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Mercado alerta para risco ao abastecimento de combustíveis após Petrobras cancelar leilões

Mercado alerta para risco ao abastecimento de combustíveis após Petrobras cancelar leilões

Reuters

19/03/2026

Placeholder - loading - Caminhões em terminal fluvial portuário usado pelo agronegócio 25/02/2026 REUTERS/Adriano Machado
Caminhões em terminal fluvial portuário usado pelo agronegócio 25/02/2026 REUTERS/Adriano Machado

Atualizada em  19/03/2026

Por Marta Nogueira

RIO DE JANEIRO, 19 Mar (Reuters) - O cancelamento de leilões de gasolina e diesel ​da Petrobras nesta semana acendeu um alerta vermelho para o mercado, que vê riscos ao abastecimento nacional de combustíveis, enquanto há um cenário indefinido de estoques e prazo curto para importações, disseram as distribuidoras nacionais e fontes do mercado.

Em ofício enviado ao governo e à reguladora ANP com o assunto 'riscos ao abastecimento nacional', o sindicato que representa Vibra, Raízen e Ipiranga (Sindicom) pede que sejam tomadas providências para que a Petrobras retome os leilões de combustíveis.

No documento, datado da véspera, o Sindicom afirmou que as suas distribuidoras têm observado um aumento relevante da demanda por produtos, porém relatam cortes nas cotas de fornecimento e negativa de pedidos adicionais nos meses de março e abril por parte da Petrobras.

'O cenário global atravessa um dos choques mais severos da história recente, elevando preços e intensificando a disputa internacional por suprimentos', afirmou o Sindicom em nota, em referência aos efeitos da guerra no Golfo Pérsico, que tem danificado infraestrutura do setor de petróleo e elevado os preços por conta interrupções no transporte pelo Estreito de ⁠Ormuz.

'No plano doméstico, a ausência ⁠de diretrizes claras na política de preços e a incerteza no ​atendimento integral dos ‌pedidos pela Petrobras -- somadas à instabilidade no calendário de leilões e ao cancelamento intempestivo de certames -- comprometem severamente a previsibilidade operacional e o planejamento estratégico dos agentes de distribuição', afirmou o documento.

O presidente-executivo da Federação Nacional das Distribuidoras de Combustíveis, Gás Natural e Biocombustíveis (Brasilcom), que representa mais de 40 distribuidoras regionais, Abel Leitão, também manifestou preocupação com o abastecimento de diesel, indicando que os preços defasados da Petrobras desincentivaram importações.

'Ausência de paridade de preços com produtos importados, ⁠cortes de pedidos adicionais e suspensão de leilões da Petrobras indicam tensão no abastecimento em meio a cenário geopolítico', afirmou Abel ​à Reuters.

Cerca de 25% do diesel consumido no Brasil é importado.

Apesar de ter elevado em 11,6% o preço médio do diesel A (puro) vendido a distribuidoras após ​a disparada dos preços internacionais do petróleo com os conflitos no Oriente Médio, a petroleira ‌permanece vendendo o combustível mais comercializado do ​país abaixo ⁠da paridade de importação, o que tem desestimulado a importação por outros agentes.

O preço médio do diesel da Petrobras está cerca de 70% abaixo da paridade de importação, segundo cálculos da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom).

Sérgio Araujo, presidente da Abicom, afirmou que o cenário de abastecimento para março ainda não traz tanta preocupação, mas quando olha o 'line up' ​de navios importados de diesel para abril, ele ainda está muito 'magro'. Ele ponderou, no entanto, que o cenário pode mudar.

Procurados, Petrobras, governo e ANP não responderam imediatamente a pedidos de comentários.

Na véspera, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou a jornalistas que a companhia suspendeu os leilões de diesel e gasolina 'pela necessidade de reavaliar a todo momento o estoque disponível'. 'Para que a gente não entregue tudo num dia e falte no dia seguinte', afirmou ela.

MEDIDAS 'INEFICAZES' DO GOVERNO

Enquanto isso, especialistas e fontes do setor avaliam que as ​medidas tomadas até agora pelo governo para garantir o abastecimento são ineficazes, com foco em controlar preços.

O governo cortou impostos federais sobre os combustíveis e lançou um programa de subsídio ao diesel, que ainda precisa ser regulamentado. Nesta semana, tem pressionado os Estados para reduzir o ICMS sobre combustíveis.

'As medidas do governo de oferecer subsídios -- agora tem a discussão de desoneração de ICMS... na nossa visão é muito mais uma vontade ou um desejo de conter alta de preços, mas são um pouco ineficazes no sentido de evitar falta de produto', disse o sócio-diretor da Raion Consultoria, Eduardo Oliveira de Melo.

Melo apontou que, nas últimas 72 horas, o cenário tem se agravado, com clientes que têm contratos de fornecimento, inclusive que prestam serviços essenciais, como transporte de passageiros, tendo volumes cortados e pedidos fracionados.

Uma fonte de uma distribuidora afirmou que o ​governo parece estar mais agindo para que a Petrobras consiga realizar seus reajustes sem impactar o consumidor, do que de fato endereçando o problema.

'Essa notícia de que pediram aos Estados ‌para desonerar o ICMS, é só para mais uma vez salvar ⁠a Petrobras, para ela subir o preço', disse essa pessoa, ressaltando que há regras que impedem que a petroleira tome prejuízos para atender a pedidos do governo.

Bruno Cordeiro, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, afirmou à Reuters que a principal preocupação atualmente é com abril, principalmente por uma mudança de rota de navios que ⁠estavam vindo ao Brasil, mas decidiram ir para outros mercados que estavam pagando mais.

'(A defasagem dos preços) acaba ⁠dificultando a internação do derivado em um período que temos a colheita de ⁠soja...', disse Cordeiro.

Por conta do período ⁠de ​safra de alta demanda, há 'um receio de que a gente veja disrupções regionais causadas por esse cenário de menos diesel chegando ao Brasil no próximo mês', acrescentou ele.

(Por Marta Nogueira)

Reuters

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