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WE CAN WORK IT OUT: HÁ 60 ANOS OS BEATLES TRANSFORMAVAM CONFLITO EM CANÇÃO

A HISTÓRIA DE UM ROMANCE TRANSFORMADO EM MÚSICA

João Carlos

23/12/2025

Placeholder - loading - Crédito da imagem: Capa do single “We Can Work It Out / Day Tripper” (7”), The Beatles, lançado em 1965. © Apple Corps Ltd. / EMI Records. Reprodução para fins editoriais.
Crédito da imagem: Capa do single “We Can Work It Out / Day Tripper” (7”), The Beatles, lançado em 1965. © Apple Corps Ltd. / EMI Records. Reprodução para fins editoriais.

Lançada em dezembro de 1965, “We Can Work It Out”, dos The Beatles, nasceu de um impasse pessoal, mas rapidamente se tornou uma declaração universal sobre convivência, escuta e tentativa de entendimento. Agora, ao completar 50 anos, a canção reafirma sua relevância histórica e emocional dentro da discografia do grupo.

O romance que reacendeu a faísca criativa

Crédito da imagem: Capa do single “We Can Work It Out / Day Tripper” (7”), The Beatles, lançado em 1965. © Apple Corps Ltd. / EMI Records. Reprodução para fins editoriais.

A inspiração para a música veio de um momento bastante concreto da vida de Paul McCartney, marcado por desencontros emocionais e conflitos recorrentes em seu relacionamento com a atriz Jane Asher. Naquele período, a relação já sofria com agendas incompatíveis, longos períodos de distância e diferenças de expectativa. Paul estava imerso em uma rotina exaustiva de estúdio, turnês e compromissos internacionais com os Beatles, enquanto Jane buscava afirmar sua própria carreira no teatro e na televisão britânica.

Essas tensões se traduziram em discussões frequentes, muitas vezes ligadas à dificuldade de comunicação e à sensação de que ambos falavam, mas não se ouviam plenamente. We Can Work It Out surge justamente desse impasse: não como um desabafo agressivo, mas como uma tentativa consciente de frear o desgaste antes que ele se tornasse irreversível. A letra assume o tom de um pedido direto, quase urgente, propondo uma pausa no conflito para que o diálogo pudesse acontecer.

Um otimismo que ganhou oposição complementar

Se a base da música carrega o tom conciliador de McCartney, foi John Lennon quem inseriu a camada de realismo que equilibra a narrativa. Lennon contribuiu com versos mais duros e reflexivos, lembrando que a vida é curta demais para conflitos prolongados. Essa oposição de visões — esperança versus pragmatismo — deu à canção uma profundidade incomum para um single pop da época.

Detalhes musicais quase imperceptíveis e o protagonismo com Day Tripper

Crédito da imagem: Capa do single “We Can Work It Out / Day Tripper” (7”), dos The Beatles, lançado em 1965 pelo selo Parlophone. © Apple Corps Ltd. / EMI Records. Reprodução para fins editoriais.

À primeira audição, a música soa simples e direta, mas esconde soluções engenhosas. O harmônio tocado por McCartney confere um clima introspectivo pouco usual no pop da época, enquanto a mudança de compasso no trecho central cria uma sensação de tensão e urgência, reforçando o tema da letra. São pequenos desvios que mostram uma banda já inquieta criativamente.

No meio do processo de gravação, George Harrison fez uma sugestão que alteraria de forma decisiva a identidade da canção. Até então, a música seguia uma estrutura pop mais convencional, mas Harrison propôs uma ruptura inesperada no trecho central. A ideia era ao mesmo tempo simples e ousada: mudar o compasso para algo próximo ao de uma valsa, criando um contraste que redefiniria o clima e a tensão do arranjo.

Anos depois, Paul McCartney relembrou o momento no livro Many Years From Now, de Barry Miles.

“Foi ideia de George Harrison colocar o meio em compasso de valsa, como uma valsa alemã”, contou Paul. “Isso aconteceu durante a sessão. Foi um daqueles casos em que o arranjo foi feito na hora.”

O resultado foi um contraste marcante dentro da própria música: o trecho em valsa quebra o fluxo linear, cria tensão e reforça a sensação de urgência da letra. Essa mudança estrutural, decidida praticamente no calor do estúdio, tornou-se um dos elementos mais comentados da faixa e um sinal claro da inquietação criativa dos Beatles naquele período.

Lançada pouco depois, We Can Work It Out chegou ao público como lado A duplo ao lado de Day Tripper, uma estratégia ainda incomum em meados dos anos 1960. As duas músicas dividiram protagonismo, tocaram exaustivamente no rádio e dominaram as paradas britânicas e americanas, consolidando o domínio absoluto dos Beatles e redefinindo as regras de lançamento da indústria fonográfica. O single é frequentemente citado como o primeiro grande caso de duas faixas principais compartilhando o mesmo lançamento.

Para promover o trabalho, o grupo gravou três filmes promocionais, antecipando o formato que mais tarde se tornaria padrão na indústria musical. Curiosamente, apesar do sucesso estrondoso, We Can Work It Out quase nunca foi tocada ao vivo. Analistas e biógrafos apontam que a decisão se deveu, em grande parte, à complexidade do arranjo e às soluções de estúdio — especialmente a mudança de compasso e o equilíbrio delicado entre os climas da canção — que tornavam sua reprodução fiel no palco um desafio considerável.

Esse conjunto de escolhas — da sugestão improvisada de Harrison à ousadia do lançamento em duplo lado A — ajuda a explicar por que We Can Work It Out não é apenas mais um hit dos Beatles, mas um marco de experimentação dentro do pop mainstream dos anos 1960.

Além disso, We Can Work It Out ocupa um ponto estratégico na trajetória dos Beatles e representa um sinal claro de transição artística. Ainda acessível e altamente radiofônica, a canção já aponta para uma fase mais reflexiva e ousada, que ganharia corpo a partir de 1966. Ao antecipar essa virada, a música sinaliza a evolução lírica e musical que levaria o grupo a explorar temas mais complexos e estruturas cada vez menos convencionais.

Cinco décadas de uma mensagem que não envelhece

Cinco décadas após o clássico ter chegado ao público, o impacto dos The Beatles vai muito além da memória afetiva. Em pleno 2025, o quarteto de Liverpool segue como um dos raros nomes do rock e do pop capazes de se manter em evidência constante, dialogando ao mesmo tempo com gerações que viveram os anos 1960 e com públicos que descobriram a banda no streaming, nas redes sociais e em reedições de catálogo.

O ano foi especialmente simbólico para o grupo. A reedição da caixa especial The Beatles Anthology reacendeu o interesse global por sua trajetória, reunindo gravações históricas, versões alternativas, demos e registros que ajudam a compreender a dimensão criativa de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr. Mais do que um produto para colecionadores, o relançamento funcionou como uma ponte entre passado e presente, recolocando o nome dos Beatles em pautas editoriais, rankings de vendas e discussões culturais ao redor do mundo.

Nesse contexto, We Can Work It Out ganha uma nova camada de significado. Ao completar 50 anos em dezembro, a canção não soa como uma peça de museu, mas como parte viva de um catálogo que segue sendo revisitado, reinterpretado e redescoberto. Poucos artistas conseguem esse feito. E talvez seja justamente essa capacidade de permanecer atual — emocionalmente, musicalmente e culturalmente — que mantém os Beatles, mesmo em 2025, no centro da história do rock e do pop mundial.

Confira a seguir o videoclipe oficial de “We Can Work It Out” e a versão remasterizada de “Day Tripper”.

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