MADONNA EXPÕE IMPASSE DE SUA CINEBIOGRAFIA
EM ENTREVISTA À INTERVIEW, ARTISTA DETALHA RUPTURA COM A UNIVERSAL E ENTRAVES NA NETFLIX
João Carlos
23/06/2026
Madonna voltou à capa da Interview Magazine pela 11ª vez — um recorde na história da publicação — e aproveitou a conversa para esclarecer uma das maiores dúvidas recentes de sua carreira: o destino de sua aguardada cinebiografia. Publicada em 22 de junho, a entrevista foi conduzida em Londres por Mel Ottenberg, editor-chefe da revista.
Além dos bastidores do filme, Madonna falou sobre a tentativa de transformar sua história em série, a parceria com Julia Garner, a criação de Confessions II, conflitos familiares, espiritualidade, redes sociais e as lembranças dos clubes de Nova York que ajudaram a lançar sua carreira.
O filme que não coube no orçamento
Madonna contou que passou dois anos trabalhando no roteiro e outros dois na Universal Pictures, ao lado de produtores responsáveis pelo orçamento e pela escolha do elenco. Segundo a cantora, o projeto desmoronou quando ela e o estúdio não chegaram a um acordo sobre o custo da produção.
“Tive uma vida enorme, então precisava de um grande orçamento”, resumiu a artista. Para ela, uma trajetória que atravessa mais de quatro décadas de música, cinema, moda, turnês e transformações culturais não poderia ser contada como uma produção pequena.
O longa havia sido anunciado em 2020, com Madonna como diretora e corroteirista. Diablo Cody, vencedora do Oscar por Juno, trabalhou em uma versão inicial do texto, posteriormente desenvolvida com Erin Cressida Wilson. Julia Garner, conhecida por Ozark, foi escolhida para interpretar a cantora após um longo processo de preparação e testes.
A entrevista original, porém, não confirma a informação de que a Universal teria exigido uma história mais leve ou comercial. O motivo apresentado diretamente por Madonna foi a divergência sobre o orçamento da cinebiografia. A tensão criativa aparece principalmente na sensação da artista de que os executivos não confiavam plenamente em sua proposta.
A alternativa de filmar na Sérvia
Na tentativa de reduzir despesas, Madonna sugeriu transferir parte das filmagens para a Sérvia. De acordo com seu relato, representantes do estúdio responderam que não acreditavam que ela permaneceria no país por mais de quatro dias.
A cantora rebateu lembrando que sua história sempre foi marcada pela sobrevivência e que não viajaria para lá a passeio. Para Madonna, o comentário revelou uma falta de confiança em seu comprometimento como diretora e responsável pelo projeto. A Universal não apresentou uma resposta pública às declarações até a publicação das primeiras reportagens internacionais sobre a entrevista.
O roteiro virou outro obstáculo
Quando o filme caiu na Universal, a Netflix procurou Madonna para estudar uma adaptação em formato de série. O novo caminho, entretanto, trouxe um problema jurídico e financeiro: segundo a artista, ela não poderia reutilizar o roteiro desenvolvido no projeto anterior sem recomprá-lo da Universal por um valor que classificou como “extorsivo”.
Em termos mais precisos, Madonna não teria que comprar os direitos sobre a própria vida, mas recuperar o direito de utilizar aquele roteiro específico, criado dentro do acordo com o estúdio.
Também foi difícil encontrar o profissional que comandaria a série. Madonna afirmou que passou oito ou nove meses reunindo-se com roteiristas e procurando o showrunner adequado. Quando finalmente apareceu um nome que a agradava, seu novo álbum já estava mais de 75% concluído, e ela decidiu não interromper o trabalho musical.
Por isso, a série não deve ser apresentada como oficialmente cancelada. O projeto permanece sem cronograma divulgado. Em 2025, veículos como Deadline e Variety informaram que a produção estava em desenvolvimento inicial na Netflix com o produtor e diretor Shawn Levy.
Julia Garner continua por perto

Créditos da imagem: Instagram/Madonna
Apesar do fim do longa na Universal, a ligação artística entre Madonna e Julia Garner não terminou. Na entrevista, a cantora contou que as duas filmaram em Veneza uma participação na segunda temporada de The Studio, produção da Apple TV+.
A cena levou Madonna de volta a uma gôndola na cidade onde, em 1984, gravou o famoso videoclipe de “Like a Virgin”. Garner, que havia sido escolhida para interpretá-la na cinebiografia, aparece ao seu lado nessa nova passagem pela Itália.
Do impasse no cinema nasceu Confessions II
Com o projeto audiovisual parado, Madonna procurou novamente o produtor Stuart Price, responsável pelo álbum Confessions on a Dance Floor, de 2005. A ideia era transformar um período pessoal difícil em música capaz de oferecer energia e senso de comunidade.
A cantora disse ter pensado que o mundo estava atravessando um momento sombrio e que “as pessoas precisam dançar”. Dessa reunião nasceu Confessions II, continuação direta do disco de 2005, com lançamento marcado para 3 de julho pela Warner Records.
O álbum mistura a euforia das pistas com temas bastante pessoais. Madonna escreveu sobre a morte da madrasta, a doença e a perda do irmão Christopher e sua relação com a filha mais velha, Lourdes Leon. Segundo ela, Lola propôs que as duas escrevessem uma música juntas como forma de reconstruir e curar a relação entre mãe e filha.
A pista como lugar de encontro
Outro destaque da conversa foi “Danceteria”, faixa inspirada no clube nova-iorquino onde Madonna começou a construir sua carreira. Ela relembrou a época em que tinha pouco dinheiro, mudava constantemente de endereço e tentava convencer o DJ Mark Kamins a ouvir sua fita demo.
Quando “Everybody” finalmente foi tocada na pista e o público continuou dançando, a reação abriu caminho para que Michael Rosenblatt a apresentasse a Seymour Stein, fundador da Sire Records.
Madonna também revelou ter gravado com Arca e Stuart Price uma música chamada “What Will Save Me”, que não entrou no novo álbum. A faixa nasceu de conversas sobre a sensação de ser diferente e sobre como os clubes podem criar pertencimento sem a necessidade de palavras.
Menos celular, mais papel e espiritualidade
Em momentos mais leves da entrevista, Madonna afirmou que evita permanecer muito tempo no Instagram porque a experiência costuma deixá-la deprimida. Ela prefere escrever letras, listas e anotações à mão e chega a preencher vários cadernos por semana.
A cantora também falou sobre sua formação católica, a ligação emocional que ainda mantém com igrejas e rituais, sua prática de orações e meditação e os estudos de Cabala que realiza há muitos anos.
No fim, a entrevista apresenta três situações diferentes: o filme da Universal está engavetado, a série da Netflix continua sem definição pública e Confessions II está concluído e prestes a chegar ao público. Madonna não abandonou definitivamente a ideia de contar sua vida nas telas, mas, diante dos impasses de Hollywood, decidiu voltar ao lugar onde sempre encontrou liberdade: a música.


