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No oeste dos EUA, seca coloca fazendas contra cidades e indústria na disputa pela água

No oeste dos EUA, seca coloca fazendas contra cidades e indústria na disputa pela água

Reuters

15/07/2026

Placeholder - loading - Campo de alfafa afetado pela falta de água, em Casa Grande, Arizona, EUA, em 10 de julho de 2026. REUTERS/Rebecca Noble
Campo de alfafa afetado pela falta de água, em Casa Grande, Arizona, EUA, em 10 de julho de 2026. REUTERS/Rebecca Noble

Por Rebecca Noble e Andrew Hay

CASA GRANDE, ARIZONA/TAOS, NOVO MÉXICO, 15 Jul (Reuters) - No Arizona, peixes mortos jazem ​no leito seco de um reservatório. Ao norte, uma pequena cidade de Utah pode ficar sem água em poucos meses. E no Colorado, uma pecuarista vendeu um quinto de seu rebanho, já que as lagoas de abastecimento estão vazias.

Essas comunidades estão ligadas pelo sistema do rio Colorado, que abastece cerca de 40 milhões de pessoas em sete Estados do oeste dos EUA e no México, além de irrigar milhões de acres de terras agrícolas. Décadas de seca, agravadas pela menor acumulação de neve do inverno deste ano — um recorde negativo — e pelo mês de março mais quente já registrado, intensificaram a escassez em toda a bacia.

A seca está colocando os agricultores em confronto com os moradores das cidades e subúrbios, bem como com consumidores industriais, incluindo data centers, projetos de energia solar e fábricas de chips. Autoridades federais estão considerando cortes drásticos na água destinada do rio Colorado para o Arizona, Califórnia e Nevada.

Perto de Casa Grande, no centro do Arizona, a agricultora Nancy Caywood precisa pagar uma taxa anual de US$21.000 ao distrito hídrico local, mesmo que a água do rio tenha se esgotado em março.

Sua fazenda de alfafa e algodão, com aproximadamente 250 acres (100 hectares), depende inteiramente da irrigação do Reservatório de San Carlos, no rio Gila, um afluente do rio ⁠Colorado. Em um ano com neve catastroficamente ⁠escassa, a demanda dos agricultores e das cidades esvaziou o reservatório até 1% ​de sua capacidade, ‌deixando garças e pelicanos se banqueteando com robalos e carpas espalhados por seu leito ressecado.

“Nós resistimos por quase 30 anos”, disse Caywood, que arrendou os campos de um vizinho com acesso à água do aquífero. “Há pessoas que vêm até você e perguntam: ‘Você gostaria de vender sua terra para instalar painéis solares nela?’”.

FAZENDAS E SUBÚRBIOS

Jace Miller, outro agricultor do condado de Pinal, é a quinta geração de sua família a cultivar a terra há mais de 107 anos e espera trazer seu filho para o negócio, mesmo que mais da metade de seus campos estejam em pousio devido à ⁠seca.

Como muitos agricultores da região, ele perdeu grande parte do acesso à água do rio Colorado em 2022, quando os usuários municipais passaram a ter ​prioridade sobre os recursos cada vez mais escassos.

Empresas imobiliárias e de energia solar estão comprando as terras agrícolas que ele arrenda ao sul de Phoenix.

Ele instou o Arizona a impor uma ​moratória ao crescimento residencial, argumentando que os agricultores são essenciais para a segurança alimentar do país. Miller pediu soluções criativas ‌que vão além da exploração de aquíferos, como dutos ​de ⁠água que atravessem o país, semelhantes aos usados para o petróleo.

“Não dá para ficar tirando água da agricultura o tempo todo”, disse ele.

Mas Michelle Ugenti-Rita, candidata à Câmara Municipal de Scottsdale, um rico subúrbio de Phoenix, disse que a água historicamente destinada à agricultura poderia suprir as necessidades hídricas da cidade.

Com 70% de sua água proveniente do rio Colorado, Scottsdale, uma cidade com cerca de 250 mil habitantes, está se esforçando para encontrar novas ​fontes. Ugenti-Rita disse, em entrevista por telefone, que a compra de direitos sobre águas subterrâneas de agricultores e de outras cidades estava entre as possíveis soluções.

“A comunidade agrícola é uma grande consumidora da nossa água. É para lá que ela deveria ir?”, questionou Ugenti-Rita, ex-senadora estadual republicana.

O cientista Brad Udall, da Universidade Estadual do Colorado, disse que as enormes reservas de água subterrânea do Arizona, localizadas sob o deserto, são únicas no mundo e permitiram que a população do Estado dobrasse ao longo de quatro décadas. Mas ele afirmou que esse recurso não é renovável e não se deve depender dele.

“Nós meio que criamos esse monstro que ​você precisa continuar alimentando”, disse ele sobre as necessidades hídricas do Arizona.

NA NASCENTE

O Departamento de Recuperação dos EUA está considerando adotar grande parte de uma proposta apresentada pelo Arizona, pela Califórnia e por Nevada -- conhecidos como os Estados da Bacia Inferior -- para reduzir o uso do rio Colorado em cerca de 21% ao ano até 2028, a fim de manter os níveis críticos dos reservatórios.

A proposta acirrou uma disputa de longa data sobre como dividir os caudais cada vez menores do rio entre esses Estados a jusante e os Estados da Bacia Superior -- Colorado, Novo México, Utah e Wyoming --, onde se encontram as nascentes do rio nas Montanhas Rochosas. Os sete Estados podem acabar indo para a Justiça.

A pecuarista do Colorado Robbie LeValley cultivou apenas um quarto de sua safra normal de feno depois que a água de irrigação proveniente do derretimento da neve se esgotou dois meses antes do previsto. Os preços do feno triplicaram em sua região de Western Slope, logo a leste de uma das maiores áreas de seca do país classificada como “excepcional”, ​o pior nível.

LeValley, cuja família do marido mantém uma fazenda perto de Hotchkiss, no Colorado, desde 1910, enfrentou problemas semelhantes em 2010 e 2012.

Ela rejeitou as sugestões de que a agricultura seja a culpada pelos problemas hídricos ‌do rio Colorado. “Nós trazemos benefícios. Não somos o problema”, disse LeValley.

Em Emery, Utah, a ⁠306 km a oeste da fazenda de LeValley, o Muddy Creek -- que alimenta o rio Colorado em anos bons -- é a única fonte de água potável para os 330 moradores da cidade. Ele está fluindo a 6% do volume normal após uma acumulação de neve extremamente baixa em suas nascentes nas Montanhas Wasatch.

A rega externa está proibida, e os moradores usam água do banho e da lavagem de ⁠louça para manter árvores e jardins vivos.

A cidade dispõe de água em reservatórios que deve durar de seis a nove meses, disse o ⁠prefeito Jack Funk, de 61 anos, que está testando poços antigos e nascentes para possível uso. Depois ⁠disso, será necessário começar a trazer água ⁠por ​caminhão, a menos que sejam encontradas alternativas ou que chova.

“Todo mundo achava que nunca ficaríamos sem água em Emery, porque não somos uma cidade muito grande, mas aqui estamos”, disse Funk.

(Reportagem de Andrew Hay no Novo México)

Reuters

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