IA E O NOVO RENASCIMENTO CRIATIVO, SEGUNDO WILL.I.AM
O OLHAR DO MÚSICO E EMPRESÁRIO SOBRE LICENCIAMENTO, TEORIA MUSICAL E O FUTURO DA CRIAÇÃO HUMANA
João Carlos
12/01/2026
A discussão sobre inteligência artificial e música costuma escorregar facilmente para dois extremos: o entusiasmo tecnológico ingênuo ou o alarmismo cultural. A entrevista concedida por will.i.am ao Bloomberg Technology, em 10 de janeiro, foge desse padrão ao propor uma análise mais estrutural do problema. Não se trata apenas de música, nem apenas de IA, mas da forma como sociedades organizam valor, trabalho intelectual e criação simbólica em períodos de transição tecnológica profunda.
Falando como artista, produtor e CEO da FYI.AI, will.i.am descreve o momento atual como um novo “Renascimento”. Não no sentido romântico ou nostálgico, mas como um período de reorganização radical das ferramentas criativas, em que a tecnologia amplia possibilidades sem, necessariamente, substituir o elemento humano que dá sentido à arte.
Da imitação à abstração: IA e teoria musical
Um dos pontos centrais da entrevista é a afirmação de que os modelos de IA caminham para deixar de “aprender músicas” para passar a operar a partir da teoria musical. Na prática, isso significa uma transição de sistemas que dependem fortemente de obras existentes para modelos capazes de gerar estruturas musicais a partir de princípios mais abstratos como harmonia, forma, ritmo e progressão.
Essa mudança não elimina o debate sobre direitos autorais, mas altera seu eixo. Se antes o problema estava concentrado na reprodução e no estilo excessivamente derivativo, agora a discussão passa a envolver governança de dados, transparência de treinamento e limites éticos no uso de grandes acervos culturais. Para will.i.am, esse cuidado não deve proteger apenas músicos, mas qualquer pessoa cuja produção intelectual possa ser explorada por sistemas automatizados.
Licenciamento como solução estrutural
Ao contrário de discursos que defendem a proibição do treinamento de IA com material protegido, will.i.am aposta em um caminho mais pragmático: licenciamento. Ele compara o uso de música por modelos de IA a acordos comerciais tradicionais, como aqueles firmados entre artistas e grandes marcas, citando exemplos do mercado publicitário.
Nesse ponto, a crítica se estende às plataformas digitais. Segundo ele, a subvalorização da música em ambientes de streaming, como o Spotify, enfraqueceu a percepção de valor do trabalho criativo e abriu espaço para disputas ainda maiores no contexto da IA. O licenciamento, nesse cenário, aparece como uma forma de restabelecer consentimento, remuneração justa e previsibilidade econômica.
Regulamentar o negócio, não a tecnologia
Outro aspecto que ajuda a explicar a repercussão da entrevista em 2026 é o deslocamento do debate para além da música. Will.i.am afirma que o risco mais imediato da automação não recai sobre os criativos, mas sobre profissões white-collar como contabilidade, direito e análise corporativa. São áreas altamente dependentes de padronização, interpretação documental e repetição de processos, justamente onde a IA avança com mais eficiência.
Para ele, o erro recorrente dos reguladores está em tentar controlar a tecnologia em si, quando o foco deveria estar nos modelos de negócio que exploram essa tecnologia. Sem esse ajuste, qualquer tentativa de proteção tende a ser superficial ou ineficaz.
O valor do “orgânico” em um mundo sintético
A metáfora do conteúdo “orgânico” retorna na entrevista com um significado menos simbólico e mais econômico. Assim como alimentos orgânicos se tornaram um segmento premium, conteúdos criados por humanos, com contexto, experiência vivida e autoria reconhecível, tendem a ganhar valor justamente por não serem replicáveis por máquinas.
Nesse ponto, a fala de will.i.am dialoga diretamente com a força das experiências ao vivo, da presença física e da curadoria cultural. Shows, rádio, repertório e memória coletiva surgem como territórios onde a tecnologia pode auxiliar, mas não substituir a dimensão humana da criação.
Protestos, direitos autorais e o impasse europeu
A entrevista também reconhece a legitimidade das preocupações levantadas por artistas como Damon Albarn e Annie Lennox, que criticaram mudanças recentes na legislação britânica de direitos autorais. Para will.i.am, esses alertas são importantes, mas insuficientes se não vierem acompanhados de propostas viáveis de remuneração e controle.
O licenciamento opcional, segundo ele, permite equilibrar inovação tecnológica e proteção cultural sem travar o desenvolvimento de ferramentas que já fazem parte do cotidiano criativo.
Um debate que vai além da música
O impacto da entrevista não está apenas nas declarações, mas no momento em que elas surgem. Em 2026, a discussão sobre IA deixou de ser especulativa para se tornar operacional. O que antes era previsão agora exige decisões práticas de empresas, governos e instituições culturais.
Ao tratar a criatividade como um ativo humano ampliado pela tecnologia, e não como algo descartável, will.i.am reposiciona o artista no centro do debate. Não como vítima passiva da automação, mas como agente ativo na definição das regras do jogo.
Mais do que prever o futuro da música, a entrevista aponta para uma questão maior: quem define o valor da criação em uma era em que produzir conteúdo é fácil, mas atribuir significado continua sendo profundamente humano.
Veja a seguir a entrevista na íntegra de will.i.am ao Bloomberg Technology.


