COMO A INDÚSTRIA CRIA REGRAS PARA ADOTAR MÚSICA GERADA POR IA
GRAVADORAS E ENTIDADES PROPÕEM SELOS PARA IDENTIFICAR AS FAIXAS E NOVOS CRITÉRIOS PARA A PARTICIPAÇÃO NAS PARADAS MUSICAIS
João Carlos
11/08/2026
A inteligência artificial na música entrou em cena cercada por imitações de vozes, dúvidas sobre direitos autorais e disputas envolvendo o uso de gravações sem autorização. Agora, porém, a indústria começa a mudar o tom. Em vez de tentar manter a tecnologia do lado de fora, gravadoras e entidades internacionais estão criando regras para definir como ela poderá participar oficialmente do mercado.
Uma análise publicada pela Billboard compara duas iniciativas recentes. A primeira pretende informar ao público quanto de inteligência artificial existe em uma gravação. A segunda procura decidir quais músicas geradas por IA poderão aparecer nas principais paradas musicais.
A ideia central é permitir o uso da tecnologia como ferramenta sem colocar no mesmo pacote uma música criada principalmente por pessoas e uma produção praticamente inteira feita por uma máquina.
Dois selos para explicar quem fez a música
O primeiro projeto propõe dois selos para as plataformas digitais. O rótulo “AI-Generated” seria utilizado quando a inteligência artificial produzir toda ou a principal parte dos elementos criativos da gravação, como a voz principal, um instrumento fundamental ou a própria música a partir de comandos de texto.
Já o selo “AI-Assisted” identificaria uma gravação feita principalmente por pessoas, mas com o auxílio da tecnologia em alguns elementos. Nesse caso, os vocais principais e os instrumentos centrais continuariam sendo executados por humanos. A iniciativa reúne entidades como IFPI, RIAA, Recording Academy, SAG-AFTRA e associações de gravadoras independentes.
Em sua fase inicial, o sistema olha especificamente para a gravação sonora. Letras, composições, videoclipes e capas de álbuns ainda não estão incluídos nessa classificação.
Paradas musicais com filtro humano
A outra proposta envolve Universal Music Group, Sony Music, Warner Music Group e diversas gravadoras independentes. O objetivo é estabelecer condições para que uma música produzida com IA generativa possa aparecer em rankings oficiais.
Pelos critérios apresentados, a ferramenta utilizada precisa ser autorizada e legal, a faixa deve ser substancialmente feita por humanos, os direitos autorais e de personalidade devem ser respeitados e não pode haver suspeita de manipulação de reproduções. O uso da inteligência artificial também deverá ser informado ao público.
A IFPI já começou a aplicar esses princípios nas paradas que administra em mercados da América Latina, África, Oriente Médio e Sudeste Asiático. A entidade também trabalha para levar o modelo a mais de 20 outros programas nacionais de rankings.
A pressa em organizar esse novo território tem uma explicação. Em junho, a Deezer recebeu uma média de 90 mil faixas totalmente geradas por IA por dia. Nos períodos de maior movimento, elas representaram mais da metade das novas músicas enviadas à plataforma.
Da disputa aos acordos comerciais
A aproximação também já aparece nos negócios. A Universal firmou um acordo com a Udio para desenvolver uma plataforma baseada em músicas autorizadas e licenciadas. A Warner, por sua vez, anunciou parcerias com Udio e Suno para criar novos serviços e modelos de remuneração envolvendo inteligência artificial.
Na prática, o movimento procura separar serviços licenciados, que remuneram e protegem os criadores, de ferramentas que utilizam gravações, vozes ou identidades artísticas sem consentimento.
A principal dúvida continua aberta: como medir se uma música é realmente “substancialmente humana”? Os novos princípios apresentam o critério, mas ainda não estabelecem uma porcentagem ou fórmula capaz de resolver todos os casos.
Aparentemente, estamos no meio do caminho. O que há pouco tempo era visto principalmente como uma ameaça começa, aos poucos, a ser incorporado pela própria indústria. Quanto às inúmeras questões que permanecem sem resposta, somente o avanço da tecnologia e as decisões tomadas nos próximos anos poderão mostrar quais serão as soluções.
Longe de entregar um cheque em branco à inteligência artificial, a indústria começa a abrir a porta, mas com regras de entrada e uma pergunta que ainda paira sobre esse novo cenário: quanto de criação humana uma música precisa preservar para continuar sendo reconhecida como obra de um artista?


