MICHAEL JACKSON NO BRASIL: HÁ EXATOS 30 ANOS O CANTOR CHEGAVA AO PAÍS COM SPIKE LEE
A HISTÓRIA COMPLETA DA GRAVAÇÃO DE “THEY DON’T CARE ABOUT US”, O CLIPE QUE MARCOU A PASSAGEM DE MICHAEL JACKSON PELO BRASIL
João Carlos
09/02/2026
A história do clipe de Michael Jackson gravado no Brasil começa muito antes das câmeras ligarem no Pelourinho, em Salvador. Ela nasce de um contexto artístico, político e pessoal específico, no momento em que o cantor decidiu usar sua música de forma ainda mais direta como instrumento de denúncia social.
A ideia e o contexto da música

Crédito da imagem: Capa do álbum HIStory: Past, Present and Future, Book I / Epic Records / Sony Music
“They Don’t Care About Us” foi composta por Michael Jackson no início dos anos 1990 e lançada em 1995 no álbum HIStory: Past, Present and Future, Book I. A canção surgiu como uma resposta direta às experiências de perseguição midiática, acusações públicas e à percepção do artista sobre desigualdade, racismo, violência institucional e exclusão social ao redor do mundo.
Desde o início, Michael pensou a música como algo maior do que um single. Ela precisava de imagens fortes, reais, que conectassem o discurso da letra a lugares onde as tensões sociais fossem visíveis e incontornáveis. Para isso, ele recorreu novamente ao cineasta Spike Lee, parceiro criativo com quem já havia trabalhado em outros projetos audiovisuais.
O conceito do clipe e a escolha do Brasil

Crédito da imagem: Getty Images
A ideia central do clipe era simples e poderosa: mostrar comunidades historicamente marginalizadas como protagonistas, não como cenário. O Brasil surgiu naturalmente nesse processo. Para Michael Jackson e Spike Lee, o país reunia contradições profundas — riqueza cultural, desigualdade social, herança da escravidão e uma população negra vibrante e ativa culturalmente.
Salvador, com sua história afro-brasileira e musical, tornou-se o ponto focal do projeto. A presença do Olodum não foi decorativa: o grupo simbolizava resistência cultural, identidade negra e ocupação do espaço público por meio da música.
A chegada ao Brasil e o impacto imediato
Michael Jackson desembarcou no Brasil em 9 fevereiro de 1996, e sua chegada gerou uma comoção imediata. A imprensa local e internacional passou a acompanhar cada movimento do artista, com helicópteros, transmissões ao vivo e cobertura intensa dos principais jornais e emissoras de TV.
No Pelourinho, o clima era de expectativa absoluta. Moradores lotaram sacadas, ruas e ladeiras para acompanhar as gravações. Diferentemente de grandes produções isoladas do público, Michael fez questão de estar no meio das pessoas, dançando, cantando e interagindo com crianças e músicos locais.
As gravações em Salvador
As cenas no Pelourinho foram registradas com Michael Jackson cercado por integrantes do Olodum, moradores da região e figurantes locais. O roteiro priorizava movimento, multidão, batidas percussivas e expressões de alegria e resistência, criando um contraste direto com a dureza da letra.
A gravação foi também um gesto simbólico: um dos maiores artistas do mundo ocupando um espaço historicamente marginalizado, deslocando o centro do pop global para o coração da cultura afro-brasileira.
O bloco do Rio de Janeiro: favela, resistência e reconhecimento
Além da Bahia, o clipe também teve gravações no Rio de Janeiro, em dois cenários distintos e igualmente simbólicos. Um deles foi o antigo Presídio Frei Caneca.
O outro cenário foi o Favela Santa Marta, na zona sul da cidade. A escolha do local não estava no plano inicial, mas ganhou força durante a produção por representar, de forma direta, a desigualdade urbana brasileira. Michael gravou no topo da comunidade, cercado por moradores, crianças e dançarinos locais, transformando a favela em palco e protagonista do clipe.
A decisão gerou resistência inicial de autoridades, que temiam que as imagens reforçassem estigmas negativos do Brasil no exterior. Ainda assim, as gravações aconteceram e se tornaram uma das sequências mais lembradas do vídeo. Anos depois, como reconhecimento simbólico da importância daquele momento para a história da comunidade, a Favela Santa Marta recebeu uma estátua de Michael Jackson, instalada no local exato onde ele dançou e cantou durante as filmagens, transformando o espaço em ponto turístico e memorial cultural.
As duas versões do vídeo

Crédito da imagem: Reprodução / Videoclipe “They Don’t Care About Us” (versão 2)
A música ganhou duas versões oficiais de videoclipe. A primeira foi gravada no Brasil, em Salvador e no Rio de Janeiro. A segunda foi produzida em estúdio, com cenários que simulam um presídio, ampliando o caráter simbólico e político da obra, sem ligação direta com o Brasil.
Essa divisão refletiu a recepção internacional do clipe. Enquanto parte do público se concentrou na polêmica, outra passou a valorizá-lo como um manifesto visual de empoderamento. A seguir, assista à versão gravada no Brasil; a segunda versão não está disponível nos canais oficiais de Michael Jackson.
A recepção da mídia e o legado
Na época, a mídia brasileira se dividiu entre o orgulho nacional e discussões sobre a imagem do país no exterior. Já a imprensa internacional reconheceu o clipe como um dos mais ousados e politicamente engajados de Michael Jackson.
Com o tempo, a leitura amadureceu. O vídeo passou a ser visto como um marco de representação cultural e como um dos raros momentos em que o pop global se voltou diretamente para realidades sociais fora do eixo tradicional Estados Unidos–Europa.
Uma mensagem que atravessou décadas
“They Don’t Care About Us” permanece atual porque sua mensagem nunca deixou de ser necessária. O clipe não apenas documentou um momento histórico, mas ajudou a projetar a cultura afro-brasileira e as periferias urbanas para o mundo, associando-as a uma narrativa global de resistência e dignidade.
Quase três décadas depois, as imagens de Michael Jackson ao lado do Olodum no Pelourinho e dançando na Favela Santa Marta continuam sendo lembradas não apenas como um episódio marcante da cultura pop, mas como um dos capítulos mais significativos da relação entre música, política e identidade no audiovisual contemporâneo.


