FATBOY SLIM, OS ROLLING STONES E O FIM DE UM IMPASSE AUTORAL DE 25 ANOS
A HISTÓRIA DO BOOTLEG QUE CRUZOU 25 ANOS ATÉ SE TORNAR UM LANÇAMENTO OFICIAL
João Carlos
13/01/2026
No fim dos anos 1990, Fatboy Slim já tinha um hino absoluto de pista nas mãos: The Rockafeller Skank. Durante uma apresentação em Nova York, no Hammerstein Ballroom, em 1999, Norman Cook começou a brincar com a ideia de sobrepor ao groove da faixa o riff mais reconhecível da história do rock, o de (I Can't Get No) Satisfaction, dos Rolling Stones. O experimento funcionou tão bem que virou uma arma secreta de set. Nascia ali “Satisfaction Skank”.
A lógica era simples e quase inevitável para quem vive de pista: tocar a mesma música noite após noite dá vontade de desmontá-la, testar limites e ver se a reação vem. Veio. E forte.
Por que a faixa ficou “proibida” por décadas
O mashup nasceu e se espalhou como bootleg (uma gravação não autorizada oficialmente pelos detentores dos direitos autorais). Tocava em festas, aparecia em gravações não oficiais e circulava livremente na virada do milênio, impulsionado pela cultura de compartilhamento digital da época. O problema começava no momento em que a brincadeira precisava virar lançamento.
Para existir oficialmente, era necessária a liberação do uso de “Satisfaction”. E lidar com a estrutura de gestão de direitos dos Rolling Stones nunca foi simples. Trata-se de um dos catálogos mais valiosos da música popular, historicamente protegido com extremo rigor. Mesmo com Mick Jagger demonstrando simpatia pela ideia, a autorização não avançava.
O resultado foi um limbo curioso: a faixa existia plenamente nas pistas e na memória do público, mas não podia existir legalmente na indústria.
O que mudou para virar lançamento oficial em 2025
A virada aconteceu quando os Stones finalmente aprovaram a liberação. Com isso, o projeto saiu do folclore da cultura DJ para entrar, enfim, no mundo oficial. Para garantir padrão técnico e histórico, os stems e master tapes originais foram enviados para Fatboy Slim refazer o trabalho com qualidade de lançamento comercial.
Segundo relatos de bastidores, o material teria sido entregue em esquema de segurança máxima, incluindo transporte em carro-forte, detalhe que só aumentou o mito em torno da faixa.
A versão oficial de “Satisfaction Skank” foi lançada em 11 de dezembro, com envolvimento da Southern Fried Records e da ABKCO, empresa ligada ao catálogo clássico dos Rolling Stones.
O lançamento veio acompanhado de um vídeo dirigido por Tom Furse, integrante do The Horrors, que aposta em uma estética híbrida, misturando referências de época com tratamento visual contemporâneo, incluindo o uso de imagens trabalhadas com inteligência artificial.
Por que essa história importa
Porque ela cruza trajetórias centrais da música contemporânea. De um lado, um dos produtores mais influentes da cultura eletrônica. Do outro, uma das maiores bandas de todos os tempos. Mais do que isso, o caso ilustra como a cultura do DJ, do remix e do mashup muitas vezes sobrevive em um território informal, travada por décadas em entraves autorais e jurídicos.
Ao mesmo tempo, o acordo sinaliza uma mudança de clima. Parte da imprensa internacional relaciona essa liberação a um momento de maior flexibilidade em torno do catálogo dos Stones, ecoando debates históricos como o caso de The Verve com “Bitter Sweet Symphony” e as discussões recorrentes sobre direitos, créditos e autoria na música pop.
Uma história que levou 25 anos para poder, oficialmente, existir.


