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O COUNTRY É O NOVO POP?

DE TAYLOR SWIFT A BEYONCÉ, COMO O GÊNERO SAIU DE SEU NICHO E CONQUISTOU O CENTRO DAS PARADAS AMERICANAS EM POUCOS ANOS

João Carlos

18/08/2026

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Crédito da imagem: Reprodução/Spotfy

Por décadas, a música country ocupou um território muito bem definido nos Estados Unidos. Tinha suas próprias rádios, grandes estrelas, festivais e uma audiência fiel, mas raramente conseguia transformar essa força em domínio absoluto das principais paradas de música popular.

Esse cenário mudou.

Em agosto de 2026, aconteceu algo inédito nos 68 anos da Billboard Hot 100: pela primeira vez, músicas country ou fortemente influenciadas pelo gênero ocuparam simultaneamente as cinco primeiras posições do ranking geral americano.

No topo estava Ella Langley, com “Choosin’ Texas”. E ela continua por lá: na atualização desta semana, a cantora permanece na liderança da Hot 100. Naquele Top 5 histórico, apareciam ainda Morgan Wallen, Taylor Swift, novamente Langley em parceria com Wallen, e a jovem Stella Lefty.

Foi a fotografia perfeita de uma transformação que vinha acontecendo havia alguns anos: o country deixou de circular apenas dentro de suas próprias fronteiras e passou a ocupar o coração do mainstream americano.

Mas isso significa que o country se tornou o novo pop?

Uma transformação que ganhou força no streaming

A mudança começou antes dos recordes da Billboard.

O country sempre foi gigantesco nos Estados Unidos, mas demorou mais do que outros gêneros para transferir sua força para o streaming. Quando essa migração finalmente acelerou, os números começaram a mudar rapidamente.

Em 2023, o consumo de áudio sob demanda de música country cresceu 23,8% nos Estados Unidos em relação ao ano anterior, segundo a Luminate. O avanço foi quase duas vezes superior ao crescimento geral do streaming americano naquele período. Ao mesmo tempo, essa nova geração também ganhou espaço nas rádios, expandindo a circulação de artistas e músicas do gênero para além do público tradicional do country.

Dois anos depois, a transformação já aparecia claramente nas grandes paradas.

No primeiro semestre de 2025, o country respondeu por 29% das músicas que chegaram ao Top 10 da Billboard Hot 100, contra apenas 4% em 2021 e 2022.

A ascensão consolidou a capacidade do country de produzir sucessos que não apenas competem diretamente com outros estilos, mas também os superam nas principais paradas da indústria musical.

E poucos exemplos representam melhor essa nova realidade do que Ella Langley.

Ella Langley e o hit que atravessou fronteiras

Lançada em 2025, “Choosin’ Texas” parece, à primeira audição, uma candidata improvável a um dos maiores fenômenos pop de 2026.

A música preserva elementos bastante reconhecíveis do country, incluindo a guitarra pedal steel, uma produção com referências retrô e uma narrativa sobre desilusão amorosa. Ao mesmo tempo, encontrou espaço nas rádios, nas plataformas digitais e nas redes sociais.

O resultado foi extraordinário.

Nesta semana, “Choosin’ Texas” alcançou sua 18ª semana não consecutiva no primeiro lugar da Billboard Hot 100. A música já detém o recorde de maior permanência no topo entre canções não natalinas de uma artista solo feminina, superando marcas históricas de Whitney Houston e Mariah Carey.

O sucesso também ajuda a desmontar uma ideia recorrente sobre o fenômeno atual: para conquistar o público pop, o country não necessariamente precisa deixar de soar country.

“Choosin’ Texas” fez justamente o contrário. Levou uma sonoridade tradicional para uma audiência muito maior.

Quando as fronteiras começaram a desaparecer

Essa expansão também ocorreu porque o próprio conceito de música country ficou mais aberto.

Nos últimos anos, artistas passaram a misturar seus elementos tradicionais com pop, rock, folk, R&B e hip-hop.

Um dos maiores exemplos apareceu em 2024.

Com “A Bar Song (Tipsy)”, Shaboozey transformou uma referência ao hip-hop em um gigantesco sucesso country. A música permaneceu 19 semanas no primeiro lugar da Hot 100 e mostrou que as antigas divisões entre gêneros estavam cada vez menos rígidas.

Post Malone seguiu caminho semelhante com o álbum F-1 Trillion, mergulhando no country depois de construir uma carreira ligada principalmente ao hip-hop e ao pop.

E duas das maiores estrelas da música mundial também ajudaram a ampliar essa conversa: Beyoncé e Taylor Swift.

Beyoncé abriu uma nova porta

Quando Beyoncé lançou Cowboy Carter, em março de 2024, o impacto foi muito além de um experimento musical.

O álbum estreou simultaneamente no primeiro lugar da Billboard 200 e da Top Country Albums, tornando Beyoncé a primeira mulher negra a liderar a parada de álbuns country, criada em 1964.

Antes disso, “Texas Hold ’Em” já havia levado a cantora ao topo da Hot Country Songs.

Cowboy Carter também colocou três músicas simultaneamente nas três primeiras posições da Hot Country Songs, outro feito inédito para uma mulher.

Mais do que transformar Beyoncé em uma artista country, o projeto colocou sob os holofotes internacionais a própria história do gênero, incluindo suas raízes negras, e apresentou esse universo a milhões de ouvintes que talvez não acompanhassem regularmente as paradas de Nashville.

Beyoncé não criou a atual ascensão do country, mas ampliou enormemente o alcance cultural da conversa.

Taylor Swift volta às origens

Com Taylor Swift, a relação é diferente.

Antes de se tornar uma das maiores estrelas pop do mundo, a cantora começou justamente no country.

Em 2026, ela voltou a encontrar espaço nas paradas do gênero com “I Knew It, I Knew You”, música gravada para a trilha sonora de Toy Story 5. A faixa chegou ao primeiro lugar da Hot 100 e, semanas depois, integrou o histórico Top 5 dominado por músicas country.

Há um simbolismo interessante nessa trajetória.

No início da carreira, Taylor precisou atravessar a ponte entre Nashville e o pop mundial. Hoje, ela consegue percorrê-la nos dois sentidos.

E essa ponte está cada vez mais movimentada.

As mulheres assumem o centro do country

Talvez uma das maiores transformações desta nova fase esteja justamente em quem aparece no topo.

Durante muito tempo, o country comercial americano teve forte predominância masculina, especialmente nas rádios. Em 2026, uma nova geração de mulheres passou a ocupar posições que ajudam a redesenhar esse cenário.

Ella Langley é hoje o exemplo mais evidente. Além do fenômeno “Choosin’ Texas”, a cantora colocou outras músicas entre os maiores sucessos americanos e se consolidou como um dos principais nomes da nova geração.

Megan Moroney também ganhou enorme espaço nos álbuns e no streaming, enquanto Lainey Wilson se estabeleceu nos últimos anos entre as principais representantes femininas do gênero.

Há ainda nomes emergentes, como Stella Lefty, cuja “Boston” chegou ao Top 10 da Hot 100 em 2026.

O resultado é um country mais plural, tanto musicalmente quanto em relação aos artistas capazes de chegar ao grande público.

Morgan Wallen e os números de uma superestrela pop

Se Ella Langley simboliza a grande explosão de 2026, Morgan Wallen ajuda a explicar a dimensão comercial que o country alcançou nos últimos anos.

Em maio de 2025, com o lançamento do álbum

I’m the Problem, Wallen colocou 37 músicas simultaneamente na Billboard Hot 100, quebrando seu próprio recorde de 36.

Nada parecido havia sido alcançado por qualquer outro artista na história da parada.

Na mesma semana, seis músicas de Wallen estavam simultaneamente no Top 10, outra marca inédita para um artista predominantemente country.

Ele ainda ocupou sozinho as três primeiras posições da Hot 100, algo que nenhum artista country havia conseguido anteriormente.

Entre seus maiores sucessos estão “Last Night”, que permaneceu 16 semanas no primeiro lugar em 2023, e as líderes “Love Somebody”, “What I Want”, com Tate McRae, além de sua participação em “I Had Some Help”, de Post Malone.

São números normalmente associados às maiores estrelas do pop e do hip-hop. Agora, também fazem parte do universo country.

Então, o country é realmente o novo pop?

Talvez a resposta seja mais interessante do que um simples sim.

O que aconteceu foi uma transformação diferente.

O gênero deixou de depender exclusivamente de seu próprio ecossistema para produzir fenômenos nacionais. Hoje, uma música pode nascer em Nashville, crescer no TikTok, conquistar o streaming, atravessar as rádios country e terminar disputando o primeiro lugar da mesma parada ocupada por Taylor Swift, Ariana Grande, Drake ou Bruno Mars.

E, nesse processo, as fronteiras ficaram cada vez menos importantes.

O pop sempre foi, em grande medida, o espaço onde diferentes estilos se encontram quando alcançam uma audiência de massa.

Se essa definição continuar valendo, talvez o country não seja exatamente o novo pop.

Ele simplesmente se tornou uma das forças que estão definindo o que é pop agora.

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