INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PODE AUMENTAR SALÁRIOS E REDUZIR DESIGUALDADE, APONTA ESTUDO
PESQUISA LIGADA À UNIVERSIDADE DE STANFORD INDICA GANHO MÉDIO DE 21% E RECONFIGURAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO
João Carlos
20/01/2026
Um novo estudo acadêmico vem reacendendo o debate sobre os efeitos reais da inteligência artificial no mercado de trabalho. Segundo a pesquisa, a disseminação da IA pode elevar os salários médios em até 21% e reduzir de forma significativa a desigualdade salarial, contrariando a percepção de que a tecnologia tende apenas a concentrar renda e substituir trabalhadores.
O trabalho foi coassinado por Lukas Althoff, professor assistente da Stanford University, e por Hugo Reichardt, professor afiliado à Escola de Economia de Barcelona. O artigo, intitulado Task-Specific Technical Change and Comparative Advantage, foi divulgado como working paper neste mês e ainda está em fase de discussão acadêmica.
O que o estudo realmente mede
Diferentemente de análises baseadas apenas em casos pontuais, os pesquisadores desenvolveram um modelo econômico dinâmico baseado em tarefas, que simula como trabalhadores acumulam habilidades ao longo do tempo, mudam de ocupação e têm seus salários ajustados à medida que novas tecnologias são incorporadas ao sistema produtivo.
O estudo não afirma que os salários já subiram 21%. O número representa uma projeção de longo prazo, considerando um cenário em que a IA é amplamente adotada e o mercado de trabalho se reorganiza em novo equilíbrio.
O papel central da “simplificação”
Um dos pontos centrais da pesquisa está na forma como a inteligência artificial altera o trabalho a partir de três frentes complementares. A tecnologia pode ampliar a produtividade ao auxiliar trabalhadores em tarefas complexas, automatizar atividades específicas antes realizadas por humanos e, sobretudo, simplificar processos ao reduzir o nível de habilidade necessário para executar determinadas funções.
Segundo os autores, é justamente esse efeito de simplificação que exerce o impacto mais decisivo na redução da desigualdade salarial. Ao diminuir barreiras técnicas e cognitivas, a IA passa a permitir que trabalhadores menos qualificados disputem vagas que antes eram restritas a profissionais altamente especializados, promovendo um reequilíbrio no mercado de trabalho. Como destaca o estudo, a tecnologia aumenta a produtividade relativa de trabalhadores com menor qualificação em tarefas e ocupações que historicamente estavam sob o domínio de profissionais mais experientes.
Ganhos médios, mas com realocação de empregos
O modelo também aponta que a adoção da IA provoca uma forte redistribuição de empregos entre setores. Funções administrativas tendem a encolher, enquanto áreas científicas e técnicas ganham espaço. Em média, os salários sobem, mas algumas ocupações específicas podem enfrentar quedas salariais absolutas, mesmo em um cenário geral de crescimento.
Ou seja: o estudo não descreve um mercado sem perdas, mas um ambiente em transformação acelerada, no qual adaptação e requalificação se tornam decisivas.
Evidências iniciais no mundo real
Embora o trabalho seja essencialmente teórico, os pesquisadores observam que dados recentes do mercado de trabalho já mostram sinais compatíveis com o modelo, especialmente após a popularização das ferramentas de IA generativa a partir de 2022. Os efeitos ainda são parciais, mas indicam ganhos mais expressivos justamente entre trabalhadores na base da pirâmide de habilidades.
Um debate que está só começando
As conclusões do estudo repercutiram fortemente em veículos internacionais e também nas redes sociais, onde foram tratadas por alguns analistas como uma “quebra de narrativa” sobre os impactos da inteligência artificial.
Ainda assim, os próprios autores reforçam que os resultados dependem de como a tecnologia será incorporada, de políticas de educação e de mecanismos de adaptação do mercado. A IA, segundo o estudo, não é um atalho automático para prosperidade — mas pode se tornar um instrumento poderoso de redução de desigualdades, se integrada de forma estratégica.
Mais do que anunciar vencedores ou perdedores, a pesquisa aponta para um cenário claro: o futuro do trabalho não será definido apenas pela tecnologia, mas pela forma como a sociedade escolhe utilizá-la.


