COMO PETER GABRIEL E KATE BUSH CRIARAM UM HINO DE ESPERANÇA
HÁ 40 ANOS, "DON'T GIVE UP" CONSOLIDAVA UMA PARCERIA INICIADA ANOS ANTES
João Carlos
28/07/2026
Poucas canções transformaram o gesto de permanecer ao lado de alguém em uma imagem tão poderosa. Duas vozes, um abraço e a promessa de que ainda existe um caminho possível. Em 2026, “Don’t Give Up”, de Peter Gabriel e Kate Bush, completa quatro décadas como um dos grandes hinos de apoio e superação da música.

Créditos da imagem: Amazon UK
A faixa foi apresentada originalmente em “So”, álbum lançado por Gabriel em 19 de maio de 1986. Poucos meses depois, em 27 de outubro, chegou ao mercado como single. No entanto, o encontro que tornou a gravação inesquecível vinha sendo construído havia anos.
Uma parceria construída desde 1979
A aproximação profissional entre os dois artistas começou em maio de 1979, durante um concerto beneficente realizado em memória do diretor de iluminação Bill Duffield. Na apresentação, Kate Bush dividiu o palco com Peter Gabriel em “I Don’t Remember”, música que ele ainda não havia lançado oficialmente.
O primeiro grande registro televisivo da dupla viria no fim daquele mesmo ano. No especial de Kate Bush exibido pela BBC em 28 de dezembro de 1979, os dois interpretaram “Another Day”, composição de Roy Harper. A performance já revelava uma afinidade rara: Gabriel assumia um tom contido e melancólico, enquanto Kate acrescentava intensidade teatral ao diálogo.
Em 1980, Gabriel convidou a cantora para participar de seu terceiro álbum solo. Kate gravou vocais de apoio em “Games Without Frontiers” e “No Self Control”, contribuindo para a atmosfera experimental do disco. O próprio Gabriel recordaria mais tarde que já admirava a voz e o trabalho autoral de Kate desde o sucesso de “Wuthering Heights”.
A convivência também favoreceu uma troca criativa. Durante aquelas sessões, Kate entrou em contato com o Fairlight CMI, equipamento digital que se tornaria importante para as experiências sonoras desenvolvidas por ela nos anos seguintes. Assim, a relação entre os dois nunca se limitou a participações vocais: envolvia curiosidade, tecnologia e uma vontade compartilhada de expandir os limites da música pop.
Quando as vozes viraram personagens
Peter Gabriel escreveu “Don’t Give Up” em meio ao cenário de desemprego e insegurança econômica vivido pelo Reino Unido durante o governo de Margaret Thatcher. A composição também foi inspirada por fotografias de Dorothea Lange sobre os efeitos da Grande Depressão nos Estados Unidos.
Por causa dessa influência norte-americana, Gabriel pensou inicialmente em convidar Dolly Parton para a gravação. A cantora country recusou, e Kate Bush acabou assumindo o papel feminino. Anos depois, Gabriel afirmou que a interpretação dela foi responsável por grande parte da força emocional alcançada pela música.
Na faixa, Gabriel interpreta alguém desgastado pela perda do trabalho, da segurança e da própria confiança. Kate surge como a voz que permanece, acolhe e oferece uma saída. Mais do que um dueto romântico, a canção funciona como uma conversa entre o desespero e a solidariedade.
O abraço que ficou
O videoclipe dirigido por Godley & Creme transformou essa conversa em uma imagem definitiva. Peter Gabriel e Kate Bush aparecem abraçados diante de um eclipse, em uma encenação minimalista que acompanha praticamente toda a música. Sem uma narrativa complicada, o vídeo concentra sua força justamente no gesto de não soltar o outro.
A canção chegou ao nono lugar da parada britânica e permaneceu por 11 semanas no ranking oficial. Mais importante do que os números, porém, foi a maneira como “Don’t Give Up” atravessou gerações, sendo redescoberta sempre que tempos difíceis exigem novas doses de coragem.
Quarenta anos depois, o clássico continua mostrando que a esperança nem sempre aparece em grandes discursos. Às vezes, ela chega por meio de uma voz conhecida, de um abraço silencioso ou de alguém disposto a permanecer ao nosso lado.


