VOCÊ TEM MEDO DE PERDER O EMPREGO PARA A IA?
ANSIEDADE DIANTE DA AUTOMAÇÃO GANHA NOME EM ESTUDO RECENTE: “DISFUNÇÃO DE SUBSTITUIÇÃO POR IA”
João Carlos
23/02/2026
O avanço acelerado da Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma discussão tecnológica para se tornar também um tema social e emocional. Em 2026, levantamentos indicam que a percepção de risco profissional associada à IA é significativa em diferentes regiões — inclusive no Brasil e na América Latina.
De acordo com o relatório Workmonitor 2026, publicado pela Randstad, 60% dos trabalhadores brasileiros entrevistados afirmam temer que a Inteligência Artificial substitua parte de suas funções, especialmente em áreas administrativas, financeiras e operacionais. Ao mesmo tempo, 87% declararam interesse em receber treinamento para utilizar a tecnologia em suas rotinas profissionais.
A preocupação também aparece em outros países da região. Levantamento realizado pela Page Interim, divisão do grupo Michael Page, aponta que 76% dos profissionais latino-americanos acreditam que a IA impactará parcialmente suas atividades de trabalho.
No cenário global, relatórios recentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que a automação pode alterar padrões de contratação e reconfigurar ocupações, especialmente entre trabalhadores mais jovens e qualificados. No entanto, os estudos não apontam, neste momento, uma perda líquida generalizada de empregos.
Novos empregos, mas também automação
Análises da Organização Internacional do Trabalho (OIT), baseadas em relatórios globais sobre mercado de trabalho divulgados entre 2025 e 2026, sugerem que a expansão da Inteligência Artificial pode contribuir para a criação de cerca de 7,1 milhões de novos postos até 2034. Ao mesmo tempo, estimativas indicam que aproximadamente 9% das ocupações atuais apresentam potencial significativo de automação.
Embora o saldo líquido não seja necessariamente negativo, os estudos apontam para uma reconfiguração acelerada das funções existentes — cenário que alimenta a percepção de insegurança profissional.
No ambiente corporativo, levantamentos citados no Workmonitor 2026 e em pesquisas de consultorias internacionais mostram que 41% dos líderes de RH identificam a requalificação como o principal desafio da integração da IA, enquanto 89% afirmam que a tecnologia terá impacto estrutural profundo nas organizações.
Nesse contexto, habilidades como criatividade, pensamento crítico e capacidade de adaptação tendem a ganhar relevância, enquanto tarefas repetitivas e operacionais permanecem entre as mais suscetíveis à automação.

Crédito da imagem: gerada por IA
Quando o medo vira sofrimento psicológico
Diante desse cenário de transformação acelerada, pesquisadores passaram a discutir os impactos emocionais da automação no ambiente de trabalho. Em setembro de 2025, um artigo publicado na revista científica Cureus, assinado por Stephanie N. McNamara e Joseph E. Thornton, da Universidade da Flórida, propôs o termo Artificial Intelligence Replacement Dysfunction (AIRD), ou Disfunção de Substituição por Inteligência Artificial.
O conceito descreve um quadro de sofrimento psicológico e existencial associado ao medo — real ou percebido — de perder o emprego em razão da automação por IA. Segundo os autores, esse estado pode se manifestar por meio de ansiedade persistente, distúrbios do sono, sintomas depressivos, perda de identidade ocupacional, sentimentos de inutilidade e desesperança em relação ao futuro profissional.
O artigo não apresenta o AIRD como diagnóstico oficialmente reconhecido, mas como um construto clínico inicial voltado à pesquisa e à prática terapêutica. Os autores sugerem, inclusive, um instrumento preliminar de triagem com cinco perguntas, inspirado em escalas amplamente utilizadas como o PHQ-9 e o GAD-7, com o objetivo de auxiliar profissionais de saúde mental na identificação de sofrimento relacionado à ansiedade tecnológica.
Ainda não é diagnóstico oficial
É importante destacar que o AIRD não é reconhecido como condição médica formal pelas principais entidades psiquiátricas internacionais. Trata-se de um framework inicial para pesquisa, e não de um diagnóstico consolidado.
Especialistas apontam possíveis estratégias de enfrentamento, como terapia cognitivo-comportamental, reestruturação narrativa da identidade profissional e programas institucionais de requalificação.
Outros termos informais também circulam, como “ansiedade da IA” e “FOBO” (fear of becoming obsolete), mas AIRD é, até o momento, o conceito mais estruturado no campo acadêmico para abordar esse fenômeno.
Um medo compreensível em uma era de transformação
A discussão vai além da substituição tecnológica. Ela toca diretamente na identidade. Para muitas pessoas, o trabalho é parte central do sentido de vida, do reconhecimento social e da autoestima.
Quando a automação avança rapidamente, a insegurança pode ultrapassar o campo econômico e assumir contornos emocionais mais profundos.
Se, por um lado, a IA promete eficiência e novos mercados, por outro exige adaptação constante — e nem todos estão preparados, no mesmo ritmo, para mudanças tão aceleradas.
Em 2026, o debate não é apenas sobre tecnologia. É também sobre como preservar o bem-estar humano em meio à transformação digital.


