O DIA EM QUE A CHRYSLER COLOCOU UM TOCA-DISCOS DENTRO DOS CARROS
HÁ 70 ANOS, SISTEMA HIGHWAY HI-FI LEVOU OS DISCOS AO PAINEL DO AUTOMÓVEL E ANTECIPOU UMA NOVA FORMA DE OUVIR MÚSICA AO VOLANTE
João Carlos
15/09/2026
Imagine entrar no carro, escolher um disco e colocar a agulha para tocar enquanto dirige. Setenta anos antes do streaming dominar os sistemas multimídia dos automóveis, a Chrysler oferecia uma experiência parecida, mas inteiramente analógica.
Em 1956, modelos das marcas Chrysler, Dodge, DeSoto e Plymouth passaram a oferecer como opcional o Highway Hi-Fi, o primeiro toca-discos desenvolvido comercialmente para automóveis.

Crédito da imagem: Getty
Criado pela CBS Laboratories, o sistema foi desenvolvido sob a liderança do engenheiro Peter Goldmark, também conhecido por seu papel no desenvolvimento do LP moderno.
Como funcionava um toca-discos dentro do carro?
O desafio parecia óbvio: como impedir que a agulha pulasse enquanto o automóvel estivesse em movimento?
O aparelho ficava instalado em uma estrutura sob o painel e reproduzia o som através do amplificador e do alto-falante do próprio rádio do carro. O motorista podia alternar entre rádio e discos por meio de um controle.
Mas não era possível simplesmente levar os discos de casa.
Para fazer o sistema funcionar, a CBS-Columbia desenvolveu discos especiais de sete polegadas que giravam a apenas 16⅔ rotações por minuto, metade da velocidade de um LP convencional. A combinação de baixa rotação e microssulcos permitia colocar aproximadamente 45 minutos de música, ou até cerca de uma hora de conteúdo, em cada lado.
O proprietário recebia inicialmente seis discos, e outros títulos podiam ser encomendados.
Era, em essência, uma pequena biblioteca musical dentro do automóvel.
Uma ideia futurista com limitações bem analógicas
A inovação era impressionante para 1956, mas o cotidiano revelou rapidamente seus problemas.
- Discos exclusivos: o Highway Hi-Fi dependia de discos fabricados especialmente para o aparelho. A coleção que o motorista já possuía em casa não podia simplesmente ser levada para o carro.
- Catálogo limitado: a seleção da Columbia incluía música clássica, standards, musicais e programas falados, mas oferecia poucas opções diante da enorme variedade disponível nas lojas.
- Preço elevado: o sistema custava perto de US$ 200, um valor considerável para um acessório automotivo na década de 1950.
- Vibrações e funcionamento: apesar das soluções criadas para estabilizar a reprodução, um toca-discos continuava sendo um mecanismo delicado instalado dentro de uma máquina em movimento. Falhas mecânicas e problemas de confiabilidade acabaram gerando custos de garantia.
- Manutenção complicada: oficinas estavam acostumadas a trabalhar com automóveis, não necessariamente com delicados sistemas fonográficos instalados sob o painel.
A consequência apareceu rapidamente nas vendas. Cerca de 3.685 unidades foram vendidas em 1956, contra apenas 675 no ano seguinte.
A experiência pioneira perdeu força.
A Chrysler tentou novamente
O fracasso comercial não matou a ideia de escolher a própria música dentro do automóvel.
Em 1960, a Chrysler voltou ao conceito com outro sistema, desta vez produzido pela RCA Victor.
A diferença era fundamental: o novo aparelho podia reproduzir compactos convencionais de 45 rpm, eliminando a necessidade de comprar discos exclusivos. O sistema funcionava como uma pequena jukebox e permitia carregar vários discos.
Era também muito mais barato: custava cerca de US$ 51,75.
Mesmo assim, a segunda tentativa também teve vida curta.
A solução definitiva para levar música gravada ao automóvel não viria dos discos.
Dos discos ao streaming

Crédito da imagem: Stellantis
Nos anos seguintes, outras tecnologias resolveriam gradualmente os problemas enfrentados pelo Highway Hi-Fi.
- Anos 1960: cartuchos de quatro e oito pistas começaram a oferecer música gravada sem a fragilidade de uma agulha percorrendo um disco.
- Anos 1970 e 1980: a fita cassete transformou-se em companheira das viagens de carro e ainda permitiu ao motorista criar suas próprias seleções musicais.
- Anos 1980 e 1990: o CD levou áudio digital aos painéis e, posteriormente, ganhou disqueteiras capazes de armazenar vários discos.
- Anos 2000: MP3 players, entradas auxiliares e conexões USB começaram a eliminar a necessidade de carregar grandes coleções de mídia física.
- Hoje: Bluetooth, smartphones, streaming e sistemas conectados oferecem acesso praticamente instantâneo a milhões de músicas, álbuns, podcasts e rádios.
A tecnologia mudou radicalmente, mas a ideia central permanece familiar.
Há 70 anos começava uma nova relação entre música e automóvel

Crédito da imagem: Stellantis
O Highway Hi-Fi não conquistou o mercado. Era caro, dependia de discos próprios e enfrentava limitações que hoje parecem quase inevitáveis para um toca-discos instalado dentro de um carro.
Mas sua importância está justamente na ideia que tentou colocar em prática.
Até então, o rádio era a principal forma de entretenimento musical no automóvel e a programação estava nas mãos das emissoras. Com o toca-discos, surgia uma alternativa: o motorista poderia decidir qual álbum ou artista queria ouvir durante a viagem.
O aparelho desapareceu rapidamente. O desejo de escolher a própria trilha sonora ao volante, não.
Setenta anos depois, basta tocar na tela do carro ou pedir uma música por comando de voz. Em 1956, porém, essa liberdade começava com algo muito mais improvável: uma agulha, um pequeno disco de vinil e um toca-discos instalado embaixo do painel.


