IPHONE PODE GANHAR INTERNET VIA SATÉLITE MAIS AVANÇADA
ACORDO ENTRE AMAZON, GLOBALSTAR E APPLE PODE AMPLIAR SERVIÇOS DE CONECTIVIDADE FORA DO 5G E DO WI-FI
João Carlos
07/05/2026
A disputa pela internet via satélite no celular ganhou um novo capítulo com impacto direto no ecossistema da Apple. A Amazon anunciou um acordo para adquirir a Globalstar, empresa responsável por parte da infraestrutura usada nos recursos via satélite do iPhone, em uma transação avaliada em US$ 11,57 bilhões. O negócio ainda precisa passar por etapas regulatórias e tem fechamento previsto para 2027.
A movimentação aproxima três frentes importantes do mercado de conectividade: a base de usuários da Apple, a rede de satélites e frequências da Globalstar e o projeto Amazon Leo, antigo Kuiper, criado para oferecer internet por satélites de baixa órbita. Na prática, a Amazon passa a acelerar sua entrada no setor de conexão direta entre satélites e dispositivos móveis, tecnologia conhecida como Direct-to-Device, ou D2D.
Hoje, os recursos via satélite da Apple já permitem que usuários de modelos compatíveis enviem mensagens de emergência, peçam assistência rodoviária, compartilhem localização e, em alguns países, troquem mensagens fora da cobertura celular e Wi‑Fi. A Apple informa que a conexão via satélite funciona em condições diferentes de uma rede tradicional: é preciso estar ao ar livre, com visão clara do céu, e o envio de uma mensagem pode levar mais tempo do que em uma rede comum.
O que muda para o iPhone
O principal efeito do acordo é dar à Apple um parceiro maior e com mais capital para sustentar a expansão dos serviços via satélite. Segundo a Amazon, a nova parceria continuará atendendo os modelos atuais que usam a rede da Globalstar e também poderá colaborar em recursos futuros para iPhone e Apple Watch. Isso abre caminho para uma cobertura mais robusta, com potencial de melhorar serviços de segurança, mensagens e localização em áreas sem sinal.
A Amazon afirma que a rede Globalstar será integrada ao Amazon Leo e que, a partir de 2028, pretende implantar uma nova geração de sistema D2D para oferecer serviços mais avançados de voz, dados e mensagens diretamente a celulares e outros dispositivos. Esse ponto é importante porque indica que a conexão via satélite pode deixar de ser apenas um recurso emergencial e caminhar para usos mais amplos, embora ainda complementares ao 5G.
A briga com a Starlink
A aquisição também coloca a Amazon em confronto mais direto com a Starlink, de Elon Musk, que lidera o mercado de internet via satélite em baixa órbita. A Reuters aponta que a Starlink tem uma constelação muito maior, com cerca de 10 mil satélites, enquanto a Amazon ainda está em fase de expansão de sua própria rede. Com a Globalstar, a Amazon ganha satélites já em operação, licenças de espectro e experiência em comunicação móvel via satélite.
A Starlink já avança em serviços de conexão direta ao celular por meio de parcerias com operadoras, como a T-Mobile nos Estados Unidos. O serviço T-Satellite, baseado na Starlink, oferece mensagens, compartilhamento de localização e uso de alguns aplicativos otimizados em áreas sem torres de celular, mas ainda com limitações de velocidade, disponibilidade e cobertura.
Por que a Globalstar é estratégica
O valor da Globalstar não está apenas em seus satélites. A companhia possui licenças de espectro para serviços móveis via satélite, um ativo considerado cada vez mais importante para empresas que querem conectar celulares diretamente ao espaço. Analistas ouvidos pela Via Satellite destacaram que o espectro MSS se tornou um diferencial competitivo no mercado D2D, porque envolve compatibilidade com dispositivos móveis e aprovações regulatórias.
Esse tipo de infraestrutura pode ser útil em regiões rurais, estradas, áreas de montanha, oceanos, zonas de desastre e locais onde a instalação de torres tradicionais é cara ou inviável. Ainda assim, a tecnologia não deve substituir as redes móveis convencionais no curto prazo. A tendência é que funcione como uma camada complementar: entra em ação quando o usuário está fora do alcance do 4G, 5G ou Wi‑Fi.
E no Brasil?
Para usuários brasileiros, o impacto ainda é indireto. A Apple informou que a disponibilidade dos recursos via satélite depende do país ou região, de aprovações governamentais e de requisitos específicos de cada mercado. Na lista atual do SOS de Emergência via Satélite, o Brasil ainda não aparece entre os países atendidos.
A Anatel já autorizou testes de Direct-to-Device no país e acompanha experimentos de comunicação direta entre satélites e smartphones, o que mostra que o tema está no radar regulatório brasileiro. Em 2024, a agência autorizou testes com sistemas de satélites se comunicando diretamente com smartphones na faixa de 800 MHz; em 2025, acompanhou testes de D2D em Brasília e no Maranhão.
O acordo entre Amazon, Globalstar e Apple reforça uma tendência clara: os smartphones estão deixando de depender apenas de antenas terrestres para manter algum nível de comunicação. Para a Apple, isso fortalece um diferencial de segurança do iPhone. Para a Amazon, representa uma entrada mais agressiva no mercado de conectividade móvel via satélite. Para a Starlink, é um novo rival de peso em uma corrida que deve definir como celulares, relógios e outros dispositivos continuarão conectados mesmo longe das redes tradicionais.


