David reitera desconforto do BC com expectativas de inflação para 2028 e diz que 'tudo pode ser feito' para buscar meta
David reitera desconforto do BC com expectativas de inflação para 2028 e diz que 'tudo pode ser feito' para buscar meta
Reuters
28/05/2026
Atualizada em 28/05/2026
Por Fabricio de Castro
SÃO PAULO, 28 Mai (Reuters) - O diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, reiterou nesta quinta-feira o desconforto da autoridade monetária com a elevação das expectativas de inflação para 2028 no Brasil, acrescentando que a instituição tem a obrigação de perseguir o cumprimento da meta inflacionária, e assim o fará.
'Hoje temos uma perturbação relevante', comentou David, em referência ao conflito no Oriente Médio, durante palestra em evento organizado pelo Banco Pine, em São Paulo. 'O BC está atento a isso, não vai permitir que isso se transforme em inflação além do horizonte relevante', acrescentou.
O centro da meta de inflação perseguida pelo BC é de 3%, com margem de tolerância de 1,5 ponto percentual, o que implica uma taxa máxima de 4,5%. Desde o início da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã, no fim de fevereiro, as expectativas de inflação têm subido no Brasil, na esteira da disparada dos preços internacionais do petróleo.
Nas últimas semanas, dirigentes do BC vêm destacando o desconforto com o fato de as projeções para 2028, em especial, estarem se distanciando do centro da meta. No boletim Focus mais recente, a mediana das projeções dos economistas para a inflação em 2028 estava em 3,65% -- antes do início da guerra a taxa era de 3,50%.
'Houve deslocamento de 15 pontos-base da expectativa de inflação de 2028, mas é algo que salta aos olhos', pontuou David nesta quinta-feira. Ele acrescentou que o BC buscará o cumprimento da meta e disse que, no caso de 2028, 'tudo pode ser feito'.
O foco do BC em 2028 está ligado à defasagem da política monetária. Isso significa, na prática, que ao alterar a taxa básica Selic, hoje em 14,50% ao ano, os efeitos sobre a inflação são percebidos apenas meses à frente.
'Não há nada muito que possa ser feito em termos de política monetária para a inflação de 2026. Para a inflação de 2027, já está no meu horizonte. De 2028, mais ainda', pontuou David em outro momento.
O diretor reforçou ainda que a intenção do BC no fim do atual ciclo de cortes da Selic é manter a taxa em um nível contracionista, 'em tempo suficiente para que a inflação migre para a meta'.
'A diferença de 'calibração' para 'afrouxamento' é que o objetivo do BC não é chegar no juro neutro', disse. O juro neutro é a taxa com a qual o BC não estimula nem freia a atividade econômica.
Em sua fala, David também afirmou que atualmente é 'bastante difícil' avaliar qual será o juro neutro da economia em função dos vários eventos extraordinários na economia.
Em suas comunicações mais recentes, o BC tem tratado os cortes da Selic como um processo de 'calibração' da taxa. Conforme David, o fato de o BC estar cortando a Selic não significa que ele esteja sendo 'dove' (tolerante com a inflação) na política monetária.
No mercado, a expectativa é de que o BC promova mais um corte de 25 pontos-base da Selic em junho, mas há dúvidas sobre o espaço para novas reduções depois disso, justamente por conta do descolamento das expectativas de inflação da meta, em meio à continuidade da guerra no Oriente Médio.
MERCADO DE CÂMBIO
Durante o evento do Pine, David afirmou ainda que o real se comportou de forma atípica nos últimos 12 meses, quase como um 'unicórnio' -- ou seja, uma exceção -- em eventos de pressão sobre as moedas globais, tendo se apreciado com baixa volatilidade em meio ao tarifaço dos EUA e da guerra no Oriente Médio.
Neste aspecto, David reforçou que o BC não tem objetivos de preço nem de volatilidade no mercado de câmbio.
'É desejável que a volatilidade dos ativos seja contida. Quanto maior volatilidade, maior o prêmio de risco', afirmou. 'Mas o BC não vai atuar para conter nem preço, nem volatilidade.'
(Edição de Isabel Versiani)
Reuters

