POR QUE AS AÇÕES DO SETOR MUSICAL ESTÃO CAINDO?
REPORTAGEM DA BILLBOARD MOSTRA QUE EMPRESAS LIGADAS À MÚSICA ENFRENTAM UM MOMENTO DE CAUTELA EM WALL STREET
João Carlos
05/10/2026
Uma reportagem publicada pela Billboard chamou atenção para um movimento que vem atingindo empresas ligadas à música no mercado financeiro. Segundo a publicação, ações do setor de entretenimento e mídia recuaram de forma generalizada, enquanto analistas tentam entender até que ponto o movimento reflete questões conjunturais ou mudanças mais profundas nas expectativas dos investidores.

Crédito da imagem: Reprodução/Instagram
A revista resume o cenário dizendo que essas companhias estão “caught in crosswinds”, ou seja, enfrentando diferentes forças contrárias ao mesmo tempo. Entre elas estão questões macroeconômicas, mudanças no comportamento dos investidores e dúvidas sobre o ritmo de crescimento futuro de alguns negócios ligados ao entretenimento.
A grande contradição
Enquanto algumas empresas enfrentam pressão na Bolsa, a indústria mundial de música gravada acaba de registrar mais um recorde de faturamento.
Segundo o relatório mais recente da IFPI, a receita global alcançou US$ 31,7 bilhões em 2025, crescimento de 6,4% em relação ao ano anterior. Foi o 11º ano consecutivo de expansão do mercado.
O streaming por assinatura cresceu 8,8%, enquanto o número de contas pagas chegou a 837 milhões em todo o mundo. Até os formatos físicos avançaram 8%, puxados também pelo crescimento do vinil.
Nos Estados Unidos, maior mercado fonográfico mundial, a receita aumentou 3,3% em 2025.
Então, como explicar ações em queda enquanto a música continua crescendo?
As diferenças entre os ambientes
A resposta está na diferença entre o desempenho do mercado musical e as expectativas dos investidores para cada empresa.
Uma companhia pode aumentar receita, conquistar novos clientes e continuar lucrativa, mas ainda assim perder valor na Bolsa caso seus resultados fiquem abaixo do crescimento que os investidores esperavam.
Em outras palavras: Wall Street não olha apenas para quanto uma empresa cresce hoje. Tenta antecipar quanto ela conseguirá crescer amanhã, e essa expectativa sobre o futuro influencia diretamente o valor de suas ações.
Se uma companhia apresenta crescimento de 6%, por exemplo, mas suas ações estavam avaliadas considerando uma expectativa de 10%, o resultado continua sendo crescimento para o negócio, mas pode representar uma decepção para o mercado financeiro.
Uma leitura atualizada sobre o streaming
Outro ponto importante é o amadurecimento do streaming nos maiores mercados.
O modelo continua crescendo mundialmente, mas regiões mais consolidadas apresentam taxas menores. Em 2025, Estados Unidos e Canadá cresceram 3,5%, enquanto a América Latina avançou 17,1%, a Ásia, 10,9%, e o Oriente Médio e Norte da África, 15,2%.
Isso sugere uma mudança importante: parte significativa da expansão futura da música deverá vir de mercados internacionais ainda em desenvolvimento, enquanto regiões maduras entram em uma fase de crescimento mais moderado.
Ao mesmo tempo, outras questões entram nessa complexa equação e ajudam a determinar a percepção dos investidores sobre o futuro do setor.
Nem todas as empresas ganham dinheiro da mesma maneira
Há ainda outra diferença fundamental.
Quando os números mostram que a indústria fonográfica mundial cresceu, isso não significa que todas as empresas ligadas à música cresceram na mesma proporção.
Gravadoras, editoras, plataformas de streaming, promotores de shows, empresas de ingressos e detentores de catálogos possuem modelos de negócio, custos e margens diferentes.
Por isso, uma indústria em expansão pode conviver perfeitamente com empresas enfrentando desvalorização de suas ações.
Por que a música cresce, mas em Wall Street a situação é outra
O que mudou está principalmente na percepção dos investidores.
Depois de anos em que o crescimento acelerado do streaming ajudou a transformar as perspectivas econômicas da indústria fonográfica, Wall Street começa a olhar com mais atenção para quanto desse crescimento ainda existe nos mercados maduros, quanto custará conquistá-lo e qual parcela efetivamente se transformará em lucro.
A aparente contradição, portanto, desaparece quando os dois movimentos são separados: a música continua crescendo, enquanto o mercado financeiro reavalia quanto está disposto a pagar pelas empresas que transformam esse crescimento em negócio.


