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Fome diminui em todos os continentes, mas ONU alerta para riscos climáticos e comerciais

Fome diminui em todos os continentes, mas ONU alerta para riscos climáticos e comerciais

Reuters

21/07/2026

Placeholder - loading - Refugiada sudanesa de al-Fashir recebe refeição gratuita no campo de trânsito de Tine, no Chade, em meio a confrontos entre paramilitares e o exército do Sudão 23 de novembro de 2025 REUTERS/Amr Abdal
Refugiada sudanesa de al-Fashir recebe refeição gratuita no campo de trânsito de Tine, no Chade, em meio a confrontos entre paramilitares e o exército do Sudão 23 de novembro de 2025 REUTERS/Amr Abdal

Por Giselda Vagnoni e Oriana Boselli

ROMA, 21 Jul (Reuters) - A fome diminuiu ​no mundo pelo terceiro ano consecutivo em 2025, com melhorias registradas em todos os continentes, embora os riscos crescentes decorrentes de choques climáticos e perturbações no comércio possam ameaçar novos avanços, disse um relatório das Nações Unidas.

Cerca de 645 milhões de pessoas, ou 7,8% da população mundial, passaram fome no ano passado, uma queda em relação aos 8,1% registrados em 2024 e aos 8,6% de 2022. Os dados são do relatório “Estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo”, elaborado em conjunto por cinco agências da ONU.

O progresso foi impulsionado em grande parte pelos avanços na Ásia, particularmente na Índia, bem como na América Latina e no Caribe. Alguns países africanos também começaram a reverter anos de deterioração, embora o continente tivesse a maior população subnutrida do mundo em 2025, com 309 milhões de pessoas afetadas, ou seja, um em cada ⁠cinco africanos.

A fome global ⁠deve continuar diminuindo até 2030, segundo os especialistas da ​ONU.

“A grande ‌diferença em relação aos anos anteriores é que, neste ano, a taxa de fome diminuiu em todos os continentes, incluindo a África, embora de forma muito, muito leve”, disse Máximo Torero, economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em entrevista à Reuters.

Torero afirmou que a tendência oferece motivos para otimismo, mas alertou que as tensões geopolíticas e as ⁠perturbações climáticas representam ameaças significativas aos sistemas alimentares globais.

Entre as preocupações mais imediatas estão os problemas com ​o transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz, uma rota fundamental para o transporte de energia e insumos agrícolas. A interrupção está ​elevando os preços dos combustíveis, dos fertilizantes e do transporte, aumentando os custos ‌de produção de alimentos em todo ​o mundo.

Um ⁠fenômeno climático El Niño potencialmente forte poderia exercer ainda mais pressão, prejudicando a produção agrícola em regiões vulneráveis.

“Esperamos que a tendência não mude, mas há vários riscos que nos afetam neste momento”, disse Torero.

ÍNDIA IMPULSIONA MELHORIA NA ÁSIA

Grande parte da melhora na Ásia concentrou-se na Índia, onde vive ​quase um quinto da população mundial e onde a fome caiu para menos de 10%, graças a uma combinação de programas de assistência social direcionados e ao aumento da produtividade agrícola.

Vários países africanos -- incluindo Etiópia, Tanzânia, Zimbábue, Senegal e Zâmbia -- também mostraram sinais de progresso, enquanto a República Dominicana não é mais classificada no mapa global da fome.

Torero disse que a guerra em Gaza não alterou significativamente os números ​globais da fome, pois o relatório acompanha a desnutrição crônica e de longo prazo, e não a insegurança alimentar aguda causada por conflitos ou desastres.

As entregas de alimentos em Gaza aumentaram recentemente, ajudando a estabilizar as condições, mas a reconstrução do setor agrícola devastado do território levará anos, acrescentou.

“Nosso trabalho é ajudar a restabelecer a produção agrícola, pois uma parte significativa da infraestrutura agrícola foi destruída”, disse Torero.

ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL AINDA FORA DE ALCANCE

Apesar do progresso no combate à fome, a desnutrição infantil continua persistentemente alta e a anemia entre as mulheres está se agravando, segundo o relatório, que destaca que a obesidade entre adultos também tem aumentado de forma constante.

O acesso a alimentos nutritivos continua ​sendo um grande desafio.

O relatório estima que 2,69 bilhões de pessoas não têm condições financeiras para manter uma alimentação saudável, cujo custo médio seria ‌de US$4,28 por dia em termos de paridade de poder ⁠de compra.

A disparidade de acessibilidade foi particularmente acentuada na África, onde 66,1% das pessoas não tinham condições de arcar com uma alimentação saudável -- mais do que o dobro dos níveis registrados na Ásia e na América Latina.

Torero afirmou que a África enfrenta desafios específicos, ⁠pois a infraestrutura precária, as instalações limitadas de armazenamento refrigerado e as redes de transporte ⁠deficientes elevam o custo de alimentos altamente perecíveis, como frutas, vegetais, ⁠leite e carne.

O continente também ⁠é ​prejudicado por regulamentações fragmentadas e barreiras não tarifárias que restringem o comércio de alimentos entre países vizinhos, acrescentou.

(Reportagem de Giselda Vagnoni e Oriana Boselli)

Reuters

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