Alan Greenspan, “maestro” do Fed durante anos de altos e baixos, morre aos 100 anos
Alan Greenspan, “maestro” do Fed durante anos de altos e baixos, morre aos 100 anos
Reuters
22/06/2026
Atualizada em 22/06/2026
Por Howard Schneider e Jonathan Spicer
22 Jun (Reuters) - Alan Greenspan, aclamado como o maior chair do Federal Reserve quando se aposentou em 2006, mas criticado pela grave crise financeira que se seguiu apenas dois anos depois, morreu nesta segunda-feira aos 100 anos, informou sua esposa.
Greenspan, que exerceu uma influência poderosa sobre a economia dos Estados Unidos durante seu mandato à frente do Fed, de agosto de 1987 a janeiro de 2006, faleceu em sua residência devido a complicações decorrentes da doença de Parkinson, disse Andrea Mitchell em comunicado.
“Ele foi um homem gigantesco que ajudou a moldar a economia dos EUA por décadas sob presidentes de ambos os partidos, mas sempre foi honesto ao reconhecer seus erros”, disse Mitchell.
“Ele será lembrado por sua genialidade e bondade. Ser sua companheira de vida foi a alegria da minha vida”, acrescentou ela.
Greenspan supervisionou a segunda maior expansão econômica da história dos EUA, uma década ininterrupta de crescimento de março de 1991 a março de 2001. Sua decisão de deixar a economia seguir seu curso — apesar da pressão para aumentar a taxa de juros diante de uma ameaça de inflação que nunca se concretizou — ajudou a promover anos de prosperidade nos EUA e lhe rendeu o status de estrela do rock como um “maestro” econômico.
A era foi marcada por seu julgamento perspicaz de que um aumento da produtividade em meados da década de 1990 manteria a inflação sob controle.
Sua intuição naquele momento ainda é uma referência para as autoridades e foi citada pelo ex-chair do Fed, Jerome Powell, como um exemplo de como o discernimento pode, às vezes, superar os modelos técnicos da economia.
No entanto, a visão de política monetária do ex-músico de jazz foi posteriormente questionada, à medida que críticos atacaram suas políticas por alimentar uma série de bolhas nos preços dos ativos e por preparar o terreno para a crise financeira de 2007-2009.
“Acho que a deificação que ocorreu pouco antes da crise financeira nunca foi realmente merecida, e acho que as críticas que ele recebeu depois que deixou o cargo também nunca foram totalmente merecidas”, disse Stephen Oliner, ex-alto funcionário do Fed.
Greenspan, que se apaixonou pela matemática por meio de uma obsessão por estatísticas do beisebol, ganhou elogios imediatos por sua resposta firme à quebra do mercado de ações de 1987, apenas dois meses após assumir o cargo.
Ele também conduziu a economia dos EUA durante a recessão de 1990-91, o contágio financeiro asiático e russo de 1997-1998, o colapso da bolha das ações das empresas ponto-com em 2000 e as turbulentas consequências econômicas dos ataques de 11 de setembro de 2001.
Ao longo desse percurso, detalhou o biógrafo Sebastian Mallaby, ele se tornou um consumado articulador em Washington, capaz de influenciar presidentes e ministros a tomarem as decisões que considerava melhores, às vezes sem que eles percebessem quem mexia os pauzinhos.
“O Federal Reserve registra com profunda tristeza o falecimento de Alan Greenspan”, afirmou o Fed em comunicado. “Ele trouxe um rigoroso senso de disciplina analítica à formulação da política monetária e ajudou a estabelecer a credibilidade que continua sendo um dos ativos mais importantes do Federal Reserve.”
ESTOURO DA BOLHA
No encontro do Fed em Jackson Hole em 2005, dois economistas de renome o consideraram talvez o maior banqueiro central de todos os tempos.
Mas quando a bolha dos preços imobiliários, que havia crescido durante seus últimos quatro anos no cargo, finalmente estourou, ela destruiu sua reputação outrora brilhante — juntamente com a economia global.
Quaisquer que fossem os méritos de Greenspan naquele momento, seus sucessores conduziram o Fed de forma constante em uma nova direção, implementando ferramentas de resposta à crise financeira para lidar com problemas que Greenspan nunca havia enfrentado, como taxas de juros zero, e mudando de uma comunicação opaca para discursos mais frequentes, uma meta de inflação definida e coletivas de imprensa regulares.
Além das críticas à sua política monetária, os detratores atacaram Greenspan, um poderoso defensor da regulamentação branda dos mercados financeiros, por sua atitude de não intervenção, que permitiu que os bancos fizessem apostas desastrosas no mercado imobiliário.
Greenspan admitiu posteriormente ter ficado “chocado” ao perceber que estava errado em sua suposição de que o interesse próprio dos banqueiros os impediria de tomar medidas que colocassem em risco a sobrevivência de suas próprias instituições.
“Aqueles de nós que confiaram no interesse próprio das instituições de crédito para proteger o patrimônio líquido dos acionistas, inclusive eu, estamos em um estado de incredulidade chocada”, disse ele ao Comitê de Supervisão e Reforma Governamental da Câmara dos Deputados em 2008.
Mas, no que diz respeito a desculpas em Washington, isso ficou muito aquém do que seus críticos mais ferrenhos esperavam.
Alguns economistas também consideraram que o chair, que nunca escondeu ser republicano, prejudicou sua independência política ao apoiar os cortes de impostos propostos pelo presidente George W. Bush em 2001, embora também tenha trabalhado em estreita colaboração com o presidente democrata Bill Clinton.
Segundo presidente do Fed com mais tempo de mandato, atrás apenas de William McChesney Martin, Greenspan foi nomeado pela primeira vez pelo presidente Ronald Reagan em 1987 e posteriormente renomeado pelos presidentes George H.W. Bush, Bill Clinton e George W. Bush.
Ele tinha 80 anos quando deixou o Fed em 2006, mas seguiu tranquilamente para uma nova carreira como consultor e assessor em sua própria empresa, a Greenspan Associates, oferecendo análises sobre os rumos que, em sua opinião, a economia estava tomando, em troca de honorários elevados.
BOOM DOS ANOS 90
No Fed, Greenspan deu continuidade aos sucessos de seu antecessor, Paul Volcker, que erradicou a inflação galopante do final da década de 1970 e início da década de 1980. De fato, em seus últimos anos no banco central, Greenspan passou mais tempo preocupado com os riscos de uma deflação se instalar do que com o ressurgimento da inflação elevada.
A expansão de dez anos na década de 1990 foi impulsionada, em parte, por uma enorme alta no mercado de ações que Greenspan sugeriu, em 1996, que poderia refletir uma “exuberância irracional”. Mais tarde, ele se distanciou desse comentário, afirmando que não cabia a ele questionar as decisões dos investidores.
Greenspan era frequentemente considerado como a segunda pessoa mais poderosa do país depois do presidente, devido à capacidade do banco central de influenciar a economia por meio de alterações na taxa de juros de curto prazo.
Pensativo, sério e calado, ele expunha suas opiniões em depoimentos e discursos enigmáticos que eram analisados incessantemente pelos especialistas. Certa vez, ele alertou um grupo de economistas que passava grande parte do tempo preocupado em ser claro demais.
“O que aprendi no Fed foi uma nova linguagem chamada ‘linguagem do Fed’. Aprendemos a murmurar com grande incoerência”, disse ele.
Ele conseguia falar de maneira tão indireta que sua esposa, Andrea Mitchell, disse que “simplesmente não entendeu” nas primeiras vezes em que ele a pediu em casamento. O casal namorou por 12 anos antes de se casar, em abril de 1997. Era o segundo casamento para ambos.
Greenspan disse que pensava melhor na banheira, entregando-se a banhos que às vezes duravam duas horas, enquanto lia relatórios e redigia discursos e depoimentos públicos.
MÚSICA VEIO PRIMEIRO
Nascido na cidade de Nova York em 6 de março de 1926, Greenspan era filho único de Rose e Herbert Greenspan. Seus pais se divorciaram quando ele era jovem e ele foi criado em um pequeno apartamento no bairro de Washington Heights, em Nova York, com sua mãe e seus avós.
O primeiro amor de Greenspan foi a música, e ele passou dois anos na Juilliard School, em Nova York, estudando clarinete. Ele fez uma breve turnê com uma banda de swing como saxofonista antes de se dedicar aos estudos de economia na Universidade de Nova York.
Na juventude, Greenspan foi amigo e colaborador da romancista Ayn Rand, que defendia a supremacia do livre mercado e a busca pelo lucro em livros como “A Revolta de Atlas” e “A Nascente”.
Antes de sua passagem pelo Fed, ele presidiu o Conselho de Assessores Econômicos do presidente Gerald Ford na década de 1970. Ele também dirigiu por anos uma empresa de consultoria econômica chamada Townsend-Greenspan and Co.
Quando Greenspan sucedeu Volcker, alguns temiam que ele não estivesse à altura de seu antecessor, um homem de temperamento forte e fumante de charutos.
Mas Greenspan logo provou seu valor ao injetar liquidez nos mercados financeiros para acalmar a quebra da bolsa de outubro de 1987. Sua ação rápida, hoje considerada um exemplo clássico de como lidar com tais crises, foi considerada o principal motivo para ter sido evitada uma recessão.
(Reportagem de Shivani Tanna, Devika Nair, Howard Schneider e Jonathan Spicer)
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