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REDES SOCIAIS PODEM CAUSAR DEPENDÊNCIA?

JULGAMENTO NOS EUA CONTRA META E GOOGLE INTENSIFICA DEBATE SOBRE SAÚDE MENTAL E RESPONSABILIDADE DAS BIG TECHS

João Carlos

03/03/2026

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Crédito da imagem: gerada por IA

Um dos casos mais emblemáticos envolvendo o impacto das redes sociais na saúde mental está em andamento em Los Angeles, na Califórnia. Desde fevereiro de 2026, a Justiça norte-americana analisa uma ação movida contra a Meta, responsável pelo Instagram, e contra o Google, dono do YouTube.

A ação foi aberta por uma jovem de 20 anos, identificada nos autos como Kaley G.M. Ela afirma que utilizou as plataformas desde a infância e que os sistemas foram projetados de forma intencionalmente viciante. Segundo o depoimento, chegou a passar até 16 horas por dia no Instagram.

A jovem sustenta que o uso compulsivo contribuiu para o desenvolvimento de depressão, ansiedade, dismorfia corporal e pensamentos suicidas. O processo argumenta que algoritmos e mecanismos de engajamento teriam sido estruturados para maximizar retenção, mesmo diante de possíveis impactos psicológicos.

Um processo que pode redefinir limites

O caso envolve mais de 800 famílias em ações relacionadas, ampliando o alcance jurídico da disputa. Analistas comparam o processo a batalhas históricas contra a indústria do tabaco, ao discutir responsabilidade corporativa por danos à saúde.

Antes do julgamento, Snapchat e TikTok firmaram acordos extrajudiciais.

Durante as audiências, Mark Zuckerberg depôs e negou que as plataformas tenham sido projetadas para causar dependência. A defesa argumenta que as empresas oferecem ferramentas de controle e que o uso depende de decisões individuais.

A expectativa é que o julgamento seja concluído em março de 2026, com possibilidade de recurso à Suprema Corte dos Estados Unidos.

Existe vício em redes sociais?

O termo é amplamente utilizado, mas ainda não é reconhecido como diagnóstico formal no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-5-TR), da American Psychiatric Association.

No entanto, pesquisadores apontam que o chamado “uso problemático de redes sociais” apresenta características semelhantes às dependências comportamentais, como perda de controle, tolerância crescente e prejuízo funcional.

Estudos publicados no Journal of Behavioral Addictions indicam que mecanismos como curtidas e notificações ativam o circuito de recompensa do cérebro, associado à dopamina. A neurocientista Anna Lembke, da Stanford University, explica que esse sistema é o mesmo envolvido em outros comportamentos compulsivos.

Pesquisas da World Health Organization apontam que o uso excessivo pode comprometer sono, regulação emocional e desempenho acadêmico.

O que dizem os estudos

Pesquisas recentes associam uso intenso de redes sociais a aumento de sintomas de ansiedade e depressão, especialmente entre adolescentes e jovens adultos.

Créditos da imagem: iStock / Getty Images

Estudo da University of Pennsylvania mostrou que limitar o uso diário pode reduzir sintomas de solidão e depressão em determinados grupos.

Ao mesmo tempo, especialistas reforçam que as redes também podem ter efeitos positivos, como conexão social e acesso à informação. O fator determinante é o padrão de uso e o impacto na rotina.

Sinais de alerta

O uso frequente não configura automaticamente um transtorno. O problema surge quando há prejuízo real.

Entre os principais sinais estão:

Uso compulsivo e checagem constante
Ansiedade ou irritação ao ficar offline
Aumento progressivo do tempo de uso
Prejuízo acadêmico ou profissional
Isolamento social
Insônia e dificuldade de concentração

Especialistas destacam que comparações constantes com padrões idealizados podem intensificar baixa autoestima e insatisfação corporal.

Há tratamento?

Foto: Harrison Keely / Wikimedia Commons

Sim. A abordagem é semelhante à utilizada em outras dependências comportamentais.

A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), amplamente estudada pela American Psychological Association, é considerada eficaz para interromper ciclos compulsivos e reorganizar padrões de comportamento.

Também são recomendadas medidas práticas:

Definir horários sem celular
Utilizar ferramentas de controle de tempo
Criar rotinas offline
Buscar acompanhamento profissional quando necessário

Um debate que vai além da tecnologia

O julgamento nos Estados Unidos amplia uma discussão que já vinha crescendo nos consultórios e universidades. Redes sociais não são inerentemente prejudiciais, mas o uso desregulado pode gerar impactos concretos.

A decisão judicial pode influenciar futuras regulamentações globais. Independentemente do veredito, a questão central permanece: como equilibrar inovação tecnológica e saúde mental em uma sociedade cada vez mais conectada?

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