Capa do Álbum: Antena 1
A Rádio Online mais ouvida do Brasil
Antena 1

Escolas se tornam campo de batalha enquanto o partido de extrema-direita da Alemanha mira eleições regionais

Escolas se tornam campo de batalha enquanto o partido de extrema-direita da Alemanha mira eleições regionais

Reuters

14/07/2026

Placeholder - loading - Max Heckel, professor alemão, escreve em lousa em Arneburg, na Alemanha, palavras que  dizem: “Nenhum ser humano tem o direito de obedecer” 8 de julho de 2026 REUTERS/Fabrizio Bensch
Max Heckel, professor alemão, escreve em lousa em Arneburg, na Alemanha, palavras que dizem: “Nenhum ser humano tem o direito de obedecer” 8 de julho de 2026 REUTERS/Fabrizio Bensch

Por Tanya Wood e James Mackenzie

STENDAL, Alemanha, 14 Jul (Reuters) - Um professor de marcenaria no Estado ​da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, desencadeou uma polêmica sobre a expressão política em sala de aula, às vésperas de uma eleição regional que ocorrerá daqui a dois meses e que poderá trazer mudanças radicais nas escolas caso o partido de extrema-direita AfD vença.

Para a AfD, cuja plataforma nacionalista e anti-imigração a transformou em uma força política relevante, a questão diz respeito à justiça e às práticas educacionais adequadas. Para seus críticos, trata-se de silenciar uma discussão legítima sobre um partido cujo programa, segundo eles, desfaria as salvaguardas contra um renascimento do passado extremista da Alemanha.

Max Heckel, que leciona artesanato e trabalhos técnicos na cidade de Stendal, foi denunciado ao Departamento de Educação da Saxônia-Anhalt no ano passado após uma conversa com um aluno que, segundo ele, perguntou-lhe — enquanto ele arrumava a sala após a aula — se ele havia votado na AfD (sigla em alemão para Alternativa para a Alemanha).

Heckel disse ter explicado que não havia votado no partido, em parte porque o serviço de segurança interna o havia classificado como “extremista”.

Semanas depois, ele recebeu uma advertência formal por violar as regras que exigem que os professores permaneçam politicamente neutros em sala de aula.

Desde então, segundo ele, tem sofrido ⁠abusos na internet, sido ameaçado com violência ⁠e teve seu carro vandalizado, além de ter sido atacado verbalmente por ​políticos de alto ‌escalão da AfD — tudo isso enquanto contestava a reprimenda como injustificada.

Heckel, que afirmou que os professores têm a responsabilidade de defender os fundamentos democráticos da Alemanha, disse que muitos colegas relutam em se manifestar por medo de procedimentos disciplinares, bem como do antagonismo de pessoas de fora.

Ele disse que o caso mostrou que as escolas estão sob pressão, mesmo antes da eleição de 6 de setembro, para não permitir críticas à AfD, que, segundo pesquisas, poderia obter cerca de 40% dos votos. A CDU, de centro-direita, liderada nacionalmente pelo chanceler ⁠da Alemanha, Friedrich Merz, está com menos de 30%.

A autoridade escolar da Saxônia-Anhalt se recusou a comentar, alegando que o caso ainda está ​em andamento.

Para a AfD, Heckel — um músico em tempo parcial que administra um centro cultural informal em Stendal e já teve desentendimentos com o partido no passado — exemplifica uma cultura ​de esquerda que o partido está determinado a erradicar nas escolas.

Ulrich Siegmund, candidato da AfD ao cargo de ‌primeiro-ministro da Saxônia-Anhalt, que levantou o caso repetidamente ​na Assembleia ⁠Legislativa estadual e em outros fóruns, afirmou que o partido eliminaria a influência política como parte de uma ampla reforma na educação.

“Queremos que as aulas permaneçam neutras, para que os alunos possam formar suas próprias opiniões sobre o cenário político deste país. Não precisamos de professores que façam campanha em favor de qualquer orientação específica”, disse ele à Reuters.

Ele rejeitou a avaliação dos serviços de segurança sobre a ​AfD, considerando-a motivada por questões políticas. A AfD obteve este ano uma liminar suspendendo uma avaliação do BfV, a agência nacional de segurança interna, que classificava o partido como “confirmadamente de extrema-direita”.

Mas o BfV da Saxônia-Anhalt ainda classifica a filial estadual do partido como extremista — o que significa que ela se opõe aos fundamentos liberal-democráticos do Estado, uma caracterização que a AfD rejeita.

A AfD vê a Saxônia-Anhalt, onde espera formar um governo regional pela primeira vez, como um trampolim para vencer uma eleição federal, e a disputa sobre uma conversa em uma sala de aula em Stendal aponta para tensões ​mais amplas no futuro.

Os Estados alemães possuem amplos poderes sobre questões culturais e educacionais — mas sua autonomia é, em última instância, limitada pela necessidade de garantir um certo grau de padronização nacional.

A educação tem especial relevância porque o sistema foi concebido, em parte, como um baluarte contra a ideologia nazista das décadas de 1930 e 1940. Há décadas, os alunos são obrigados a aprender sobre as atrocidades cometidas durante a guerra em nome da pureza racial e da supremacia nacional.

A AfD acredita que a tradição de décadas de “Vergangenheitsbewaeltigung”, ou reconciliação com o passado, criou um complexo de culpa e minou o orgulho nacional. O partido afirma que o sistema escolar foi enfraquecido pela queda nos padrões de ensino e por funções que nada têm a ver com educação, como a integração de crianças de famílias de refugiados.

Hans-Thomas Tillschneider, um dos idealizadores da agenda cultural e educacional do partido na Saxônia-Anhalt, disse que a educação seria um dos principais focos de um governo ​da AfD.

“Queremos uma política educacional completamente nova, completamente diferente”, disse ele à Reuters. “A influência política sobre as crianças, tal como a vivenciamos – a doutrinação política –, não é tarefa das escolas.”

Sob uma “política cultural patriótica”, as escolas ‌se concentrariam mais nos governantes medievais e nos grandes nomes da história alemã ⁠do Século 19, como o “Chanceler de Ferro”, Otto von Bismarck. O apoio social e psicológico e as medidas de integração seriam eliminados.

Para a CDU e outros partidos tradicionais, a AfD ameaça minar um consenso pós-Segunda Guerra Mundial que visa reforçar os alicerces de uma sociedade democrática.

Eles descartaram a possibilidade de cooperar com o partido por meio da chamada política de “barreira de proteção”, ⁠que visa isolá-lo e impedir que forme uma coalizão caso não obtenha maioria absoluta.

Para os críticos do partido, a interpretação da ⁠AfD sobre a neutralidade restringiria efetivamente o debate informado e limitaria a capacidade das crianças de ⁠tomar decisões.

A opinião de Heckel é inequívoca.

“Existe ⁠o ​dever de defender a Constituição”, disse ele. “E isso nos impõe a obrigação de proteger a ordem básica livre e democrática, tanto em nossas vidas privadas quanto no local de trabalho.”

(Reportagem adicional de Ulrike Heil)

Reuters

Compartilhar matéria

Mais lidas da semana

 

Carregando, aguarde...

Este site usa cookies para garantir que você tenha a melhor experiência.