O FUTURO DA MOBILIDADE: DA FICÇÃO ÀS PRIMEIRAS ESTRUTURAS
EMPRESAS PRIVADAS, ESTADOS E PESQUISADORES APONTAM PRAZOS, DESAFIOS E INVESTIMENTOS QUE PODEM TRAZER TECNOLOGIAS PARA O MUNDO REAL
João Carlos
01/01/2026
Imagine um corredor de transporte onde cápsulas levitam, movendo-se por tubos com perda mínima de ar, quase como aquelas que vemos em filmes futuristas. Essa visão pode parecer distante das cidades brasileiras e das estradas do dia a dia, mas hoje ela já é objeto de pesquisa financiada por grupos privados e instituições públicas no mundo inteiro. O que antes parecia ficção científica está se tornando um projeto concreto nas pranchetas de engenheiros e nos corredores de centros de pesquisa.
Quem são os players e quanto já foi investido
O cenário global é composto por empresas privadas, consórcios internacionais e programas estatais, cada qual com diferentes níveis de ambição e recursos.
Um levantamento recente da União Europeia mostra que empresas como Zeleros, com sede na Espanha e liderada pelo CEO David Pistoni, receberam cerca de €18 milhões em investimentos públicos e privados combinados, além de apoios de programas como Horizon 2020 e Horizon Europe, para financiar pesquisa e prototipagem de tecnologia hyperloop e seus componentes principais. A província holandesa de Groningen adicionou outro aporte de €3 milhões para um centro de testes, e a região de **Castilla-La Mancha anunciou um investimento de €50 milhões para construção de uma pista de teste em escala real nos próximos anos.
Outra startup europeia, a polonesa Nevomo, que começou como Hyper Poland, recebeu apoio financeiro de programas como o European Innovation Council (EIC) e investimentos de fundos privados como Hütter Private Equity. Seu cofundador e CTO tem reiterado em entrevistas técnicas que a empresa está focando em tecnologia MagRail — uma forma inicial de levitação magnética que pode ser integrada à ferrovia existente antes de evoluir para um sistema tubular completo.
Grandes empresas do setor de infraestrutura e engenharia, como AECOM e Bombardier, também aparecem em análises de mercado como parceiras estratégicas ou potenciais fornecedores de componentes para projetos de alta velocidade e transporte hiper-rápido, o que demonstra que grupos de capital aberto estão olhando para o setor com interesse financeiro ou colaborativo, mesmo que indiretamente.
Especialistas reconhecem: mercado em construção

Crédito da imagem: gerada por inteligência artificial.
Em um relatório técnico analisando o mercado global, a consultoria TechSci Research prevê que o mercado de tecnologia hyperloop pode crescer de cerca de USD 2,11 bilhões investidos em 2024 para quase USD 19,55 bilhões em 2030, com uma taxa anual de crescimento de quase 45%, apesar de reconhecer que “o desenvolvimento de infraestrutura extensa ainda enfrenta grandes custos de capital”. Isso ressalta que há dinheiro e interesse, mas também desafios práticos significativos.
A colaboração entre empresas privadas e governos é apontada como um fator decisivo para que tecnologias experimentais avancem além da fase de protótipo. Centros de pesquisa e análises do setor indicam que modelos cooperativos de financiamento, regulação e desenvolvimento são essenciais para transformar conceitos inovadores em projetos viáveis, capazes de operar em escala real e atender às demandas de infraestrutura de longo prazo.
Investimentos públicos e colaborações estratégicas
Os investimentos não vêm apenas de fundos privados. Instituições públicas e governos desempenham papel central em financiar pesquisa e testes estruturais. Programas da União Europeia como os Eureka Eurostars, CDTI Innovación na Espanha e subsídios regionais destinam recursos à pesquisa aplicada e à construção de pistas de teste, muitas vezes em colaboração com startups e centros acadêmicos.
No Brasil, interlocutores de tecnologia como a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) têm articulado parcerias com empresas como a Hyperloop Transportation Technologies (Hyperloop TT) para explorar estudos de viabilidade e inovação — um movimento que, embora ainda embrionário, sinaliza interesse de atores públicos em colocar o país na conversa global sobre mobilidade avançada. Em entrevista à ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), Dirk Ahlborn, fundador e chairman da Hyperloop Transportation Technologies (Hyperloop TT), afirmou que “o Brasil pode se tornar parte da logística do futuro”, destacando que a tecnologia não busca resolver um único problema isolado, mas repensar de forma ampla a infraestrutura de transporte e a integração entre modais.
Números e prazos: quando isso pode funcionar?
Embora existam aportes financeiros e protótipos, ainda não há uma linha hyperloop comercial em operação no mundo, e especialistas concordam que isso não deve acontecer de forma comercial antes da década de 2030 ou mesmo mais tarde. Os investimentos em testes, padronização regulatória e integração com sistemas existentes são etapas necessárias antes de colocar passageiros em rotas operacionais.
Segundo analistas de mercado, projetos piloto e demonstradores em rota curta são esperados ao longo dos próximos anos, especialmente em regiões com forte apoio estatal e capacidade de investimento público-privado. Essa fase permitirá testar operações, modelos de manutenção e impacto econômico em corredores específicos antes de qualquer adoção em escala.
Por que isso importa
Longe de ser apenas uma curiosidade tecnológica, o avanço desses projetos tem implicações profundas para a sociedade. A redução do tempo de deslocamento entre cidades tende a gerar ganhos econômicos e sociais relevantes, ao mesmo tempo em que abre espaço para uma integração mais eficiente entre diferentes modais, como sistemas ferroviários urbanos e cadeias de logística automatizada. Esse movimento também influencia diretamente políticas públicas de infraestrutura e planejamento urbano, reforçando a ideia de que o futuro da mobilidade não está apenas no veículo em si, mas na forma como ele se conecta às cidades, aos fluxos econômicos e às necessidades reais da população.


