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    Dia Nacional do Deficiente Físico: três pessoas contam suas trajetórias à Antena 1

    Antena 1 conta história de 3 brasileiros para os quais a deficiência não deve ser escondida ou exaltada, mas tratada na essência do que é: humana

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    Pelo menos 45 milhões de brasileiros têm algum tipo de deficiência, segundo o último levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010. Esse número, que representa quase 25% da população, inclui pessoas com deficiências visual, auditiva, mental ou motora. Apesar disso, quando ficou paraplégica após sofrer um acidente de carro, em 2007, a mesa-tenista Catia Oliveira não tinha nenhuma referência de pessoa com deficiência em Cerqueira César, sua cidade natal, localizada no interior de São Paulo.

    “Parecia que eu me tornava a única pessoa com alguma deficiência no meio daqueles quase 20 mil habitantes”, relembra a paratleta brasileira, apontada pela Federação Internacional de Tênis de Mesa (ITFF) como uma das principais apostas para a medalha de ouro nos Jogos Paralímpicos de 2021. Para ela, à época aos 16 anos de idade, a falta de referências foi um dos motivos que a levou a adiar o uso da cadeira de rodas – adotada somente meses mais tarde, depois que a jovem entrou em contato com outros deficientes físicos em um hospital local de reabilitação. 

    Na data em que é comemorado o Dia Nacional da Pessoa com Deficiência Física, instituída em 1981 pelo então Ministério dos Direitos Humanos (MDH), a Antena 1 conta a história de 3 brasileiros para os quais a deficiência não precisa ser escondida, vista como tabu ou exaltada, mas tratada na essência do que é: humana.

    Conheça Márcio Frascino Neto, Cátia Oliveira e Suellen Gomes Calixto.

    Márcio Frascino Neto, palestrante motivacional

    No dia 23 de março de 2018, aos 32 anos, o administrador de empresas e profissional de marketing Márcio Frascino Neto viu sua vida “virar de cabeça para baixo”. Ele saía do trabalho em uma multinacional japonesa do setor eletrônico no bairro da Lapa, em São Paulo, quando a moto que pilotava colidiu com um ônibus ao tentar trocar de faixa. Levado ao hospital somente cinquenta minutos após o acidente, ficou em coma por 4 dias, até sair da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) e descobrir que, como consequência de uma grave fratura na perna direita, o membro tinha sido amputado.

    “Imaginei que nunca mais sairia da cama, que ficaria só esperando a hora da morte”, recorda. Ainda dentro do hospital, pelo menos três acontecimentos mudariam sua perspectiva sobre a situação: primeiro, ele entrou em contato com pessoas que também tinham sofrido acidentes de trânsito, mas que estavam em estado vegetativo; depois, com um médico-palhaço voluntário que, desajeitado e mal vestido, cantava o famoso refrão de “O Que É, O Que É?”, de Gonzaguinha (“Viver e não ter a vergonha de ser feliz…”); por último, mas não menos importante, ouviu de sua irmã um conselho que marcaria profundamente não só sua recuperação, mas seu novo modo de viver a vida: “Você pode escolher ser uma vítima ou se tornar uma referência para as pessoas”. 

    “Escolhi a segunda opção e hoje me enxergo como o cara que não desistiu e fez a vida acontecer”, afirma. Antes apegado às festas e viagens de lazer, Márcio decidiu que dali para frente faria de seus dias uma oportunidade de ajudar o próximo – promessa que fez a Deus no momento do acidente, quando ainda estava no chão. Abriu mão do emprego onde atuava há 12 anos e, através do convite inicial de um amigo que admirava a sua recuperação, começou a dar palestras em escolas e empresas. 

    “Sempre que saía dos eventos, recebia mensagens das pessoas falando ‘nossa, era o que eu estava precisando escutar’”, lembra. A história mais marcante ainda tira lágrimas do palestrante: após uma participação em programa no YouTube, foi procurado por uma mulher que revelou ter desistido da ideia de tirar a própria vida e de seus três filhos depois de escutá-lo. “Se eu perdi a perna só para ter guardado a vida dela, já é vitória”, diz.

    Há dois anos de prótese, doação realizada pelo banco onde sua irmã trabalha, ele não tem vergonha de ir à praia, dançar ou andar de skate – ato que repetiu nesta quarentena, após dois anos sem prática. A recuperação – física e emocional –, lembra, não aconteceu “do dia para a noite”. Ele recorda de quando se sentiu “no fundo do poço”, do sentimento de vergonha ou da época em que precisava tomar banho sentado. “Nada acontece como ‘vou te falar uma frase e você vai ficar bem agora’, tudo é um processo”. 

    Cátia Oliveira, atleta

    Em Cerqueira César, cidade natal de Cátia Oliveira, a atleta do interior paulista é conhecida como aquela que “comia, dormia e respirava futebol”. Desde muito nova, traçou para si objetivo certeiro: vestir a camisa do Brasil e defender o país através do esporte. No mesmo dia em que seu nome apareceria na lista de convocados para a Seleção Brasileira de Futebol Sub-17, em 2007, no entanto, a então jovem de 16 anos que jogava no time de Botucatu descobriu que tinha ficado tetraplégica. 

    “Foi um baque para mim, mas engoli o choro porque achei que logo voltaria a andar. Na época não sabia que a gente podia quebrar a coluna”, lembra ela, que sofreu um grave acidente automobilístico, enquanto dormia no banco traseiro sem cinto de segurança, na rodovia Geraldo Pereira de Barros, próximo à cidade de São Manuel (SP).

    Foram quase três meses até que a atleta percebesse que a perda dos movimentos seria definitiva. Rejeitando a cadeira de rodas, ela costumava pedir aos pais que a transportassem nas costas, já que pensava ser a “única deficiente física da cidade”. Quem impulsionou a jovem a começar a usar o aparelho foi um menino de cinco anos, paciente da rede hospitalar Sarah Kubitschek, referência brasileira no atendimento à reabilitação por onde ela teve uma breve passagem. “De tão feliz, ele só não subia as escadas porque não podia. Me fez ter um ‘estalo’ e perceber que eu ainda tinha muita coisa para viver pela frente”, recorda. 

    Nos próximos cinco anos, Cátia trabalhou como assistente de um posto de saúde em sua cidade natal, mas, confessa: o desejo de voltar a praticar algum esporte persistia. Foi quando, despretensiosamente, em 2013, começou a praticar tênis de mesa, depois de se aproximar da modalidade em uma feira internacional de tecnologias em reabilitação. Com o incentivo da família e de sua amiga e esposa Tainá – que também é fisioterapeuta –, ela passou a treinar a modalidade na classe 2 e chegou à seleção no mesmo ano. Em 2015, teve sua primeira grande conquista no Parapan Toronto, onde foi ouro no individual e prata por equipes. 

    Há poucos meses dos Jogos Paralímpicos Rio 2016, no entanto, pensou viver um reprise de 2007. Descobriu uma lesão grave no ombro direito e precisou passar por uma intervenção cirúrgica, o que afetou sua preparação para a disputa – onde não conseguiu medalhas. Em 2018, outro infortúnio: perdeu seu pai enquanto chegava à final do Mundial da Eslovênia, competição em que foi vice-campeã. “Ele me apoiava em tudo, foi quem conversou com um amigo que conhecia o técnico do time de Botucatu e fez com que eu começasse a me profissionalizar no esporte. Onde eu estiver, levo meu pai comigo”, diz. 

    De casa, em meio à pandemia de Covid-19, Cátia improvisa com um centro de treinamento doméstico em preparação para os Jogos Paralímpicos de Tóquio 2021. E lembra de todos os ganhos que o tênis de mesa trouxe à sua trajetória: força, movimento e a oportunidade de, finalmente, vestir a camisa do Brasil. “Posso dizer que defendi meu país, literalmente”. 

    Suellen Gomes Calixto, dona de casa

    Foi também na adolescência que Suellen Gomes Calixto, 30 anos, começaria a usar a cadeira de rodas. Moradora de Taubaté, interior de São Paulo, ela foi diagnosticada com a neuropatia de Charcot Marie Tooth aos 16 anos. Na família, a síndrome degenerativa rara que danifica os nervos dos braços e pernas também afetou seu irmão e mais quatro tios. O enfraquecimento progressivo dos músculos fez com que ela tivesse muitas quedas na infância, o que a levou a sofrer episódios recorrentes de bullying na escola. “Adiei o máximo que pude usar a cadeira de rodas, pelo estereótipo que ela traz”, lembra.

    Acostumada a frequentar baladas e shows aos fins de semana, Suellen decidiu usar o aparelho pela primeira vez quando estava indo para um festival de reggae junto com uma amiga, nos anos 2000. “Fiquei muito tímida, mas percebi que a cadeira de rodas não me aprisionava, nem me tornava feia ou inferior, ela me dava liberdade”, diz. Ainda assim, lembra de ter continuado chegando mais cedo em alguns lugares para evitar olhares incômodos ou pedido para ser carregada nas costas por amigos e parentes.

    As saídas se tornaram menos frequentes quando a paulista formada em Administração de Empresas decidiu “procurar mais conteúdo do que curtição nas pessoas”. Através da internet, conheceu William. “Desde a primeira conversa, já deixei claro que tinha deficiência e usava cadeira de rodas. Ele disse ‘por mim tá tudo bem, pra você tá tudo bem?’”, lembra. Junto há 11 anos, o casal teve o primeiro filho em 2018.

    Ao contrário de William, o desejo de ter filhos, no entanto, não fez parte dos sonhos de Suellen por um bom tempo, o que ela considera ter sido uma “autodefesa de seu subconsciente”, já que via a gravidez como algo impossível. Há 2 meses na espera pelo segundo bebê, ela alerta para um tabu que precisa ser desconstruído em torno da maternidade associada à deficiência física.  

    “Quando você é uma mãe com deficiência, as pessoas não conseguem te ver como uma mãe. Às vezes o bebê chorava no meu colo, alguém tirava de mim e devolvia para o pai quando ele se acalmava, isso me fazia muito mal”, lembra. 

    E acrescenta: “As pessoas foram criadas como se os deficientes não existissem, o nosso dia a dia é novo para elas. Mas somos todos seres humanos, e o respeito tem que estar dentro da gente".

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