QUANTO VALE UMA GUITARRA?
VENDA RECORDE COLOCA O INSTRUMENTO NO CENTRO DO MERCADO DE COLECIONÁVEIS
João Carlos
17/03/2026
Ao longo da história da música, poucos instrumentos ocuparam um papel tão central quanto a guitarra. Foi dela que nasceram alguns dos sons mais reconhecíveis já gravados — dos riffs que ajudaram a definir o rock nas mãos de Chuck Berry e Keith Richards às atmosferas construídas por David Gilmour e ao peso característico de Tony Iommi. Nas últimas décadas, o instrumento também encontrou novos caminhos, reaparecendo em diferentes contextos com artistas como Taylor Swift.
Com o tempo, a guitarra deixou de ocupar apenas o espaço de acompanhamento para assumir um papel central. Ela passou a definir identidades sonoras, marcar épocas e, em muitos casos, se tornar parte inseparável da própria obra.
Hoje, está em todo lugar — dos palcos aos estúdios, das gravações clássicas às produções atuais — sempre com a mesma função: dar forma a ideias que não cabem só na voz.
A pergunta, então, parece simples — mas carrega mais camadas do que aparenta:
quanto vale, de fato, uma guitarra?
A venda que mudou o patamar
Uma guitarra usada por David Gilmour em seis álbuns do Pink Floyd foi vendida por US$ 14,6 milhões (cerca de R$ 72 milhões), tornando-se a mais cara já negociada em leilão, segundo a Christie's.
A Fender Stratocaster de 1969, conhecida como “Black Strat”, aparece em gravações de The Dark Side of the Moon, Wish You Were Here e The Wall. O instrumento foi arrematado após 21 minutos de lances, em Nova York.
Mais do que o valor em si, o resultado ajuda a explicar por que guitarras passaram a ocupar um novo espaço no mercado: o de peças históricas.
TOP 10 — As guitarras mais famosas e valiosas
Se durante décadas a guitarra foi avaliada por aspectos técnicos — como construção, madeira e captação — hoje o critério é outro.
Pelo menos parte do mercado passou a olhar para esses instrumentos como peças únicas, ligadas a momentos específicos da história da música. Uma gravação marcante, um show emblemático ou mesmo a assinatura de um artista podem transformar uma guitarra comum em um objeto de alto valor.
Nos últimos anos, leilões organizados por casas como a Christie's ajudaram a consolidar esse movimento. Guitarras passaram a ser tratadas como itens de coleção, disputadas por investidores, fãs e instituições culturais.
A venda recente do instrumento associado a David Gilmour levou esse cenário a um novo patamar e ajuda a organizar um recorte possível desse mercado.
Vamos conferir os instrumentos mais valiosos já registrados, com base nos valores alcançados em leilões internacionais, na relevância histórica e na associação direta com obras ou performances marcantes.
Não se trata de uma lista definitiva, mas de um panorama consistente do que hoje se entende como guitarras de maior impacto e valor no mercado global.
1. “Black Strat” — David Gilmour

Crédito da imagem: Reprodução / Wikipedia
US$ 14,6 milhões
Usada em gravações fundamentais do Pink Floyd.
2. Martin D-18E — Kurt Cobain

Crédito da imagem: Reprodução / guitar.com
US$ 6 milhões
Associada ao acústico do MTV Unplugged in New York.
3. Fender Stratocaster “Reach Out to Asia”

Crédito da imagem: Reprodução / X
US$ 2,7 milhões
Assinada por artistas como Eric Clapton e Paul McCartney.
4. Gibson J-160E — John Lennon

Crédito da imagem: Reprodução / guitar.com
US$ 2,4 milhões
Ligada ao início da trajetória dos The Beatles.
5. “Blackie” — Eric Clapton

Créditos da imagem: Neil Lupin/Redferns via Getty Images
US$ 959 mil
Instrumento central na fase clássica do artista.
6. “Tiger” — Jerry Garcia

Créditos da imagem: Paul Natkin/WireImage
US$ 957 mil
Referência dentro da cena psicodélica.
7. Stratocaster — Stevie Ray Vaughan

Créditos da imagem: Clayton Call/Redferns/Getty
~US$ 600 mil
Ligada à retomada do blues nos anos 1980.
8. “Frankenstrat” — Eddie Van Halen

Crédito da image: Reprodução / Arquivo via ironageaccessories.com
~US$ 400 mil
Associada a mudanças técnicas no instrumento.
9. “Cloud Guitar” — Prince

Crédito da imagem: Reprodução / Arquivo Fox News
~US$ 300 mil
Reconhecida pelo design e presença de palco.
10. Stratocaster de Woodstock — Jimi Hendrix

Crédito da imagem: David Redfern / Redferns
~US$ 200 mil
Ligada a uma das apresentações mais conhecidas da música.
Um novo lugar para a guitarra
Ao longo dos anos 2000, a guitarra perdeu parte do protagonismo que teve nas décadas anteriores, especialmente no universo da música jovem. O espaço que antes era dominado por riffs e solos passou a ser dividido com novas estéticas, batidas eletrônicas e outras formas de produção.
Com isso, o instrumento deixou de carregar exclusivamente a ideia de rebeldia e passou por uma transformação. Em muitos casos, assumiu uma presença mais contida, mais refinada — menos sobre impacto imediato, mais sobre construção e identidade.
Ainda assim, nunca desapareceu.
A guitarra permaneceu relevante, mas em outro lugar: menos como centro absoluto da cultura pop e mais como elemento de linguagem, preservado em nichos, projetos autorais e na base de muitos artistas que continuam a utilizá-la como ponto de partida.
O outro movimento: a valorização histórica
Enquanto seu papel na música se reorganizava, outro fenômeno ganhava força.
O mercado de leilões se expandiu.
Com o passar do tempo, muitos dos nomes que ajudaram a consolidar a guitarra como símbolo cultural se afastaram dos palcos — ou tiveram suas trajetórias encerradas. Seus instrumentos, então, começaram a circular fora do ambiente musical e passaram a ocupar um novo espaço.
Entraram em cena colecionadores, investidores e grandes casas de leilão, como a Christie's.
Nesse contexto, essas guitarras deixaram de ser apenas ferramentas de trabalho.
Passaram a ser tratadas como peças únicas, associadas a momentos específicos da história da música — próximas, em muitos casos, ao conceito de obra de arte.
Mais do que preço
No fim, a resposta à pergunta que abre esta matéria não cabe em um único número.
Uma guitarra pode valer algumas centenas de reais — ou ultrapassar a marca de dezenas de milhões de dólares.
Mas, nos casos mais extremos, o que está sendo negociado não é apenas o instrumento.
É o registro físico de uma época, de um som e de uma ideia que ajudou a definir a música como ela é hoje.


