RED SPECIAL: A INCRÍVEL HISTÓRIA DA GUITARRA DO QUEEN
FEITA POR BRIAN MAY E SEU PAI, A “OLD LADY” TRANSFORMOU MADEIRA REAPROVEITADA EM UMA DAS VOZES MAIS FAMOSAS DO ROCK
João Carlos
13/06/2026
Ninguém tem dúvida de que a trajetória do Queen é uma das mais fascinantes da história da música — prova disso é que a cinebiografia de Freddie Mercury e da banda detém o título de uma das mais bem-sucedidas de todos os tempos. No entanto, para além do brilho das telas, existe um capítulo na biografia do grupo que merece atenção especial: a gênese da lendária guitarra de Brian May, a Red Special.
O que torna este instrumento um dos mais desejados e icônicos do rock é sua origem absolutamente inusitada. Construída artesanalmente pelo próprio músico e seu pai, a guitarra carrega uma sonoridade única que se tornou a assinatura do Queen. Tamanha é sua importância e valor histórico que ela rivaliza com outros instrumentos lendários, como a famosa Lucille, de B.B. King — uma comparação de peso que, por si só, já renderia outra matéria especial.
A Gênese da Red Special: Entre a Oficina e a Eternidade

Créditos da imagem: Arquivo/Brian May/Instagram
Muitas vezes, a história do rock é escrita em estúdios suntuosos, cercada por equipamentos de última geração e produtores lendários. No entanto, a trajetória da Red Special seguiu um roteiro oposto: ela nasceu no silêncio de uma oficina improvisada em Feltham, Londres, fruto de ferramentas manuais, paciência familiar e uma visão audaciosa. Criada por Brian May e seu pai, Harold May, o instrumento prova que a genialidade, por vezes, floresce na simplicidade.
Em 1963, muito antes de o Queen lotar arenas, Brian era um adolescente com um desejo latente, mas um orçamento limitado. Modelos consagrados como Fender e Gibson eram sonhos distantes para a realidade da família. A solução foi uma empreitada de dois anos que uniu o talento prático de Harold — um engenheiro eletrônico nato — à ambição sonora de Brian. O objetivo era claro: não apenas construir uma guitarra, mas criar um instrumento que superasse qualquer modelo comercial em termos de feedback e expressividade.
O que torna a Red Special um objeto de "reaproveitamento poético" são seus materiais. O braço da guitarra foi esculpido a partir de uma moldura de lareira do século XVIII, feita de mogno maciço, que seria descartada por um amigo da família. As marcações da escala ganharam vida através de botões de madrepérola retirados da caixa de costura de sua mãe. Já o sistema de tremolo — uma peça de engenharia doméstica brilhante — utilizou suportes de bolsas de bicicleta e a ponta de uma agulha de tricô.
Harold May não era músico, mas sua precisão técnica foi o alicerce para que Brian encontrasse sua voz. Ele ajudou o filho a projetar um instrumento que "falasse" e reagisse ao ambiente de forma orgânica. Esse vínculo transformou a guitarra em algo mais que madeira e cordas; tornou-a a "Old Lady" (Velha Senhora), como Brian carinhosamente a chama. O nome oficial, Red Special, surgiria anos depois, quase por acaso, durante uma entrevista de rádio, quando a cor avermelhada do acabamento e sua natureza única (um projeto one-off) precisaram de uma definição à altura de sua lenda.
Por que ela soa diferente

Créditos da imagem: Reprodução/Redes Sociais
O segredo da Red Special não está só na madeira reaproveitada. Está também no circuito elétrico. A guitarra usa três captadores do tipo Tri-Sonic e um conjunto de chaves que permite ligar ou desligar cada captador individualmente, além de inverter a fase de cada um. A Premier Guitar descreve o sistema como uma configuração com três captadores single-coil, controles master de volume e tonalidade, e chaves individuais de on/off e fase para cada captador.
Na prática, isso dá a Brian May uma paleta sonora muito particular. Quando os captadores estão em fase, o som ganha corpo e força. Quando um deles é colocado fora de fase em combinação com outro, parte das frequências se cancela, gerando aquele timbre mais fino, cortante e quase vocal — uma assinatura que aparece em solos e harmonias do Queen. A Premier Guitar também explica que, fora de fase, os captadores “trabalham” um contra o outro, cancelando frequências e deixando como resultado justamente o som que sobra dessa interação.
Outro elemento importante é a forma como May toca. Em vez de uma palheta comum, ele ficou famoso por usar uma moeda britânica de seis pence. Em entrevista retomada pela Guitar World, o guitarrista explicou que a moeda oferece rigidez, contato mais direto com as cordas e um ataque percussivo que ajudou a moldar riffs e solos clássicos.
A guitarra por trás dos discos do Queen
A Red Special está associada a praticamente toda a trajetória do Queen. O instrumento foi usado por Brian May em todos os álbuns do grupo e em shows ao redor do mundo, além de aparições históricas como Live Aid, Buckingham Palace e a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Londres 2012.
Em Queen II, de 1974, a guitarra aparece em um dos ambientes mais ricos para entender a fase inicial da banda. O álbum voltou aos holofotes em 2026 com uma edição de colecionador que trouxe nova mixagem, materiais de estúdio, demos, faixas ao vivo e sessões de rádio, segundo a loja oficial do Queen e a cobertura da Louder Sound.
Em Sheer Heart Attack, também de 1974, o destaque natural é Killer Queen. O próprio Brian May já citou o solo da música como um de seus favoritos, chamando atenção para a aventura de trabalhar harmonias de guitarra dentro do solo, em material reproduzido no site oficial do músico.
Em A Night at the Opera, de 1975, a Red Special ganha um de seus momentos mais conhecidos: o solo de Bohemian Rhapsody. Mas há outro exemplo precioso no mesmo disco: Good Company, em que May levou adiante a ideia de simular uma pequena banda de jazz usando camadas de guitarra. Em entrevista à Guitar World, ele lembrou que nessa faixa chegou a emular uma banda inteira de jazz.
Já em News of the World, de 1977, a guitarra aparece de forma mais direta, especialmente em We Will Rock You. É o lado cru, grandioso e imediatamente reconhecível de Brian May: poucas notas, muito impacto e um timbre que parece ter sido feito para atravessar multidões. A cronologia oficial da loja do Queen lista o álbum em 1977.
Uma peça sem preço real
A Red Special original nunca foi vendida e não há uma avaliação pública oficial definitiva. Qualquer número, portanto, seria especulativo. Ainda assim, o mercado internacional de memorabilia dá uma ideia do tamanho simbólico de instrumentos históricos. Em 2026, a Christie’s registrou a venda da “Black Strat” de David Gilmour por US$ 14,55 milhões, da “Tiger” de Jerry Garcia por US$ 11,56 milhões e da Fender Mustang de Kurt Cobain, associada ao vídeo de “Smells Like Teen Spirit”, por US$ 6,907 milhões.
A diferença é que a Red Special reúne três camadas raríssimas no mesmo objeto: foi construída pelo próprio músico, nasceu de uma parceria familiar e acompanhou uma das bandas mais importantes da história do rock em estúdio e no palco. Mais do que uma guitarra cara, ela é uma espécie de biografia em madeira, metal, circuito e afeto.
Réplicas e legado
O fascínio pelo instrumento também criou um mercado de réplicas oficiais. A Brian May Guitars mantém modelos inspirados na original, como a BMG Special e a BMG Super. As especificações oficiais destacam captadores estilo Tri-Sonic ligados em série e o sistema de seis chaves com três seletores de captador e três inversores de fase, justamente para aproximar o músico comum da arquitetura sonora da guitarra de Brian May.
Mas nenhuma réplica substitui o objeto original. A força da Red Special está no fato de ela não ter nascido como produto. Ela nasceu como solução, sonho e experimento. Em um mundo no qual tantos instrumentos icônicos saíram de fábricas lendárias, a guitarra de Brian May segue como uma exceção encantadora: uma criação caseira que ajudou a dar ao Queen uma voz inconfundível.
No fim, a Red Special lembra que a inovação musical nem sempre depende do equipamento mais caro. Às vezes, depende de curiosidade, escuta, coragem e de alguém disposto a transformar uma velha lareira em som eterno.
Roger Taylor: O Pulsar do Queen em Novos Horizontes
Enquanto o Queen não dá sinais de retorno às grandes turnês mundiais, o baterista Roger Taylor prova que sua urgência criativa permanece intacta. Recentemente, Taylor surpreendeu os fãs ao anunciar seu sétimo álbum solo, intitulado Violence Insane in a Beautiful World. Com lançamento marcado para o dia 18 de setembro, o disco promete ser uma obra de contrastes, equilibrando a crueza da denúncia social com a leveza da esperança.
Um Manifesto Sonoro e Ambiental
O novo projeto de Taylor é um manifesto. O músico revelou que o título resume sua profunda preocupação com o estado atual do planeta, abordando temas urgentes como a violência, os conflitos globais e a preservação ambiental. "O título reflete meu desejo de não estragarmos o mundo maravilhoso em que vivemos", declarou o baterista, indicando que o álbum alternará momentos de protesto com mensagens de gentileza.
Colaborações e Singles
O álbum é composto por 10 faixas, sendo nove composições autorais e uma releitura de "Jealous Guy", clássico de John Lennon. Um dos grandes destaques é a participação do grupo sul-africano Ndlovu Youth Choir, que empresta suas vozes potentes a três canções, trazendo uma camada de diversidade e vigor ao som de Taylor.
Para quem quer um antepassado do que está por vir, o single oficial "Come On Summer (It's Party Time)" já está disponível nas plataformas de streaming, trazendo uma atmosfera solar que contrasta com a faixa de protesto político "Chump", liberada no início do ano.
O Retorno aos Palcos
Para celebrar o lançamento, Roger Taylor também confirmou uma mini-turnê pelo Reino Unido em setembro. Os shows, que prometem a intimidade e a energia característica de suas apresentações solo, passarão por cidades icônicas como Londres, Manchester, Birmingham, Newcastle, Edimburgo e Swansea. É a chance de ver de perto um dos arquitetos do som do Queen em sua forma mais pessoal e reflexiva.
E o Queen?

Crédito da imagem: Xavier Vila/NME
Para os fãs que aguardam o próximo passo da entidade Queen, o momento é de expectativa e celebração do passado. Diferente do ritmo frenético de anos anteriores, o grupo adota agora uma postura mais seletiva. Recentemente, Brian May expressou publicamente sua hesitação em retornar a certos palcos mundiais, citando preocupações com a segurança global — o que deixou os planos de uma turnê por grandes arenas em 2026 ainda sob um manto de incerteza.
O Renascimento de Queen II
Se os palcos aguardam definições, os estúdios entregam relíquias. O grande marco atual é o lançamento da edição de luxo de Queen II, celebrando mais de 50 anos de um dos álbuns mais pesados e majestosos da banda. Sob a supervisão direta de May e Roger Taylor, o disco foi totalmente remixado e remasterizado (a chamada "2026 Mix"), trazendo uma clareza sonora inédita para clássicos como "Seven Seas of Rhye".
Disponibilizado em um box set monumental com 5 CDs e 2 LPs, o material é um banquete para colecionadores, incluindo sessões de estúdio nunca lançadas e áudios históricos da BBC de 1973, agora em mixagens modernas como o Dolby Atmos.
O Eterno Tributo a Freddie
Enquanto os rumores sobre uma possível residência na tecnológica Sphere, em Las Vegas, continuam a alimentar as conversas de bastidores, o foco oficial permanece no tributo contínuo a Freddie Mercury. Os preparativos para a Festa Oficial de Aniversário de Freddie, em 5 de setembro, já mobilizam fãs ao redor do mundo, com o lançamento de itens exclusivos cujas vendas apoiam a The Mercury Phoenix Trust.
Entre a cautela de Brian May e a energia renovada de Roger Taylor, o Queen prova que sua relevância não depende apenas da estrada, mas da capacidade de manter sua obra viva, imersiva e, acima de tudo, eterna.


