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COMO O GOLDMAN SACHS VIROU A BÚSSOLA DA INDÚSTRIA MUSICAL

RELATÓRIO MUSIC IN THE AIR TRADUZIU STREAMING, SHOWS, IA E DIREITOS AUTORAIS PARA INVESTIDORES E EXECUTIVOS

João Carlos

18/06/2026

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Crédito da imagem: gerada por IA

A música é movida por emoção, mas os negócios precisam de números. Foi ao aproximar esses dois mundos que o Goldman Sachs conquistou uma posição incomum na indústria musical.

O banco não escolhe artistas nem prevê quais canções serão sucessos. Sua influência vem do relatório Music in the Air, que organiza dados sobre streaming, assinaturas, shows, direitos autorais e comportamento dos fãs para apresentar possíveis caminhos de crescimento — e também riscos — a investidores, gravadoras, plataformas e empresários.

Quando o streaming deixou de parecer uma aposta

O ponto de partida foi 2016, quando o Goldman Sachs publicou os estudos Stairway to Heaven e Paint It Black. Naquele momento, a indústria ainda carregava as perdas provocadas pela pirataria, pelo desaparecimento das lojas de discos e pela queda nas vendas de CDs.

A principal tese era que o streaming musical poderia provocar uma segunda revolução digital, desta vez sustentada por assinaturas e receitas recorrentes. O relatório não criou essa transformação, mas ajudou a apresentá-la em uma linguagem compreensível para Wall Street.

A direção estava correta. Segundo a IFPI, a música gravada alcançou US$ 31,7 bilhões em receitas em 2025, completando o 11º ano consecutivo de crescimento. O mundo já reunia 837 milhões de usuários de contas pagas de streaming.

Por que investidores e empresários acompanham o relatório

O diferencial do Music in the Air é reunir, em um mesmo mapa, música gravada, edição musical, turnês, publicidade, preços de assinaturas, mercados emergentes e novas tecnologias.

Para investidores, isso ajuda a estimar quanto um catálogo pode gerar no futuro e quais fatores podem alterar seu valor. Para empresários, o estudo indica onde estão surgindo novos consumidores, produtos premium e oportunidades de licenciamento.

Essa leitura contribuiu para a entrada de fundos e gestoras no mercado de direitos musicais, embora não tenha sido a única responsável pelo movimento. O avanço do streaming também trouxe maior regularidade de pagamentos e mais dados sobre o desempenho das músicas. Ainda assim, royalties não são investimentos sem risco: juros, disputas contratuais, dependência das plataformas e mudanças tecnológicas podem afetar os resultados.

Um mercado próximo dos US$ 200 bilhões

Na edição de 2025, o Goldman Sachs estimou que o mercado musical global — incluindo gravações, edição e apresentações ao vivo — poderia passar de US$ 104,9 bilhões em 2024 para US$ 196,8 bilhões em 2035.

O banco calcula ainda que os mercados emergentes poderão responder por 75% das novas assinaturas de streaming até 2035. Isso representa uma enorme audiência potencial, embora o valor pago por usuário ainda seja menor nessas regiões.

Outro foco são os superfãs. Em um cenário no qual 20% dos assinantes aceitassem pagar o dobro por benefícios especiais, como conteúdos antecipados, ingressos, produtos e experiências, a receita adicional poderia chegar a US$ 4,3 bilhões por ano, considerando as projeções para 2026. É uma estimativa, não dinheiro garantido em caixa.

As edições completas e mais recentes do Music in the Air não ficam, em geral, disponíveis integralmente ao público. O Goldman Sachs costuma divulgar resumos, artigos e entrevistas em sua área de insights, enquanto análises mais detalhadas circulam principalmente entre clientes institucionais, investidores e parceiros. Por isso, parte das projeções do banco chega ao mercado por meio de relatórios restritos e pela repercussão em veículos internacionais especializados.

Inteligência artificial e shows no centro das atenções

Na inteligência artificial aplicada à música, o cenário-base divulgado a partir do relatório aponta que as receitas diretas do setor podem crescer de aproximadamente US$ 400 milhões para US$ 2,1 bilhões até 2030. O avanço dependerá de regras mais claras para treinamento de sistemas, identificação das obras e licenciamento dos catálogos.

Ao mesmo tempo, o Goldman Sachs observa que a participação da música criada por IA no conjunto de royalties ainda era pequena. A oportunidade mais concreta, portanto, pode estar na criação de acordos que remunerem os titulares das obras e protejam artistas contra usos não autorizados.

Os shows ao vivo formam outra frente importante. O grupo projeta que o segmento passe de US$ 34,6 bilhões em 2024 para US$ 52,6 bilhões em 2030 e US$ 67,1 bilhões em 2035, com crescimento médio anual estimado em 7,2% até o fim da década. A receita com ingressos subiu 76% entre 2019 e 2024, mesmo com a forte elevação dos preços.

Uma bússola, não uma bola de cristal

A importância do relatório também está em reconhecer erros e atualizar cenários. Depois de um desempenho abaixo do previsto em 2024, a instituição reduziu algumas projeções de curto prazo.

Ainda assim, sua estimativa de US$ 31,4 bilhões para a música gravada em 2025 ficou próxima dos US$ 31,7 bilhões posteriormente informados pela IFPI. O banco havia projetado 827 milhões de usuários pagos; o resultado divulgado foi de 837 milhões.

O estudo também não determina reajustes de Spotify, Apple Music ou outras plataformas. Ele fornece argumentos e comparações que influenciam o debate, mas cada empresa toma suas próprias decisões comerciais.

Crédito da imagem: LinkedIn

Por quase uma década, o projeto foi liderado pela analista Lisa Yang, inclusive na edição de 2025. Meses depois, ela deixou o Goldman Sachs e assumiu a estratégia global da Warner Music Group — mais um sinal de como o conhecimento financeiro ganhou espaço dentro das grandes companhias musicais.

Goldman Sachs em poucas linhas

O Goldman Sachs foi fundado em Nova York, em 1869, por Marcus Goldman, inicialmente como um pequeno negócio de intermediação de notas comerciais. Samuel Sachs, genro do fundador, entrou para a empresa em 1882, e a instituição adotou o nome Goldman, Sachs & Co. em 1888.

Ao longo de mais de 150 anos, tornou-se um dos principais grupos globais de banco de investimento e gestão de recursos. Na música, sua influência não está no palco ou no estúdio, mas na capacidade de transformar hábitos de fãs em projeções que investidores e executivos conseguem analisar.

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