HÁ 36 ANOS, BERLIM RECEBIA UM DOS MAIORES ESPETÁCULOS DA HISTÓRIA
CONCERTO CELEBROU A QUEDA DO MURO DE BERLIM COM UM ELENCO INTERNACIONAL E TRANSMISSÃO PARA DEZENAS DE PAÍSES
João Carlos
21/07/2026
Em 21 de julho de 1990, Roger Waters transformou uma área próxima à Potsdamer Platz, em Berlim, no cenário de uma das maiores produções já concebidas para a música ao vivo. Ao seu lado, convidados ilustres como Bryan Adams, Cyndi Lauper e Sinéad O'Connor, nomes familiares aos ouvintes da Antena 1, se revezaram no palco enquanto uma gigantesca estrutura era erguida diante do público a cada música, reproduzindo simbolicamente o famoso muro que seria derrubado no desfecho do espetáculo.
O local havia integrado, até poucos meses antes, a faixa de fronteira que separava os dois lados da cidade. Cerca de 200 mil pessoas acompanharam o espetáculo presencialmente, segundo estimativas divulgadas na época. Posteriormente, a produção revisou esse número para aproximadamente 350 mil espectadores, levando em conta a abertura dos portões para acomodar parte da multidão que ainda permanecia do lado de fora da área do evento.
Mas The Wall: Live in Berlin não foi planejado apenas para quem conseguiu chegar ao antigo território proibido. O concerto foi transmitido ao vivo por emissoras de 52 países e alcançou uma audiência televisiva calculada em cerca de 500 milhões de pessoas. Além disso, outros 65 países acompanharam o espetáculo por meio de transmissões de rádio. Naquela noite, Berlim era o palco, mas o mundo inteiro estava na plateia.
Uma ideia beneficente anterior à queda do Muro

Crédito da imagem: Arquivo/Pink Floyd
Roger Waters havia resistido durante anos à possibilidade de remontar The Wall. A obra, lançada pelo Pink Floyd em 1979, havia sido concebida como uma história sobre isolamento, autoritarismo e as barreiras emocionais erguidas entre o artista e o público. O músico chegou a dizer que só voltaria a apresentá-la quando o verdadeiro Muro de Berlim fosse derrubado.
A preparação do projeto, porém, começou antes daquele acontecimento histórico. No fim dos anos 1980, o empresário Mick Worwood e o filantropo britânico Leonard Cheshire procuraram Waters com a proposta de organizar uma apresentação internacional de The Wall. O concerto serviria para lançar o Memorial Fund for Disaster Relief, iniciativa destinada a mobilizar recursos e estruturas militares para o atendimento de populações atingidas por catástrofes.
Waters aceitou participar, mas desejava um local extraordinário, capaz de justificar a retomada de uma produção tão complexa. Monument Valley, o Grand Canyon, o deserto do Saara, a Praça Vermelha e até Wall Street estiveram entre as possibilidades consideradas.
A resposta surgiu em 9 de novembro de 1989, quando os postos de fronteira foram abertos e milhares de alemães começaram a atravessar e a desmontar o Muro. A localização da nova montagem tornou-se evidente. As administrações dos lados oriental e ocidental de Berlim autorizaram o uso da área próxima à Potsdamer Platz, entendendo que uma celebração transmitida internacionalmente também poderia colaborar com a aproximação das duas comunidades.
O concerto aconteceria em um intervalo político decisivo. A desmontagem sistemática das instalações de fronteira havia começado em junho de 1990, apenas algumas semanas antes do show. A reunificação oficial da Alemanha, por sua vez, somente seria concluída em 3 de outubro daquele ano. O país ainda não estava formalmente reunificado quando Waters começou a construir seu novo muro cenográfico.
Um palco levantado sobre a antiga faixa da morte

Crédito da imagem: Arquivo/Durhamld/Roger Waters
A Potsdamer Platz não era um terreno convencional para a instalação de palcos, torres, arquibancadas e equipamentos de transmissão. Durante a divisão de Berlim, a região havia sido transformada em uma espécie de vazio urbano, cercado por barreiras, torres de vigilância e áreas conhecidas no Ocidente como faixa da morte.
Antes do início da montagem, militares precisaram examinar o solo. Segundo o relato da produção, a inspeção encontrou armas, munições e até um antigo bunker ligado a uma unidade da SS nazista. A preparação da área exigiu uma operação de grande porte, muito além da instalação convencional de um palco, com características que se aproximavam de uma verdadeira obra de engenharia civil.
Outro problema estava no elenco. No fim de abril, a poucos meses da apresentação, somente os Scorpions haviam sido confirmados. Convites feitos a outros grandes nomes não avançaram, e a dificuldade para formar o grupo de convidados chegou a colocar a realização do espetáculo em risco.
O produtor Tony Hollingsworth assumiu então a seleção dos participantes. Em pouco tempo, foram incorporados a Orquestra e o Coro da Rádio de Berlim Oriental, além da Banda Militar das Forças Soviéticas estacionadas na Alemanha. Em paralelo, Waters e a equipe passaram a escolher cantores e atores de acordo com os personagens e as atmosferas de cada composição.
O maestro e arranjador Michael Kamen, que já havia trabalhado na versão original de The Wall, ficou responsável por integrar a banda de Waters, a orquestra, o coro e o conjunto militar soviético. Os artistas convidados chegaram a Berlim na semana anterior ao evento e ensaiaram individualmente suas participações. O objetivo não era criar uma sequência de pequenos shows, mas encaixar vozes muito diferentes dentro de uma única ópera rock.
Uma ópera rock transformada em espetáculo coletivo
O álbum The Wall, lançado pelo Pink Floyd em 1979, apresenta uma sequência de canções em formato de uma ópera rock que acompanha a trajetória de Pink, um astro fictício que, marcado por perdas, traumas familiares, repressão escolar e pelo isolamento provocado pela fama, passa a erguer um "muro" imaginário entre si e o restante do mundo.
Ao longo da narrativa, cada experiência dolorosa representa mais um tijolo nessa barreira psicológica. Conforme a história avança, Pink mergulha em um estado de alienação, confundindo fantasia e realidade até se imaginar como um líder autoritário. No desfecho, é levado a julgamento por personagens que simbolizam sua própria consciência e recebe a sentença que conduz à derrubada do muro, representando a possibilidade de reencontro com a humanidade.
Nas apresentações originais do Pink Floyd, realizadas entre 1980 e 1981, a parede era construída diante do público durante a primeira metade do espetáculo, ocultando completamente os músicos antes de ser destruída no encerramento. Em Berlim, Roger Waters preservou essa estrutura dramática, mas ampliou a produção em escala monumental para dialogar diretamente com o simbolismo da cidade.
Waters escolheu cuidadosamente cada convidado de acordo com a atmosfera de cada composição e com os diferentes personagens da narrativa.
Assim, Cyndi Lauper assumiu a irreverência de "Another Brick in the Wall, Part 2"; Sinéad O'Connor deu intensidade emocional a "Mother"; Bryan Adams trouxe a energia de "Young Lust"; Joni Mitchell interpretou a delicada "Goodbye Blue Sky"; Van Morrison dividiu "Comfortably Numb" com Waters; e atores como Tim Curry, Marianne Faithfull, Ute Lemper, Thomas Dolby e Albert Finney passaram a representar, no palco, os personagens centrais do julgamento final de Pink.
A engenharia de construir um muro ao vivo

Crédito da imagem: Arquivo/Durhamld/Roger Waters
A cenografia ficou sob responsabilidade de Mark Fisher e Jonathan Park, que haviam trabalhado nas primeiras apresentações de The Wall. A nova versão, entretanto, precisaria ser maior e mais dinâmica. Além das centenas de milhares de pessoas no local, havia uma audiência televisiva global que precisaria compreender a história por meio das câmeras.
O cenário foi ampliado para aproximadamente o dobro das dimensões das montagens originais. O muro cenográfico tinha quase 180 metros de comprimento e era formado por cerca de 2.500 blocos de poliestireno com tratamento retardante de chamas. As peças haviam sido projetadas para suportar a estrutura e, depois do espetáculo, poderiam ser reaproveitadas como material de isolamento em construções.
Duas enormes gruas foram posicionadas nas laterais. Uma passagem elevada, movimentada por mecanismos hidráulicos, permitia que técnicos e figurantes acrescentassem os blocos enquanto a apresentação acontecia. Cada nova fileira precisava surgir no instante previsto, sem interromper a música, a movimentação dos artistas ou o trabalho das câmeras.
A parede possuía aberturas destinadas a cenas específicas e a grandes telas. Outros telões foram instalados sobre torres espalhadas pela área do público. Conforme o muro avançava, ele também se transformava em uma gigantesca superfície de projeção, recebendo animações de Gerald Scarfe, imagens de guerras, recortes de jornais, grafites e referências à arquitetura fascista.
Bonecos monumentais, personagens infláveis e um enorme porco negro surgiam acima da estrutura. Na parte frontal, uma passarela reforçada permitia a circulação de limusines, motocicletas, caminhões militares e da banda soviética. Avaliada na época em aproximadamente US$ 8 milhões, a produção combinava concerto, teatro, cinema, transmissão televisiva e encenação militar em uma única máquina de imagens.
Artistas se revezaram enquanto o muro ganhava forma

Créditos da imagem: Reprodução/Amazon UK
A apresentação preservou a estrutura narrativa concebida por Roger Waters para The Wall. À medida que a história de Pink avançava, blocos de poliestireno eram acrescentados ao cenário até esconder completamente os músicos. Cada convidado assumia um momento específico da trama.
- Scorpions abriram o espetáculo com "In the Flesh?", apresentando o protagonista e estabelecendo o tom teatral da noite.
- Ute Lemper, ao lado de Roger Waters, interpretou "The Thin Ice". Enquanto a narrativa começava a explorar a infância de Pink, os primeiros blocos do muro eram posicionados sobre o palco.
- Cyndi Lauper assumiu "Another Brick in the Wall, Part 2", acompanhada pela Bleeding Heart Band e Thomas Dolby. A crítica ao sistema educacional marcava mais um "tijolo" na construção do muro psicológico do personagem.
- Sinéad O'Connor deu voz a "Mother", uma das passagens mais emocionais da obra, representando a relação superprotetora entre Pink e sua mãe.
- Bryan Adams interpretou "What Shall We Do Now?" e "Young Lust", simbolizando a fase em que o protagonista mergulha nos excessos da fama e do estrelato.
- Joni Mitchell cantou "Goodbye Blue Sky", acompanhada pela orquestra e pelo coro, evocando as lembranças da guerra e da perda da infância.
- Ao término da primeira parte, o muro cenográfico já estava completamente erguido, ocultando praticamente toda a banda e simbolizando o isolamento absoluto de Pink.
Segunda parte: isolamento, julgamento e libertação
Com o muro concluído, a narrativa entrou em sua fase mais introspectiva.
- Paul Carrack abriu a segunda metade com "Hey You", canção em que Pink tenta estabelecer contato com o mundo exterior já aprisionado atrás da parede.
- A orquestra, o coro e a Banda Militar Soviética executaram "Bring the Boys Back Home", preparando o caminho para o clímax dramático.
- Van Morrison, acompanhado de Roger Waters, interpretou "Comfortably Numb", um dos momentos mais celebrados do espetáculo.
- Na sequência, a história mergulhou no delírio autoritário do protagonista durante "In the Flesh", "Run Like Hell" e outras canções que representam sua transformação em um líder fascista imaginário.
O julgamento de Pink
A tradicional animação criada por Gerald Scarfe foi substituída por atores interpretando os personagens centrais da história.
- Tim Curry viveu o Promotor.
- Thomas Dolby interpretou o Professor.
- Ute Lemper assumiu o papel da Esposa.
- Marianne Faithfull representou a Mãe.
- Albert Finney deu vida ao Juiz.
Após o veredito, Pink foi condenado a derrubar o muro que havia construído ao longo de toda a narrativa.
A queda do muro

Crédito da imagem: Arquivo/Durhamld/Roger Waters
No instante final de "The Trial", cerca de 2.500 blocos despencaram diante da multidão, recriando simbolicamente a derrubada da barreira que havia dividido Berlim durante quase três décadas.
Entre os escombros, Roger Waters reuniu praticamente todo o elenco para interpretar "The Tide Is Turning", composição de sua carreira solo escolhida para encerrar o espetáculo com uma mensagem de reconciliação e esperança.
Falhas técnicas
A complexidade cobrou seu preço. Logo no começo da apresentação, um problema no sistema elétrico interrompeu parte dos equipamentos e afetou algumas músicas. Waters afirmou depois que aproximadamente três números haviam sido comprometidos.
Trechos registrados durante o ensaio geral foram utilizados na transmissão e nas edições posteriores do concerto. A interpretação oficial de “Mother”, com Sinéad O’Connor, também veio do ensaio realizado no dia anterior. O procedimento permitiu reconstruir a experiência para o disco e o vídeo, embora o material comercializado não corresponda integralmente ao som captado durante a apresentação.
No local, a experiência também variou conforme a posição dos espectadores.
Para quem assistiu pela televisão, porém, as câmeras conseguiram organizar melhor a dimensão do espetáculo.
A repercussão política do concerto
A dimensão política esteve presente desde o planejamento. Waters desejava que russos, alemães e norte-americanos participassem da construção e da destruição do muro cenográfico. Para ele, a ação deveria representar a colaboração entre países anteriormente colocados em lados opostos da Guerra Fria. A presença da banda militar soviética concretizou parte dessa ideia.
A combinação era difícil de imaginar poucos anos antes: músicos ocidentais, artistas da Alemanha Oriental, uma orquestra berlinense e militares soviéticos atuando juntos sobre a antiga faixa de fronteira. Em vez das torres de vigilância, o terreno recebeu torres de iluminação. No lugar dos guardas armados, pessoas vindas dos dois lados da cidade ocuparam o espaço.
O espetáculo não foi uma cerimônia oficial da reunificação alemã, tampouco há base para atribuir a ele influência direta sobre acordos diplomáticos. Seu impacto político foi principalmente simbólico e midiático. A metáfora originalmente pessoal de The Wall ganhou em Berlim uma leitura geopolítica: a parede não representava apenas o isolamento de um personagem, mas todas as fronteiras físicas, ideológicas e emocionais que separavam sociedades.
Realizado pouco mais de dois meses antes da reunificação, o concerto apresentou ao mundo a imagem de uma Alemanha que ainda estava em processo de transformação.
O paradoxo beneficente e o legado

Créditos da imagem: Reprodução/Amazon UK
O projeto havia sido concebido para lançar o Memorial Fund for Disaster Relief, mas o resultado financeiro não correspondeu às expectativas. Segundo a produção, os custos ultrapassaram o orçamento e, mesmo com a venda de ingressos, direitos televisivos, discos e vídeos, a operação inicial não gerou lucro para a entidade beneficente. Lançamentos posteriores continuaram destinando royalties a iniciativas ligadas à organização de Leonard Cheshire.
O retorno mais duradouro acabou sendo cultural. Roger Waters: The Wall em Berlim permaneceu como um documento de um período em que a política europeia mudava em velocidade vertiginosa. O espetáculo uniu uma obra lançada em 1979, a queda do Muro em 1989 e a iminente reunificação de 1990 dentro da mesma narrativa.
Trinta e seis anos depois, o concerto continua impressionando pela precisão de sua imagem final. Berlim recebeu o evento, a televisão o levou ao mundo e, entre os escombros cenográficos, artistas de diferentes países encerraram juntos uma história sobre tudo aquilo que separa as pessoas.


