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SUPER BOWL LX TRANSFORMA O JOGO EM FESTIVAL CULTURAL

DA CELEBRAÇÃO LATINA AO MANIFESTO POLÍTICO, TUDO SOBRE O EVENTO QUE EXPÔS AS TENSÕES E OS SÍMBOLOS DA AMÉRICA CONTEMPORÂNEA

João Carlos

09/02/2026

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Crédito da imagem: NME Magazine / Reprodução Instagram

O Super Bowl LX deste domingo foi uma espécie de grande espelho cultural do atual momento dos Estados Unidos: um espetáculo esportivo que virou palco para a celebração latina, valores patrióticos, tensões políticas e debates sobre identidade nacional. Muito além do futebol americano, a edição de 2026 atingiu uma audiência estimada em 135 milhões de pessoas, tornando-se a transmissão mais assistida da história, e deixou claro que o maior evento esportivo do país — e do mundo — segue funcionando como uma vitrine simbólica, onde música, política e cultura popular se cruzam em tempo real.


A abertura: Green Day e o punk censurado para a TV aberta

A primeira apresentação musical da noite aconteceu ainda na cerimônia de abertura, com o Green Day. Escalada para dar início às celebrações do Super Bowl LX, a banda surgiu com um repertório clássico, incluindo “Holiday”, “Boulevard of Broken Dreams” e “American Idiot”.

A escolha do grupo, historicamente associado ao punk político e à crítica direta a governos conservadores, gerou expectativa sobre possíveis provocações. No entanto, o que se viu foi uma versão contida e cuidadosamente editada para a televisão aberta. Trechos explícitos foram suprimidos na transmissão e versos políticos, frequentemente adaptados pela banda em shows recentes, ficaram de fora. Para parte da crítica, o Green Day simbolizou o limite entre rebeldia e institucionalização: o rock contestador presente, mas enquadrado.

Brandi Carlile e a leitura solene de “America the Beautiful”

Na sequência do pré-jogo, o clima mudou completamente com a entrada de Brandi Carlile, responsável por interpretar “America the Beautiful”. A cantora optou por uma abordagem intimista, acompanhada por instrumentos de cordas, entregando uma performance marcada pela sobriedade e pelo respeito ao simbolismo da canção.

A apresentação foi amplamente elogiada pela imprensa americana, tanto pelo rigor vocal quanto pelo tom conciliador em um evento carregado de significados políticos. A execução também contou com interpretação em língua de sinais, reforçando o discurso de inclusão que permeou boa parte do pré-jogo.

Coco Jones e “Lift Every Voice and Sing”

Ainda antes do kickoff, Coco Jones subiu ao palco para cantar “Lift Every Voice and Sing”, música historicamente associada ao movimento negro nos Estados Unidos. Com arranjo orquestral e figurino que remetia às cores pan-africanas, a performance foi tratada por veículos de imprensa como um dos momentos mais simbólicos da noite.

A presença da canção no protocolo oficial do Super Bowl segue sendo interpretada como um gesto político e cultural, especialmente em um país ainda marcado por debates raciais intensos.

O hino nacional com Charlie Puth

Coube a Charlie Puth a execução de “The Star-Spangled Banner”. O cantor optou por um arranjo próprio, acompanhado por teclado, coral e metais, entregando uma versão técnica e controlada, sem excessos melódicos.

Como costuma acontecer em apresentações do hino no Super Bowl, a repercussão foi imediata, mas majoritariamente positiva. A leitura foi vista como respeitosa e segura, evitando riscos em um dos momentos mais escrutinados do evento.

Música durante o jogo: LaRussell e o coral

Durante as pausas da partida, o rapper LaRussell apareceu em diferentes intervenções musicais, acompanhado por um coral. Representando a cena independente da Califórnia, o artista mesclou rap, referências gospel e homenagens à cultura local, funcionando como uma espécie de trilha viva ao longo do jogo.

O show do intervalo: Bad Bunny e a afirmação latina no centro do espetáculo

O ponto alto da noite veio no intervalo, com o show liderado por Bad Bunny. Transformando o gramado em uma representação simbólica de Porto Rico, o artista apresentou um espetáculo visualmente grandioso e culturalmente assertivo.

O show contou com participações especiais de Lady Gaga e Ricky Martin, além de aparições pontuais de outras celebridades. A narrativa do espetáculo exaltou identidade latina, diversidade cultural e pertencimento, sem recorrer a discursos diretos, mas deixando mensagens claras por meio de imagens, símbolos e frases exibidas nos telões.

A imprensa internacional interpretou o show como uma das apresentações mais politicamente significativas da história recente do Super Bowl, justamente por sua escolha de afirmar cultura e identidade em vez de confrontar verbalmente.

A performance na íntegra está disponível no canal da NFL.

O contra-espetáculo: o “All-American Halftime Show” e a reação conservadora

Enquanto Bad Bunny ocupava o centro do espetáculo oficial do intervalo, um contra-evento musical era transmitido fora da estrutura da NFL. Batizado de All-American Halftime Show, o projeto foi organizado pela Turning Point USA, grupo ligado ao conservadorismo americano e alinhado ao trumpismo.

A proposta foi clara desde o início: oferecer uma alternativa “patriótica” ao show oficial, visto por seus organizadores como excessivamente político e culturalmente “progressista”. O evento contou com apresentações de Kid Rock, Lee Brice, Brantley Gilbert e Gabby Barrett, reunindo nomes associados ao country e ao rock conservador.

Inicialmente planejado para ser exibido na plataforma X, o contra-show enfrentou problemas de transmissão e acabou migrando para o YouTube, o que já indicou dificuldades logísticas e de alcance. A produção, descrita por veículos americanos como modesta e improvisada, contrastou fortemente com a grandiosidade técnica do halftime oficial.

A repercussão foi imediata. Parte da imprensa classificou o evento como um gesto reativo, mais político do que artístico, criado para confrontar simbolicamente o show de Bad Bunny. Críticas também recaíram sobre a execução musical, incluindo acusações de playback em algumas performances, especialmente envolvendo Kid Rock.

Ainda assim, o All-American Halftime Show cumpriu seu papel simbólico: evidenciar que o Super Bowl LX não foi apenas um evento esportivo com trilha sonora, mas um campo simultâneo de disputa cultural, onde até o intervalo virou território ideológico.

A reação política: Donald Trump entra em cena

Poucas horas após o fim do evento, o presidente Donald Trump reagiu publicamente ao show do intervalo. Em declarações nas redes sociais, Trump classificou a apresentação de Bad Bunny como “terrível” e criticou o uso predominante do espanhol, além de atacar o tom cultural do espetáculo.

As críticas também respingaram na escolha do Green Day para a abertura, reforçando a leitura de que o Super Bowl LX extrapolou o esporte e se consolidou como mais um capítulo da guerra cultural americana.

Crédito da imagem: Reprodução / Truth Social

“O show do intervalo do Super Bowl é absolutamente terrível, um dos piores de TODOS! Não faz o menor sentido, é um afronta à grandeza da América e não representa nossos padrões de sucesso, criatividade ou excelência. Ninguém entende uma palavra do que esse sujeito está dizendo, e a dança é repugnante, especialmente para as crianças pequenas que estão assistindo em todos os Estados Unidos e no mundo inteiro.

Esse ‘show’ é apenas um ‘tapa na cara’ do nosso país, que está estabelecendo novos padrões e recordes todos os dias — incluindo o melhor mercado de ações e os melhores planos 401(k) da história! Não há nada de inspirador nessa bagunça de show de intervalo e, observem, ele ainda vai receber ótimas críticas da mídia de Fake News, porque eles não fazem a menor ideia do que está acontecendo no MUNDO REAL.

E, a propósito, a NFL deveria substituir imediatamente sua ridícula nova regra de kickoff.

FAÇA A AMÉRICA GRANDE NOVAMENTE!

Presidente DONALD J. TRUMP”

A resposta simbólica: a carta aberta de Ricky Martin

Em contraste com a reação presidencial, Ricky Martin publicou uma carta aberta endereçada a Bad Bunny, exaltando a importância do artista para a cultura porto-riquenha e celebrando sua presença no maior palco da televisão americana. O texto foi amplamente repercutido como um gesto de apoio e como resposta simbólica às críticas vindas do campo conservador.

Um Super Bowl que vai além do esporte

Ao final, o Super Bowl LX se consolidou não apenas como um evento esportivo de alcance global, mas como um retrato condensado das disputas culturais dos Estados Unidos em 2026. Da solenidade patriótica ao pop latino, do punk censurado às reações políticas inflamadas, a noite deixou claro que, no Super Bowl, a música nunca é apenas entretenimento. Em uma América dividida, a música deixou de ser trilha sonora para se tornar discurso, identidade e, inevitavelmente, confronto.

Para além de toda a carga simbólica fora do campo, no desfecho esportivo do Super Bowl LX, o Seattle Seahawks venceu o New England Patriots por 29 a 13, controlando o jogo desde o início e aproveitando os erros do adversário. Com atuação consistente, sem turnovers e maior domínio territorial, Seattle confirmou o título do Super Bowl LX sem sustos.

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