POR QUE ALGUNS ARTISTAS DIZEM NÃO AO GRAMMY?
DE SINÉAD O’CONNOR AO BTS, BOICOTES, RECUSAS E CRÍTICAS EXPÕEM DÉCADAS DE DESCONFIANÇA EM TORNO DA PREMIAÇÃO
João Carlos
30/07/2026
Em 1991, Sinéad O’Connor tinha quatro indicações ao Grammy, o sucesso mundial “Nothing Compares 2 U” e um convite para se apresentar durante a cerimônia. Era o roteiro perfeito para uma noite de consagração. A cantora irlandesa, porém, preferiu sair de cena.
Antes da premiação, Sinéad anunciou que não compareceria, não faria a apresentação programada e tampouco aceitaria qualquer troféu. Em uma carta enviada à Recording Academy, criticou o que considerava valores materialistas promovidos pela indústria musical e argumentou que a arte deveria inspirar, revelar verdades e ajudar a sociedade, em vez de servir apenas como medida de sucesso comercial.
A crítica não era direcionada exclusivamente ao Grammy. A cantora explicou que seu alvo era uma indústria que, em sua visão, celebrava números, fama e lucro enquanto ignorava grande parte da função humana e social da música. Ainda assim, foi o principal prêmio do mercado fonográfico que se transformou no palco simbólico de sua recusa.
Sinéad acabou vencendo na categoria dedicada à música alternativa com o álbum I Do Not Want What I Haven’t Got, mas não estava presente para receber o prêmio. Não foi uma reação impulsiva após uma derrota ou uma crítica feita anos depois. Ela rejeitou antecipadamente o ritual, mesmo com quatro indicações e grandes chances de sair vencedora.
O episódio permanece como um dos protestos mais radicais da história das premiações musicais. Trinta e cinco anos depois, a ausência voltou a ser utilizada como forma de questionamento, desta vez por um dos maiores fenômenos da música pop contemporânea.
O novo capítulo envolvendo o BTS

Crédito da imagem: BigHit Music
O BTS anunciou que não enviará músicas para concorrer ao Grammy de 2027. A decisão veio depois da criação da categoria Melhor Performance de Música Pop Asiática, destinada a trabalhos ligados aos mercados asiáticos, como K-pop, J-pop e C-pop, com uso significativo de um ou mais idiomas da região.
Os sete integrantes divulgaram uma mensagem conjunta na qual defenderam que a música seja ouvida e apreciada sem divisões determinadas por território ou idioma. O gesto foi rapidamente interpretado como um protesto contra a possibilidade de artistas asiáticos serem colocados em um espaço separado, mesmo quando possuem alcance mundial.
É claro que há uma diferença entre desistir de uma indicação e ficar voluntariamente fora da disputa. O Grammy não analisa automaticamente todos os discos e singles lançados durante o período de elegibilidade. Os trabalhos precisam ser inscritos por membros da Recording Academy ou por empresas de mídia registradas. Sem essa inscrição, a obra não participa da votação que define os indicados.
A Recording Academy sustenta que a nova categoria pretende ampliar a visibilidade da produção musical asiática, e não impedir esses artistas de concorrerem aos principais prêmios da noite. Segundo a organização, um trabalho inscrito na categoria asiática também pode disputar Álbum do Ano, Canção do Ano ou Gravação do Ano, desde que cumpra os critérios das respectivas áreas.
O desacordo, portanto, está menos no regulamento e mais no significado da divisão. Para a Academia, a categoria abre uma nova vitrine. Para o BTS e parte de seu público, essa mesma vitrine pode funcionar como uma cerca, mantendo artistas asiáticos em um espaço próprio enquanto o chamado mercado central permanece tratado como universal.
O BTS já recebeu cinco indicações e participou de apresentações na cerimônia. A decisão atual representa uma ruptura específica com uma nova classificação, e não uma rejeição ao prêmio.
Quando o rap ganhou, mas não apareceu

Crédito da imagem: Arquivo/Andscape/Getty Images
As discussões sobre categorias e visibilidade acompanham o Grammy há décadas. Em 1989, a premiação criou pela primeira vez uma categoria dedicada ao rap. O avanço, contudo, veio com uma pequena letra nada discreta: o prêmio não seria entregue durante a transmissão televisiva.
DJ Jazzy Jeff & The Fresh Prince, dupla formada por Jeffrey Townes e Will Smith, aderiu ao boicote ao lado de outros indicados. A dupla venceu com “Parents Just Don’t Understand”, mas não estava na cerimônia para receber o primeiro Grammy concedido a uma performance de rap.
O protesto não era contra a existência do prêmio. Os artistas questionavam uma inclusão feita longe das câmeras, em uma parte da cerimônia que não alcançaria o grande público. Em outras palavras, reconhecer o rap sem mostrá-lo parecia um aplauso dado com as cortinas fechadas. No ano seguinte, as categorias do gênero passaram a integrar a transmissão.
Aquele episódio antecipou uma reclamação que voltaria muitas vezes: o Grammy reconhecia a influência cultural de determinados gêneros, mas demorava a tratá-los como protagonistas de sua principal noite.
Eddie Vedder e o prêmio que parecia não significar muito

Créditos da imagem: Reprodução/Eddie Wedder
Em 1996, o Pearl Jam conquistou seu primeiro Grammy com “Spin the Black Circle”, premiada como Melhor Performance de Hard Rock. A reação de Eddie Vedder esteve muito longe do entusiasmo normalmente esperado de um vencedor.
No palco, o cantor admitiu que não sabia exatamente o que aquele troféu significava e demonstrou dúvida sobre sua importância. Vedder ainda observou que seu pai, que havia morrido antes que os dois pudessem se conhecer melhor, provavelmente teria gostado daquele momento.
Foi uma mistura incomum de desconforto, sinceridade e afeto. O Pearl Jam não havia boicotado a cerimônia, mas o vocalista recusou a ideia de que um troféu pudesse definir o valor de uma banda ou colocá-la acima de todas as outras. A crítica foi feita diante do próprio Grammy, com o prêmio nas mãos.
Frank Ocean saiu da corrida antes da largada

Créditos da imagem: Reprodução/Billboard USA
Duas décadas depois, Frank Ocean adotou uma estratégia semelhante à que seria escolhida pelo BTS. Em 2016, o cantor decidiu não inscrever Blonde e Endless para o Grammy do ano seguinte, apesar da forte repercussão crítica dos dois trabalhos.
Ocean classificou os sistemas de premiação, indicação e seleção como ultrapassados. Também afirmou que a instituição não representava adequadamente artistas com sua origem e experiência. Ao explicar sua ausência, comparou a decisão aos protestos do jogador de futebol americano Colin Kaepernick contra o racismo nos Estados Unidos.
A posição ganhou força porque Frank Ocean já havia participado do Grammy e conquistado dois prêmios com Channel Orange. Ele conhecia o sistema por dentro e decidiu retirar seus novos trabalhos antes que os eleitores pudessem avaliá-los. Não se tratava de ignorar o prêmio, mas de negar legitimidade a um processo no qual já não confiava.
O problema das gavetas musicais

Créditos da imagem: Tyler, The Creator; Collage/Gabe Conte
Em 2020, Tyler, The Creator venceu o Grammy de Melhor Álbum de Rap com IGOR. Mesmo agradecido, o artista questionou nos bastidores a tendência de colocar trabalhos experimentais produzidos por músicos negros automaticamente nas categorias de rap ou de música urbana.
Para Tyler, classificar um disco que misturava rap, soul, pop, música eletrônica e outros elementos apenas como rap parecia um reconhecimento limitado. O artista afirmou que a vitória tinha o gosto contraditório de uma homenagem acompanhada por uma separação.
Naquele mesmo ano, a Recording Academy substituiu o nome Melhor Álbum de Música Urbana Contemporânea por Melhor Álbum de R&B Progressivo. A organização apresentou a mudança como uma tentativa de descrever as características musicais das obras com maior precisão.
O contexto de Tyler é diferente do atual protesto do BTS, mas a dúvida central é parecida: uma categoria própria oferece reconhecimento ou cria uma gaveta da qual determinados artistas dificilmente conseguem sair?
The Weeknd levou a crise aos bastidores

Crédito da imagem: Richard Burbridge via GQ
O caso mais consequente dos últimos anos envolveu The Weeknd. O álbum After Hours e a música “Blinding Lights” estiveram entre os maiores fenômenos de 2020, mas não receberam nenhuma indicação ao Grammy de 2021.
O cantor acusou a premiação de falta de transparência e anunciou que deixaria de autorizar sua gravadora a inscrever seus trabalhos enquanto o processo utilizasse comitês internos de revisão, frequentemente chamados de comitês secretos.
Em abril de 2021, em meio à crescente pressão sobre seus critérios, a Recording Academy eliminou os comitês que participavam da definição de indicados em diferentes áreas. A mudança não foi apresentada oficialmente como uma concessão exclusiva ao artista, mas ocorreu durante a crise provocada pelo resultado daquele ano.
The Weeknd manteve sua distância por alguns anos. Em 2025, porém, retornou de surpresa ao palco do Grammy. Antes da apresentação, o presidente da Recording Academy, Harvey Mason Jr., reconheceu as críticas e destacou mudanças no processo eleitoral e na composição do grupo de votantes.
O retorno transformou o episódio em uma rara história de protesto, reforma e reconciliação. O artista questionou o sistema, a instituição alterou parte de suas regras e, posteriormente, os dois lados voltaram a dividir o mesmo palco.
Desprezo ou protesto?
A palavra desprezo ajuda a produzir uma boa pergunta, mas não explica completamente esses episódios.
Sinéad O’Connor questionava os valores comerciais da indústria. O rap protestava contra a falta de visibilidade. Eddie Vedder desconfiava do poder simbólico de um troféu. Frank Ocean e The Weeknd colocaram em dúvida a representatividade e a transparência do processo. Tyler, The Creator e BTS levantaram discussões sobre categorias capazes de reconhecer artistas e, ao mesmo tempo, confiná-los.
Entre todos esses casos, o de Sinéad continua sendo o símbolo mais radical de recusa. Ela não aguardou o resultado, não reclamou de uma derrota e não negociou uma nova categoria. Preferiu rejeitar antecipadamente uma celebração que considerava incompatível com sua visão sobre o papel da arte.
The Weeknd protagonizou o caso moderno com maiores consequências institucionais. Já o BTS acrescentou uma nova pergunta ao debate: em uma indústria cada vez mais global, ainda faz sentido organizar a música segundo fronteiras geográficas e linguísticas?
O Grammy continua poderoso até mesmo quando um artista decide ficar fora dele. A ausência se transforma em notícia justamente porque o prêmio ainda representa prestígio, influência e validação dentro do mercado.
No fim, esses artistas nem sempre estão dizendo que o troféu não vale nada. Muitas vezes, estão questionando quem estabelece seu valor, quais regras determinam os vencedores e por que algumas músicas ainda precisam entrar por portas diferentes.


