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O DIA EM QUE GEORGE HARRISON FOI CONDENADO POR PLÁGIO INCONSCIENTE

JUSTIÇA CONCLUIU QUE “MY SWEET LORD” COPIOU “HE’S SO FINE”, MESMO SEM INTENÇÃO DO EX-BEATLE

João Carlos

31/08/2026

Placeholder - loading - Crédito da imagem: Universal Music
Crédito da imagem: Universal Music

É possível copiar uma música sem perceber que está fazendo isso? Um dos casos mais famosos da história da música mostrou que, para a Justiça, a resposta pode ser sim.

Em 31 de agosto de 1976, há exatos 50 anos, George Harrison recebeu uma decisão desfavorável em uma disputa envolvendo “My Sweet Lord”, um dos maiores sucessos de sua carreira solo. A Justiça americana concluiu que a composição apresentava semelhanças suficientes com “He's So Fine”, escrita por Ronald Mack e transformada em sucesso pelo grupo The Chiffons em 1963, para caracterizar violação de direitos autorais.

O detalhe que tornou o processo histórico é que o juiz Richard Owen não considerou que Harrison tivesse copiado deliberadamente a canção. A conclusão foi muito mais curiosa: o ex-Beatle teria reproduzido elementos da música de maneira subconsciente.

Uma melodia guardada na memória

Crédito da imagem: Reprodução/Deezer

“He's So Fine” não era uma música desconhecida quando Harrison começou a construir sua carreira. A gravação das Chiffons chegou ao primeiro lugar nos Estados Unidos e também fez sucesso no Reino Unido em 1963, justamente durante a explosão da Beatlemania.

Créditos da imagem: Reprodução/Spotfy

Anos depois, Harrison contou que “My Sweet Lord” começou a nascer enquanto estava em Copenhague, tocando acordes de guitarra e experimentando palavras como “Hallelujah” e “Hare Krishna”. Billy Preston também participou daquele processo criativo.

O tribunal não precisou rejeitar essa versão para chegar à conclusão de que havia ocorrido uma infração. A interpretação foi de que Harrison conhecia “He's So Fine” e poderia ter recuperado inconscientemente aquela estrutura musical enquanto procurava uma melodia para sua própria composição.

Nascia daí uma expressão que ficaria associada para sempre ao processo: “subconscious copying”, ou cópia subconsciente. Ouça a seguir as duas canções.

O que havia de parecido entre as músicas?

A análise foi além da impressão de que as duas canções simplesmente “soavam parecidas”.

O tribunal examinou sequências de notas, repetições, motivos melódicos e harmonias presentes nas duas composições. A combinação desses elementos levou o juiz a considerar que a semelhança era grande demais para ser ignorada.

Isso criou uma situação particularmente desconfortável para qualquer compositor: Harrison poderia estar dizendo a verdade ao afirmar que não pretendia copiar ninguém e, ainda assim, ser responsabilizado por violação de direitos autorais.

A decisão de agosto de 1976, porém, não encerrou a história. A disputa financeira continuou e ganhou novos capítulos durante anos.

Até um empresário entrou na história

Crédito da imagem: ABKCO

Um deles envolveu Allen Klein, antigo empresário de Harrison e dos Beatles. Durante o prolongado conflito, a empresa de Klein, a ABKCO, adquiriu por US$ 587 mil os direitos de “He's So Fine” e interesses relacionados ao processo.

A situação provocou outra disputa judicial, já que Klein havia anteriormente representado Harrison e conhecia detalhes de seus negócios.

O caso, que começou com algumas notas musicais parecidas, havia se transformado em um enorme quebra-cabeça jurídico e financeiro.

George Harrison respondeu com música

Harrison encontrou uma maneira muito mais divertida de comentar o episódio.

No mesmo ano, Harrison lançou “This Song”, faixa do álbum Thirty Three & 1/3 inspirada, com bom humor, pela experiência nos tribunais. Na letra, o músico brincava justamente com a dificuldade de determinar quando uma sequência musical pertence a alguém e até onde um compositor pode criar sem esbarrar, involuntariamente, em algo que já ouviu.

A discussão continua atual. Processos envolvendo grandes nomes da música nas décadas seguintes voltaram repetidamente à mesma questão: onde termina a influência e começa o plágio?

No caso de George Harrison, a Justiça chegou a uma resposta particularmente intrigante. O músico não precisaria ter decidido copiar “He's So Fine”. Bastava que, em algum lugar de sua memória, aquela melodia ainda estivesse tocando.

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