Lula diz que proibiu assessor do governo Trump de vir ao Brasil e visto é revogado
Lula diz que proibiu assessor do governo Trump de vir ao Brasil e visto é revogado
Reuters
13/03/2026
Atualizada em 13/03/2026
Por Rodrigo Viga Gaier e Lisandra Paraguassu
RIO DE JANEIRO/BRASÍLIA, 13 Mar (Reuters) - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta sexta-feira que proibiu a vinda ao Brasil do assessor do Departamento de Estado dos Estados Unidos Darren Beattie, um dos expoentes da extrema-direita norte-americana, que pretendia visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro na prisão.
Após a declaração de Lula, feita durante discurso em evento no Rio de Janeiro, o Itamaraty confirmou a revogação do visto de Beattie. Anteriormente, uma fonte ligada à política externa do governo brasileiro havia dito à Reuters que o visto seria cancelado.
'O Itamaraty confirma a revogação do visto, tendo em conta a omissão e falseamento de informações relevantes quanto ao motivo da visita por ocasião da solicitação do visto, em Washington. Trata-se de princípio legal suficiente para a denegação de visto, de acordo com a legislação nacional e internacional', disse o Itamaraty, em resposta a um questionamento da Reuters.
Durante o evento no Rio de Janeiro nesta sexta-feira, Lula afirmou que a proibição da entrada do representante do governo norte-americano valerá até que os EUA desbloqueiem o visto de entrada nos Estados Unidos do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e da família dele.
'Aquele cara americano que disse que vinha para cá visitar o Jair Bolsonaro foi proibido de visitar, e eu o proibi de vir ao Brasil enquanto não liberar o visto do meu ministro da Saúde que está bloqueado', disse Lula, ao lado de Padilha, ao participar da inauguração de uma ala hospitalar.
Em agosto do ano passado, o governo do presidente dos EUA, Donald Trump, revogou o visto de Padilha, de sua esposa e de sua filha menor de idade, entre outros, alegando cumplicidade com o trabalho forçado do governo cubano por meio do programa Mais Médicos do Brasil.
OBRIGAÇÃO LEGAL
Ao pedir o visto, Beattie alegou que teria encontros oficiais com autoridades brasileiras, mas o governo norte-americano só pediu encontros com o governo brasileiro no dia 11 de março, após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes questioná-lo sobre sua agenda completa no país. Moraes é relator da execução penal envolvendo o ex-presidente, que cumpre pena por tentativa de golpe de Estado e outros crimes relacionados em uma sala de Estado-Maior do Batalhão da Polícia Militar no Complexo Penitenciário da Papuda.
O assessor chegaria ao Brasil no início da próxima semana e pretendia visitar o ex-presidente na prisão, mas o pedido para se reunir com o ex-mandatário foi rejeitado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, na quinta-feira.
A decisão levou em consideração ofício do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, apontando que a visita poderia configurar interferência de outro país em assuntos internos do Brasil, especialmente em ano eleitoral.
O assessor do governo Trump também tinha em sua agenda reuniões com representantes da oposição brasileira, entre eles o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho mais velho do ex-presidente, e também participaria em São Paulo de um evento sobre minerais críticos promovido pela embaixada dos EUA no Brasil.
Beattie foi nomeado há duas semanas para um cargo graduado do Departamento de Estado norte-americano encarregado de supervisionar assuntos relacionados ao Brasil, conforme revelou a Reuters. Ele é bastante próximo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, também filho do ex-presidente, e do ativista de extrema-direita Paulo Figueiredo, sendo o principal contato de ambos dentro do governo dos EUA.
Uma outra fonte relatou anteriormente à Reuters que as informações que haviam chegado ao governo brasileiro eram de que a agenda de Beattie se concentraria em encontros com a extrema-direita, e não haveria interesse em reuniões com o governo brasileiro.
A revogação do visto ocorre em um momento em que o Brasil vê uma melhoria na relação com os EUA pela abertura de diálogo entre Lula e Trump, ao mesmo tempo em que a agenda de Beattie no país incomodou o governo brasileiro.
O Brasil considera que há grupos divergentes dentro do governo Trump que, mesmo com a aproximação entre os dois presidentes, trabalham para minar as negociações entre os países, de olho nas eleições presidenciais deste ano no Brasil.
(Reportagem de Rodrigo Viga Gaier, no Rio de Janeiro, Lisandra Paraguassu, em Brasília, e André Romani, em São Paulo; Texto de Eduardo Simões;Edição de Pedro Fonseca)
Reuters

