MARCAS SOFISTICADAS MUDAM ESTRATÉGIA PARA CONQUISTAR CONSUMIDORES MAIS EXIGENTES
Relatório da Deloitte mostra como o setor está trocando a busca por volume por experiências, relacionamento e novas formas de criar valor
Bruna Valle
06/10/2026
O mercado de produtos sofisticados está passando por uma mudança de ritmo. Depois de um período de forte expansão, as marcas entram em uma etapa em que crescer não significa necessariamente vender mais para mais pessoas.
A estratégia agora está cada vez mais ligada à capacidade de oferecer algo que o consumidor considere realmente valioso: uma experiência diferenciada, atendimento personalizado, produtos com significado e uma relação mais próxima com a marca.
Esse cenário aparece no relatório Global Powers of Luxury 2026, da Deloitte, elaborado a partir das respostas de 420 executivos de dez países. A pesquisa aponta uma fase de estabilização e maior seletividade, mas também identifica novas oportunidades de crescimento para o setor.
O valor passa a pesar mais do que o volume
Um dos principais movimentos identificados pela Deloitte é a mudança na forma de pensar crescimento.
Em vez de apostar simplesmente na expansão do número de lojas ou produtos, as empresas estão concentrando esforços em aumentar a desejabilidade das marcas, aperfeiçoar a operação e fortalecer a relação com os clientes.
Os sinais são positivos: 66,9% dos executivos entrevistados esperam receitas estáveis ou maiores em 2026, enquanto 70,7% acreditam que as margens de lucro serão mantidas ou melhoradas.
A experiência do cliente aparece como uma das principais oportunidades. Para 28,6% dos participantes, melhorar essa relação e aumentar a fidelização são os caminhos mais promissores para o crescimento.

Marcas combinam exclusividade com experiências e uma relação mais próxima com os consumidores
Inteligência artificial deixa de ser apenas uma aposta
A tecnologia também está mudando a estratégia do setor.
Segundo o levantamento, 41,2% das empresas já implementaram inteligência artificial generativa em algumas áreas, enquanto 11,9% incorporaram a tecnologia a funções centrais.
A expectativa é que esse movimento avance rapidamente. Para os próximos cinco anos, a inteligência artificial foi apontada por 31,7% dos executivos como a força com maior potencial de transformação no mercado.
A tecnologia pode ser utilizada para entender melhor os consumidores, personalizar experiências, apoiar equipes criativas e tornar a comunicação mais precisa. A ideia, segundo a própria Deloitte, é combinar essas ferramentas com criatividade humana, conhecimento artesanal e identidade cultural.
Novos mercados ganham importância
A geografia do consumo também está mudando.
China, Japão, Oriente Médio e Índia aparecem entre os principais motores de crescimento identificados pela pesquisa. Esses mercados reúnem diferentes fatores favoráveis, como aumento do número de consumidores com maior poder de compra, turismo e investimentos no varejo.
A expansão não acontece apenas por meio da venda de produtos. Viagens e hospitalidade aparecem como a categoria com maior potencial de crescimento na avaliação dos executivos, mostrando que a ideia de exclusividade está cada vez mais ligada a experiências.
É uma mudança importante: momentos, serviços e acesso personalizado passam a disputar espaço com os produtos tradicionais na construção do desejo do consumidor.
Sustentabilidade também vira oportunidade de inovação
Outro movimento apontado pela Deloitte é o avanço de modelos que prolongam a vida dos produtos.
Reparos, restauração, programas de troca e mercados de peças usadas estão deixando de ser iniciativas periféricas e passando a fazer parte da estratégia das empresas. O relatório mostra que 68,3% das companhias pesquisadas oferecem serviços de reparo ou restauração, enquanto 53,8% trabalham com programas certificados de produtos usados ou troca.
A sustentabilidade também começa a ser tratada como uma área de inovação. Novos materiais, rastreabilidade e formas de acompanhar todo o ciclo de vida dos produtos aparecem entre as prioridades das empresas.
Isso cria uma combinação interessante: preservar características associadas à exclusividade enquanto se desenvolvem novas maneiras de produzir, vender, reutilizar e manter os produtos dentro do mercado.
Uma nova definição de exclusividade
O cenário apontado pela Deloitte sugere que o futuro do setor não depende apenas de aumentar o número de consumidores.
As marcas passam a buscar relações mais duradouras, experiências que façam sentido e maneiras de usar tecnologia sem perder aquilo que as torna reconhecíveis.
Nesse processo, exclusividade pode significar menos quantidade e mais conexão. Inteligência artificial, novos mercados, sustentabilidade e experiências personalizadas entram como ferramentas para construir esse relacionamento.
O mercado, portanto, não está simplesmente ficando mais restrito. Está aprendendo a criar valor de uma maneira diferente: baseada em experiência, significado e proximidade com quem está do outro lado.


