MUNDO DA MÚSICA SE DESPEDE DE VICTOR WILLIS
VOZ ORIGINAL DO VILLAGE PEOPLE E COAUTOR DE “Y.M.C.A.” MORREU AOS 74 ANOS APÓS UMA DOENÇA RÁPIDA E AGRESSIVA
João Carlos
01/07/2026
Victor Willis, vocalista original, cofundador e uma das principais forças criativas do Village People, morreu na terça-feira (30), aos 74 anos, um dia antes de completar 75. A informação foi confirmada por sua esposa, Karen Huff-Willis, e pelas páginas oficiais do grupo. Segundo o comunicado, o artista enfrentou uma doença “curta, mas agressiva”. A família pediu privacidade e, até o momento, não divulgou o diagnóstico médico específico.
Para o grande público, Willis será sempre lembrado como o carismático “policial” do Village People, personagem que ele também alternava com a imagem de oficial da Marinha. Mas seu papel ia muito além do figurino: ele foi a voz principal e coautor de sucessos que atravessaram gerações, como “Y.M.C.A.”, “Macho Man”, “In the Navy” e “Go West”.
A voz que marcou a era disco
Antes de virar um símbolo da disco music, Victor Willis construiu sua formação artística no teatro e na música. Cresceu em San Francisco, cantou na igreja do pai, um pastor batista, e depois se mudou para Nova York, onde integrou a Negro Ensemble Company e participou da montagem original de “The Wiz” na Broadway.
A virada veio quando ele conheceu o produtor francês Jacques Morali. A ideia inicial era gravar um projeto de estúdio, mas a energia de Willis no vocal ajudou a transformar a proposta em algo muito maior. Com o sucesso das primeiras gravações, nasceu a necessidade de levar ao palco um grupo completo, com personagens marcantes e coreografias fáceis de reconhecer. Assim, o Village People passou a ocupar um lugar único entre música, teatro e cultura pop.
O hino disco que nunca saiu da pista

Crédito da imagem: Reprodução/Amazon UK
Lançada em 1978, “Y.M.C.A.” virou o maior cartão de visitas do grupo. A música chegou ao segundo lugar nos Estados Unidos, liderou paradas em vários países e acabou entrando para o National Recording Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, reconhecimento reservado a gravações consideradas culturalmente importantes.
Com braços formando letras, refrão simples e clima de celebração, a canção saiu das discotecas e foi parar em casamentos, eventos esportivos, filmes, comerciais e festas de diferentes gerações. O Village People vendeu mais de 100 milhões de discos entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1980, segundo ensaio publicado pela Biblioteca do Congresso.
Mais que intérprete
Willis deixou o grupo no fim dos anos 1970, retornou brevemente nos anos 1980 e, depois de um longo período afastado, voltou ao comando do Village People em 2017. Nesse intervalo, protagonizou uma disputa importante pelos direitos de suas composições. Em 2012, venceu uma batalha judicial baseada na Lei de Direitos Autorais dos Estados Unidos, abrindo caminho para recuperar participação em obras que havia escrito.
A vitória teve peso simbólico e financeiro. O caso foi visto como um precedente para compositores que buscavam retomar o controle de catálogos antigos. Mais tarde, Willis também ampliou sua participação em músicas centrais do repertório do grupo e reassumiu oficialmente a liderança do projeto.
Últimos meses de atividade
A morte surpreendeu fãs justamente porque Victor Willis seguia em plena atividade artística. Poucas semanas antes, o Village People havia concluído uma etapa da turnê europeia e permanecia com agenda ativa de apresentações. O grupo também lançou a inédita "Disco Star", em 29 de maio.
Um legado também marcado por debates
Nos últimos anos, Willis voltou ao noticiário por causa do uso de “Y.M.C.A.” em eventos políticos ligados a Donald Trump. O grupo chegou a se apresentar durante as festividades da posse presidencial de 2025 e defendeu publicamente que a música deveria ser apresentada “sem levar em conta a política”.
Outro ponto sensível envolveu a interpretação de “Y.M.C.A.” como hino LGBTQ+. A canção foi amplamente abraçada pela comunidade ao longo das décadas, mas Willis passou a reforçar que essa não era, segundo ele, a intenção original da letra. Ainda assim, o artista reconhecia que não se incomodava com a adoção da música como um símbolo de celebração e pertencimento.
Uma despedida em ritmo de memória afetiva
Victor Willis deixa uma história rara: a de um artista que cantou, escreveu, brigou por seus direitos e viu uma música de pista se transformar em patrimônio cultural. Sua voz carregava o espírito luminoso da era disco, mas também a força de quem ajudou a criar um repertório que nunca dependeu de época para funcionar.
O adeus ao vocalista do Village People é também uma lembrança do poder de uma canção pop quando ela escapa do estúdio e vira gesto coletivo. Bastavam quatro letras, um refrão e alguns segundos para qualquer multidão entender: era hora de levantar os braços e celebrar.


