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POR QUE O MUSEU DO HALL DA FAMA DO ROCK FICA EM CLEVELAND

CIDADE VENCEU A DISPUTA PELA SEDE DA INSTITUIÇÃO AO UNIR ALAN FREED, O PRIMEIRO GRANDE CONCERTO DE ROCK E UMA CAMPANHA POPULAR

João Carlos

17/06/2026

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Crédito da imagem: gerada por IA

Quem acompanha a cerimônia anual de indução ao Hall da Fama do Rock talvez não saiba que, por trás da celebração que reúne alguns dos maiores nomes da música, existe também um dos museus mais importantes dos Estados Unidos dedicados à preservação da história do gênero. Mas há uma pergunta que desperta a curiosidade de muitos fãs: por que o Rock & Roll Hall of Fame foi construído em Cleveland, no estado de Ohio?

A resposta passa por uma combinação de relevância histórica, mobilização popular e investimento público. Mais do que reivindicar uma ligação simbólica com as origens do rock and roll, Cleveland apresentou os argumentos que acabaram pesando na decisão da fundação responsável pelo projeto quando, na década de 1980, teve início a busca por uma sede permanente para abrigar o acervo do museu.

Em 1985, a Rock & Roll Hall of Fame Foundation iniciou oficialmente o processo para definir onde seria instalado o museu. Cleveland entrou na disputa com uma campanha de apoio popular sem precedentes, respaldo de lideranças políticas e empresariais e a garantia de US$ 65 milhões para viabilizar o empreendimento. A proposta acabou superando candidaturas de cidades como Nova York, Memphis, Chicago e San Francisco, consolidando a escolha que transformaria Cleveland em um dos principais destinos ligados à história do rock.

Alan Freed e a origem de tudo

Crédito da imagem: Hulton Archive

O principal argumento histórico de Cleveland passa por Alan Freed, radialista que trabalhou na estação WJW no início dos anos 1950. Freed ficou conhecido por levar ao rádio discos de rhythm and blues que ajudaram a formar a base do rock and roll e por popularizar o termo junto ao público jovem. O próprio Rock & Roll Hall of Fame define Freed como um dos maiores divulgadores do gênero e lembra sua importância na promoção dos discos que serviram de fundamento para o rock.

Há um detalhe importante para evitar simplificação: a expressão “rock and roll” já existia antes de Freed. Pesquisadores ligados à Cleveland Historical observam que o termo antecede o radialista em várias décadas, mas foi em Cleveland que Freed ajudou a transformar a expressão em uma identificação popular para aquela nova mistura musical que circulava entre R&B, pop e country.

O primeiro grande show de rock

Outro ponto decisivo foi o Moondog Coronation Ball, realizado em Cleveland em 21 de março de 1952. O evento, organizado por Alan Freed, Leo Mintz e outros produtores locais, é frequentemente apontado como o primeiro grande concerto de rock and roll da história. O Guinness World Records registra o show como o primeiro concerto de rock and roll e informa que ele aconteceu no Cleveland Arena, em Ohio.

A apresentação acabou interrompida por superlotação e problemas de organização, mas seu impacto histórico permaneceu. A Encyclopedia of Cleveland History também trata o Moondog Coronation Ball como o evento geralmente considerado o primeiro show de rock and roll do mundo, apesar do desfecho caótico.

A campanha que levou o museu para Cleveland

Créditos da imagem: Reprodução/Redes Sociais

A disputa pela sede foi intensa. A ideia original do Rock & Roll Hall of Fame partiu de nomes da indústria musical, como Ahmet Ertegun, cofundador da Atlantic Records, e a fundação foi criada em 1983. Segundo a Britannica, a instituição começou a induzir artistas em 1986, mas o museu físico só seria aberto em Cleveland em 1995.

Cleveland, porém, transformou a candidatura em uma causa pública. A Cleveland Historical registra que a cidade usou sua ligação com Alan Freed, o Moondog Coronation Ball, rádios locais, casas de show e lojas de discos para sustentar sua candidatura. A campanha ganhou força com uma votação promovida pelo USA Today, em que ouvintes ajudaram Cleveland a conquistar cerca de 120 mil votos, além de uma petição com 600 mil assinaturas apresentada por lideranças locais à fundação.

A escolha foi oficializada em maio de 1986, depois que a disputa se estreitou entre Cleveland, Chicago e Philadelphia. A cidade também se beneficiou do argumento de que o Rock Hall teria em Cleveland um peso turístico e simbólico maior do que teria em Nova York, onde seria apenas uma atração entre muitas outras.

Um prédio para virar símbolo

Créditos da imagem: Reprodução/Rock Hall

Depois da vitória, Cleveland precisava de uma construção à altura da nova função cultural. O projeto foi entregue ao arquiteto I. M. Pei, responsável por criar o edifício de formas geométricas, com pirâmide de vidro e vista para o Lago Erie. A Cleveland Historical lembra que o local final escolhido foi o North Coast Harbor, em terreno público, e que a solução arquitetônica acabou aproximando visualmente o projeto da famosa pirâmide do Louvre, também associada à obra de Pei.

O Rock & Roll Hall of Fame abriu suas portas ao público em 2 de setembro de 1995, com um fim de semana de celebrações que incluiu desfile, cerimônia com nomes como Little Richard e Yoko Ono, além de um grande show no Cleveland Municipal Stadium com artistas como James Brown, Bob Dylan, Jerry Lee Lewis, Aretha Franklin, Johnny Cash e Booker T. and the M.G.’s.

Cleveland é mesmo o berço do rock?

A resposta mais precisa é: Cleveland é um dos berços simbólicos do rock and roll e a cidade que ajudou a batizar, divulgar e institucionalizar o gênero. O rock não nasceu em um único endereço. Ele surgiu de uma confluência de tradições musicais negras e brancas, entre blues, gospel, rhythm and blues, country e pop, espalhadas por diferentes regiões dos Estados Unidos.

Por isso, cidades como Memphis, Detroit, New Orleans, Chicago, New York e outras também têm papel fundamental na história do rock. A diferença é que Cleveland reuniu três trunfos raros: a força de Alan Freed no rádio, o Moondog Coronation Ball como marco dos shows de rock e uma campanha pública poderosa para receber o museu.

No fim, o Rock & Roll Hall of Fame foi construído em Cleveland porque a cidade conseguiu transformar sua ligação com o início do gênero em projeto cultural, político e turístico. Não foi apenas uma questão de nostalgia: foi uma disputa vencida com história, dinheiro, mobilização popular e uma narrativa forte o bastante para convencer a indústria musical de que o rock tinha encontrado sua casa.

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