OS BASTIDORES DE “UNDER PRESSURE”: ENTRE TAÇAS DE VINHO E UMA LONGA JAM SESSION
O ENCONTRO INESPERADO ENTRE QUEEN E DAVID BOWIE EM 1981 DEU ORIGEM A UMA DAS COLABORAÇÕES MAIS ICÔNICAS DA HISTÓRIA DO ROCK
João Carlos
05/03/2026
A gravação de “Under Pressure”, lançada em 1981, nasceu de um encontro tão improvável quanto histórico entre Queen e David Bowie.
O que começou como uma simples visita ao estúdio acabou se transformando em uma sessão criativa intensa que produziria um dos maiores clássicos da música pop e rock do século XX.
O encontro inesperado em Montreux

Créditos da imagem: Capa do álbum Hot Space (1982), do Queen. Divulgação
Naquele momento, o Queen estava trabalhando no álbum Hot Space no Mountain Studios, em Montreux, na Suíça.
Por coincidência, David Bowie também estava na região gravando “Cat People (Putting Out Fire)”, composta com o produtor Giorgio Moroder para o filme Cat People (1982) e posteriormente regravada para o álbum Let’s Dance (1983). Naquele período, o cantor vivia na Suíça, onde permaneceu durante alguns anos por razões fiscais, situação comum entre artistas britânicos da época.
O engenheiro de som David Richards, que trabalhava no estúdio, sugeriu que Bowie passasse para uma visita. A ideia inicial era simples: experimentar algumas gravações juntos.
A jam session que durou 24 horas

Crédito da imagem: Kent Gavin/Mirrorpix/Getty Images
A primeira tentativa foi gravar vocais para a faixa “Cool Cat”, mas a ideia foi rapidamente abandonada. Segundo relatos posteriores dos músicos, todos sentiram que aquilo simplesmente não funcionava.
Em vez disso, os artistas mergulharam em uma longa jam session improvisada, que se estendeu por cerca de 24 horas.
A sessão, segundo o baterista Roger Taylor, foi marcada por um clima descontraído e bastante caótico.
“Estávamos bebendo e tocando todo tipo de música clássica… qualquer coisa que viesse à mente”, relembrou o músico em entrevista à revista Record Collector.
Foi nesse ambiente espontâneo — entre vinho, improvisações e experimentação musical — que começou a surgir a estrutura de “Under Pressure”, música que acabaria se tornando o segundo número 1 do Queen no Reino Unido, depois de “Bohemian Rhapsody”, e o terceiro de Bowie nas paradas britânicas.
O riff que mudou tudo
A base da canção nasceu de um riff de baixo criado por John Deacon.
A linha de baixo — hoje uma das mais reconhecíveis da história do pop — serviu como ponto de partida para que os músicos construíssem o restante da música.
Inicialmente, a faixa recebeu o título provisório de “People on Streets”.
Com o desenvolvimento da letra e da melodia, a música acabou sendo renomeada como “Under Pressure”.
A técnica incomum de Bowie
Durante a gravação dos vocais, Bowie propôs uma abordagem pouco convencional.
Ele e Freddie Mercury gravaram diferentes linhas vocais sem ouvir as partes um do outro, improvisando frases e melodias separadamente.
Posteriormente, os melhores trechos foram combinados na edição final.
Esse método — comum nas experimentações artísticas de Bowie — ajudou a criar o diálogo vocal dramático que se tornaria uma das marcas registradas da música.
Covers do Cream e gravações inéditas
A jam session também produziu outras gravações curiosas que nunca chegaram a ser oficialmente lançadas.
Segundo Brian May e Roger Taylor, os músicos chegaram a gravar versões improvisadas de músicas da banda britânica Cream, uma das grandes referências do rock da década de 1960.
Entre as canções experimentadas estavam “NSU” e “I Feel Free”, registradas inicialmente apenas como exercício criativo.
“Tomamos a decisão incomum de fazer covers de clássicos do Cream”, contou Taylor. “Gravamos essas músicas só por diversão e então alguém disse: ‘Vamos compor uma nós mesmos’”.
A ligação com o Cream, aliás, vinha de antes. Na banda Smile, formação que antecedeu o Queen antes da entrada de Freddie Mercury, May e Taylor já haviam tocado “I Feel Free”. Anos depois, o próprio Bowie também gravaria uma versão da música.
A tensão na mixagem
Apesar da atmosfera criativa da sessão inicial, a fase final da produção foi marcada por conflitos.
Em agosto de 1981, nos Power Station Studios, em Nova York, Bowie e Mercury passaram cerca de 18 horas discutindo sobre a mixagem final da música.
Em determinado momento, Bowie chegou a ameaçar vetar o lançamento da faixa caso não estivesse satisfeito com o resultado.
Freddie Mercury acabou atuando como mediador, ajudando a chegar a uma versão de compromisso.
Um clássico sem promoção tradicional
Curiosamente, apesar do sucesso estrondoso, “Under Pressure” não recebeu uma campanha promocional tradicional.
O single foi lançado sem fotografias na capa, algo incomum para artistas daquele porte na época.
O videoclipe, dirigido por David Mallett, utilizava principalmente imagens de arquivo, em vez de mostrar os músicos interpretando a canção.
Uma colaboração que nunca subiu ao palco
Outro detalhe curioso é que Freddie Mercury e David Bowie nunca apresentaram “Under Pressure” juntos ao vivo.
Bowie só voltaria a cantar a música em 1992, durante o Freddie Mercury Tribute Concert, em Wembley. Veja a seguir um registro do ensaio para essa apresentação histórica.
Na ocasião, a canção foi interpretada em um dueto entre Annie Lennox e os integrantes remanescentes do Queen.
O que restou das sessões
Das gravações feitas naquele encontro em Montreux, poucas chegaram ao público.
Uma delas foi “I Go Crazy”, lançada como lado B do single “Radio Ga Ga”, em 1984. Bowie, no entanto, não participou dessa gravação específica.
Ainda hoje, fãs se perguntam se outras gravações daquelas sessões — incluindo os improvisos inspirados no Cream — poderão algum dia ser lançadas.
May e Taylor não descartam totalmente essa possibilidade.
“Há alguns anos teríamos pensado que ninguém deveria ouvir aquilo, porque era muito cru. Mas hoje não temos vergonha do que éramos naquela época. Éramos nós contra o mundo”, disse Taylor.
A segunda vida da música: do rock ao hip-hop
Quase uma década após o lançamento original, “Under Pressure” ganharia uma inesperada nova vida nas paradas.
Em 1990, o rapper Vanilla Ice lançou o hit “Ice Ice Baby”, que utilizava a linha de baixo criada por John Deacon como base da música.
Inicialmente, o sample foi usado sem autorização oficial, o que gerou uma disputa pública com os integrantes do Queen e o espólio de David Bowie.
A questão acabou sendo resolvida posteriormente com um acordo de direitos autorais, que passou a creditar os compositores originais da canção.
Apesar da controvérsia, “Ice Ice Baby” se tornou um fenômeno global e apresentou o famoso riff de baixo a uma nova geração de ouvintes.
Um dos riffs mais reconhecíveis da música

Crédito da imagem: Getty Images
O riff de baixo criado por John Deacon se transformou em um dos mais reconhecíveis da história da música popular.
Além do sucesso de Vanilla Ice, a linha melódica de “Under Pressure” também apareceu em apresentações ao vivo, remixes e referências culturais em filmes, séries e performances de diferentes artistas ao longo das décadas.
A canção original permanece, no entanto, como um exemplo raro de colaboração entre dois gigantes da música — um encontro espontâneo que acabou produzindo um dos momentos mais marcantes do rock e do pop do século XX.


