do clube.

Depoimentos expõem falhas na prestação de contas

Na sessão do dia 17 de março, a CPI ouviu representantes do Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), entre eles a diretora do órgão, Marília Alves Barbour, e o técnico responsável pela área de preservação, Ricardo Vaz Guimarães Rosis.

Ao longo de cerca de uma hora e meia, os técnicos detalharam inconsistências na prestação de contas apresentada pelo Jockey Club. Segundo Marília Barbour, a forma como os documentos foram apresentados levantou suspeitas dentro do próprio órgão. Em um dos momentos mais contundentes da sessão, ela afirmou que havia despesas sem relação com o objeto do contrato e declarou: “Eles acharam que a gente não fosse perceber a prestação de contas. Nos chamaram de bobos.”

Já Ricardo Rosis foi mais direto ao apontar o desvio de finalidade dos recursos. De acordo com ele, o material apresentado incluía gastos que iam além das obras de restauro, como folha de pagamento, encargos trabalhistas e até despesas operacionais, incompatíveis com o termo firmado. “O recurso era para projeto e obra, não para custeio”, destacou.

As declarações reforçam a decisão do DPH de rejeitar a prestação de contas do projeto ainda em 2025 e indicam que as irregularidades podem ter ocorrido de forma sistemática.

Vereadores falam em tentativa de ocultação de informações

A reação dos vereadores foi imediata. O presidente da CPI, vereador Gilberto Nascimento (PL), afirmou que há indícios de tentativa de manipulação dos dados apresentados pelo clube. Segundo ele, o material analisado sugere que o Jockey tentou “mascarar” informações durante o processo de prestação de contas.

O relator da comissão, vereador Carlos Bezerra Jr. (PSD), também elevou o tom ao comentar os documentos. Ele apontou a existência de despesas incompatíveis com a finalidade do projeto, incluindo gastos com alimentação, hospedagem, transporte e passagens aéreas. Para o parlamentar, os indícios podem levar a medidas mais duras, como o rompimento do termo firmado com o poder público.

A reunião da CPI do Jockey Club pode ser conferida na íntegra neste link.

Entenda como e por que a CPI foi criada

A CPI do Jockey Club foi instaurada em outubro de 2025, em meio a questionamentos sobre a utilização de recursos públicos em projetos de preservação do patrimônio do hipódromo, localizado na zona sul da capital paulista.

A criação da comissão ocorreu após o avanço de denúncias envolvendo inconsistências na prestação de contas e suspeitas de uso inadequado de instrumentos urbanísticos, como a Transferência do Direito de Construir, que permite a captação de recursos para preservação de imóveis históricos.

Em fevereiro de 2026, os trabalhos foram retomados com foco ampliado, incluindo a análise de contratos, repasses financeiros e a atuação de órgãos públicos no processo de fiscalização.

O contexto financeiro e histórico do Jockey Club

Além das questões relacionadas ao restauro, a CPI também se debruça sobre a situação financeira do Jockey Club, que acumula uma dívida estimada em cerca de R$ 800 milhões com o município, entre tributos como IPTU e ISS.

Fundado no século 19, o Jockey Club de São Paulo é um dos espaços mais tradicionais da cidade, com forte valor histórico e arquitetônico. Ao longo das décadas, o local se consolidou como um dos principais centros do turfe no Brasil, além de sediar eventos culturais e sociais relevantes.

Nos últimos anos, a instituição passou a enfrentar dificuldades financeiras e questionamentos sobre a gestão de seu patrimônio, o que levou ao aumento da pressão por maior transparência na aplicação de recursos públicos.

Como a Prefeitura entrou no caso

A relação entre a Prefeitura de São Paulo e o Jockey Club se intensificou a partir da década de 2010, quando a situação financeira da instituição começou a se deteriorar e a dívida com o município — principalmente de IPTU e ISS — passou a crescer de forma significativa.

Diante do risco de degradação de um patrimônio histórico relevante da cidade, a Prefeitura passou a atuar em duas frentes: a cobrança dos débitos e a tentativa de viabilizar a preservação do espaço. Foi nesse contexto que entrou em cena o mecanismo de Transferência do Direito de Construir (TDC), que permite ao proprietário de um imóvel tombado vender potencial construtivo para terceiros, desde que os recursos sejam destinados à conservação do bem.

A partir de acordos firmados com o poder público, o Jockey Club passou a captar recursos por meio desse instrumento para financiar obras de restauro em suas instalações. Em contrapartida, o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) ficou responsável por acompanhar e fiscalizar a execução dos projetos.

O modelo, no entanto, passou a ser questionado quando surgiram dúvidas sobre a aplicação dos valores arrecadados, o que levou à rejeição da prestação de contas pelo DPH em 2025 e, posteriormente, à criação da CPI na Câmara Municipal.

Próximos passos da investigação

A CPI segue em andamento e deve convocar novos depoentes nas próximas semanas, incluindo representantes do próprio Jockey Club. A expectativa é que os trabalhos avancem para uma fase mais conclusiva, com a consolidação das auditorias e a definição de possíveis responsabilidades.

Ao final dos trabalhos, a comissão pode elaborar um relatório com recomendações e encaminhá-lo ao Ministério Público. Cabe ao órgão decidir se abre investigação formal ou apresenta denúncia à Justiça. As CPIs também têm poder de solicitar documentos, convocar testemunhas e propor medidas administrativas, mas não podem julgar ou aplicar punições diretamente.

Na prática, o desfecho depende da consistência das provas reunidas e do encaminhamento dado pelos órgãos de controle e pelo Judiciário.

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