O PARADOXO DO OSCAR NA INDÚSTRIA DA MÚSICA
ÍCONES DA MÚSICA POPULAR NUNCA VENCERAM O OSCAR DE MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
João Carlos
13/03/2026
Desde os anos 1970, quando a indústria cinematográfica abriu espaço para que músicos populares passassem a disputar o prêmio de Melhor Canção Original no Oscar, diversos cantores e compositores consagrados acabaram levando para casa o cobiçado troféu. Alguns, como Elton John e Billie Eilish, chegaram inclusive a conquistar a estatueta duas vezes. Ainda assim, existe um paradoxo curioso nessa relação entre cinema e música popular.
Apesar desse histórico de reconhecimento, alguns dos maiores ícones da música mundial — como Elvis Presley, Madonna e Michael Jackson — jamais conquistaram o Oscar nessa categoria.
Às vésperas da cerimônia deste ano, marcada para domingo, 15 de março, essa curiosidade volta a chamar atenção ao revelar como a lógica da premiação da Academia nem sempre acompanha o impacto cultural dos maiores nomes da música.
Quando Hollywood abriu as portas para a música popular

Crédito da image: Gerada por IA
Durante grande parte da história do cinema, especialmente entre as décadas de 1930 e 1960, as músicas indicadas ao Oscar eram normalmente escritas por compositores especializados em trilhas sonoras, profissionais ligados diretamente aos estúdios de Hollywood.
Cantores populares apareciam, muitas vezes, apenas como intérpretes dessas canções. A mudança começou a se consolidar a partir dos anos 1970, quando artistas vindos do universo do pop, rock e soul passaram a participar diretamente da composição de músicas criadas para filmes.
Foi nesse contexto que nomes como Isaac Hayes, vencedor do Oscar em 1972 com Theme from Shaft, ajudaram a inaugurar uma nova fase na premiação, aproximando definitivamente a indústria da música popular do cinema.
Desde então, diversos artistas consagrados passaram a conquistar a estatueta, entre eles Stevie Wonder, Phil Collins, Bob Dylan, Adele, Sam Smith e Lady Gaga.
Elvis Presley: estrela de Hollywood sem Oscar musical

Cartaz do filme Jailhouse Rock (1957), estrelado por Elvis Presley. Foto: Divulgação / MGM
Entre os casos mais curiosos está o de Elvis Presley. O artista protagonizou mais de 30 filmes entre as décadas de 1950 e 1960, e muitas das músicas associadas à sua carreira nasceram justamente nesses longas.
Canções como Love Me Tender, Jailhouse Rock e Viva Las Vegas se tornaram clássicos do cinema musical. No entanto, Elvis quase nunca era o compositor das músicas, função que ficava a cargo de equipes contratadas pelos estúdios.
Como o Oscar de Melhor Canção Original é concedido aos autores da composição — e não necessariamente ao intérprete — Elvis nunca foi premiado pela Academia nessa categoria.
Madonna e as trilhas que a Academia ignorou

Cartaz original do filme Who’s That Girl (1987). Foto: Divulgação / Warner Bros. Pictures
No caso de Madonna, a relação com o cinema foi ainda mais direta. A artista não apenas atuou em diversos filmes, como também compôs músicas especialmente para produções cinematográficas.
Entre os exemplos estão Live to Tell, do filme At Close Range (1986), Who’s That Girl, do longa homônimo de 1987, e Beautiful Stranger, da comédia Austin Powers: The Spy Who Shagged Me (1999).
Apesar do sucesso dessas canções — algumas premiadas em outras cerimônias, como o Globo de Ouro — nenhuma delas conquistou o Oscar.
Michael Jackson e a força do audiovisual

Crédito da imagem: Cartaz do filme Moonwalker (1988). Foto: Divulgação / Warner Bros. Pictures | Epic Records
A ligação de Michael Jackson com o cinema e a linguagem visual foi intensa. Projetos como The Wiz (1978), Moonwalker (1988) e o filme musical da Disney Captain EO ajudaram a consolidar a importância do artista também no universo audiovisual.
Jackson também teve músicas associadas a produções cinematográficas, como Will You Be There, presente no filme Free Willy (1993).
Curiosamente, uma das músicas que ele interpretou chegou a vencer o Oscar: Ben, em 1972. No entanto, o prêmio foi concedido aos compositores da canção, não ao cantor.
Elton John e Billie Eilish: duas gerações de vencedores

Crédito da imagem: Gerada por IA
Enquanto alguns ícones ficaram de fora da história da premiação, outros artistas conseguiram estabelecer uma relação direta com o cinema.
Elton John venceu o Oscar em 1995, com Can You Feel the Love Tonight, do clássico da Disney The Lion King, e voltou a conquistar a estatueta em 2020, com (I'm Gonna) Love Me Again, do filme biográfico Rocketman.
Já Billie Eilish se tornou uma das artistas mais jovens a conquistar múltiplos prêmios da Academia, vencendo em 2022 com No Time to Die, da franquia James Bond, e novamente em 2024 com What Was I Made For?, do filme Barbie.
Nem todos os gigantes ficaram de fora

Cartaz do documentário Let It Be (1970). Foto: Divulgação / Apple Corps Ltd. – versão restaurada para Disney+
Apesar de alguns dos maiores ícones da música popular nunca terem conquistado um Oscar nessa categoria, há exceções notáveis entre artistas igualmente históricos.
Um caso emblemático é o dos Beatles. Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr conquistaram juntos, em 1971, o Oscar de Melhor Trilha Sonora Original pelo documentário Let It Be (1970).
Já em sua trajetória individual, Paul McCartney tornou-se o único integrante do grupo a receber indicações solo ao Oscar. O músico foi indicado duas vezes na categoria Melhor Canção Original: em 1974, por Live and Let Die, tema do filme homônimo da franquia James Bond, e em 2002, pela faixa-título de Vanilla Sky.
Embora não tenha vencido individualmente nessas ocasiões, McCartney é um exemplo de como um nome monumental da música popular conseguiu, ainda assim, estabelecer uma relação consistente com o cinema e com a própria história do Oscar.
Frank Sinatra: o Oscar veio pelo cinema, não pela música

Cartaz original do filme From Here to Eternity (1953), dirigido por Fred Zinnemann. Foto: Divulgação / Columbia Pictures
Outro nome que ajuda a ilustrar as curiosidades dessa relação entre música popular e Oscar é Frank Sinatra, um dos maiores intérpretes da história da música americana.
Apesar de sua carreira musical monumental e da forte presença de suas canções no cinema ao longo de décadas, Sinatra nunca venceu o Oscar por composições ou interpretações musicais ligadas a filmes.
A consagração da Academia veio por outro caminho. Em 1954, o artista conquistou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante por sua atuação no filme From Here to Eternity (A Um Passo da Eternidade, de 1953). O papel do soldado Angelo Maggio marcou um momento decisivo em sua carreira e ajudou a consolidar sua credibilidade também como ator.
O episódio mostra como, mesmo para um artista cuja voz ajudou a definir o século XX, o reconhecimento da Academia acabou chegando pela atuação nas telas, e não pela música.
Cinema e música: uma relação cada vez mais inseparável
Ao longo das últimas décadas, a relação entre cinema e música tornou-se cada vez mais próxima. Trilhas sonoras passaram a ocupar papel central na construção emocional das histórias e, muitas vezes, ultrapassam as telas para ganhar vida própria nas rádios e nas plataformas digitais.
Hoje, grandes lançamentos cinematográficos frequentemente caminham lado a lado com canções que se tornam sucessos globais, reforçando a colaboração entre compositores, intérpretes e produtores de cinema.
Assim, mesmo que alguns gigantes da música popular nunca tenham levado para casa um Oscar, a história mostra que o diálogo entre as duas indústrias continua evoluindo — transformando filmes em experiências sonoras memoráveis e músicas em parte fundamental da narrativa do cinema.


