TERAPEUTA ALERTA: RELAÇÕES COM IA AMEAÇAM A INTIMIDADE HUMANA
PALESTRA NO TEDx REPERCUTE AO APONTAR RISCOS NEUROEMOCIONAIS DO VÍNCULO COM COMPANHEIROS ARTIFICIAIS
João Carlos
23/01/2026
A crescente popularização de companheiros de inteligência artificial reacendeu o debate sobre os limites da tecnologia nas relações humanas. O alerta ganhou repercussão internacional após uma palestra apresentada no TEDxWest Vancouver, no Canadá, em 14 de janeiro, pela terapeuta sexual e de relacionamentos Angela Ivy Leong.
O evento faz parte do universo TED, sigla para Technology, Entertainment and Design, uma organização global sem fins lucrativos conhecida por promover palestras curtas e altamente curadas sobre ciência, comportamento humano, saúde mental, inovação e sociedade. As conferências TEDx são versões independentes, realizadas localmente sob licença oficial, mas seguem os mesmos critérios editoriais e de curadoria do TED original.
A crítica ao “vínculo sem corpo”

Crédito da imagem: Angela Ivy Leong durante palestra no TEDxWest Vancouver (2026). Reprodução: Redes sociais
Durante a palestra, Leong afirmou que relações mediadas por IA podem parecer emocionalmente acolhedoras, mas carecem de um elemento essencial: a sincronia biológica real entre pessoas. Segundo ela, intimidade não é apenas troca de palavras ou validação emocional, mas um processo fisiológico que envolve o alinhamento entre sistemas nervosos.
Ela explicou que o contato humano direto ativa mecanismos fundamentais do organismo, como a liberação de ocitocina e endorfinas, hormônios ligados à confiança, ao prazer e à redução do estresse. Além disso, interações presenciais profundas podem sincronizar batimentos cardíacos, respiração e padrões cerebrais. Esse tipo de coerência, ressaltou a terapeuta, não pode ser reproduzido por máquinas, por mais sofisticadas que sejam.
Dados que preocupam especialistas
Leong também citou pesquisas associadas ao Kinsey Institute, referência internacional em estudos sobre sexualidade e comportamento humano. Os dados indicam que cerca de um em cada três jovens da Geração Z já relata algum tipo de envolvimento emocional ou romântico com sistemas de inteligência artificial.
Para a terapeuta, o problema não está no uso pontual da tecnologia, mas na substituição gradual de relações humanas por interações artificiais que não envolvem conflito, frustração ou imprevisibilidade. Esse padrão favorece o isolamento social e um fenômeno que ela descreve como “fadiga de fantasia”, quando o cérebro se cansa de vínculos perfeitos demais e emocionalmente rasos.
A ascensão dos assistentes de relacionamento por inteligência artificial
Paralelamente a esse debate, cresce o uso de assistentes pessoais baseados em inteligência artificial voltados a vínculos emocionais e relacionamentos. Essas plataformas utilizam sistemas de IA conversacional para simular diálogos afetivos contínuos, oferecendo atenção, escuta ativa e validação emocional personalizada.
Diferentemente de aplicativos de terapia ou aconselhamento clínico, esses assistentes não atuam como profissionais de saúde. Eles são projetados para manter interação constante, aprender preferências do usuário e criar a sensação de continuidade relacional, muitas vezes assumindo o papel de companheiro, confidente ou parceiro romântico virtual.

Crédito da imagem: Interface do aplicativo Replika. Reprodução/Replika
Entre os exemplos mais conhecidos estão o Replika, um dos pioneiros do segmento, que permite a criação de um companheiro virtual com personalidade customizável; o Character.AI, onde usuários interagem com personagens criados para diferentes perfis emocionais; o Kindroid, focado em vínculos de longo prazo e memória emocional; e o Nomi AI, que se apresenta como um assistente empático para conversas profundas e apoio emocional.
O funcionamento desses sistemas se baseia em modelos de linguagem treinados para reconhecer padrões emocionais, responder de forma acolhedora e evitar conflitos diretos. Na prática, oferecem relações sem rejeição, sem frustração e sem risco emocional. Para muitos usuários, isso representa conforto imediato em momentos de solidão ou estresse.
Especialistas, no entanto, alertam para os limites desse tipo de interação. Embora possam aliviar sentimentos de isolamento no curto prazo, esses assistentes não substituem elementos centrais das relações humanas, como o contato físico, a sincronia biológica entre sistemas nervosos e a construção de vínculos a partir de vulnerabilidade real. O uso prolongado como substituto de relações presenciais pode reforçar o afastamento social e alterar expectativas emocionais no convívio humano.
Consequências para a saúde mental
A ausência prolongada de toque humano e de vínculos presenciais significativos está associada ao aumento de quadros de ansiedade, depressão e sensação de desconexão emocional. Leong destacou que o corpo humano não foi projetado para regular emoções apenas por meio de estímulos digitais, mesmo quando esses estímulos simulam empatia e cuidado.
Outro ponto levantado é a mudança de expectativa emocional. Relações mediadas por IA tendem a condicionar respostas imediatas, validação constante e ausência total de atrito. Quando o indivíduo retorna ao convívio humano real, passa a perceber relações genuínas como excessivamente difíceis ou frustrantes.
Caminhos para preservar a conexão humana
Como orientação prática, Angela Ivy Leong defendeu pequenas mudanças de comportamento no dia a dia. Entre elas estão pausar antes de recorrer automaticamente às telas em momentos de solidão, valorizar gestos simples como abraços prolongados, sustentar o contato visual e aceitar a vulnerabilidade como parte inevitável das relações humanas.
A mensagem central apresentada no palco do TEDx é direta: a tecnologia pode apoiar conexões, mas não substitui a experiência humana sem custos emocionais profundos. Mesmo quando a mente racionaliza, o corpo reconhece a diferença.
Veja a palestra da terapeuta sexual e de relacionamentos Angela Ivy Leong, realizada no TEDxWest Vancouver, no Canadá, em 14 de janeiro.


