TECNOLOGIA PERMITE TRANSMITIR CHEIROS PELA INTERNET
Tecnologia desenvolvida por pesquisadores dos Estados Unidos e da China identifica cinco aromas e aciona um dispositivo capaz de reproduzi-los em outro local. A proposta pode mudar experiências virtua
Bruna Valle
26/10/2026
Enviar fotos, vídeos e áudios pela internet já faz parte da rotina. Mas e se fosse possível compartilhar também o cheiro de um café recém-passado ou de um bolo saindo do forno? Essa possibilidade está mais próxima de se tornar realidade com o desenvolvimento do Scentronic, um sistema experimental que identifica determinados aromas e permite reproduzi-los à distância.
A tecnologia foi desenvolvida por pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio, nos Estados Unidos, em parceria com cientistas do laboratório Zhejiang, na China. Com auxílio da inteligência artificial, o sistema reconhece informações relacionadas a um cheiro e envia os dados pela internet para outro equipamento, que libera uma fragrância correspondente.
Como funciona o envio de cheiros pela internet?
O sistema tem duas partes principais. A primeira funciona como um nariz eletrônico, equipado com sensores capazes de detectar compostos químicos presentes no ar. Um modelo de inteligência artificial analisa os sinais recebidos e classifica o aroma entre as categorias que aprendeu a reconhecer.
Depois, essas informações são enviadas pela internet a um aparelho receptor. Esse segundo dispositivo utiliza líquidos aromatizados armazenados em pequenos reservatórios para liberar uma fragrância que reproduza o cheiro identificado na origem.
Na prática, isso significa que as moléculas responsáveis pelo aroma não viajam pela internet. O que é transmitido são os dados que permitem ao equipamento receptor selecionar e liberar a fragrância correspondente.
Os pesquisadores desenvolveram versões do dispositivo em formatos diferentes, incluindo modelos de mão, colar e pulseira. A proposta é permitir que o recurso seja utilizado em experiências digitais sem depender exclusivamente de equipamentos grandes e fixos.
Café, bolo e laranja estão entre os aromas reconhecidos
Por enquanto, o Scentronic trabalha com apenas cinco categorias de cheiro: café, bolo, laranja, cerveja e vinho tinto. Os pesquisadores escolheram aromas familiares, mas suficientemente diferentes entre si para testar a capacidade do sistema de distingui-los.
Em um experimento com voluntários, os participantes identificaram corretamente os aromas reproduzidos em aproximadamente 73% das avaliações. O resultado representa um primeiro passo, mas também mostra que ainda existe espaço para melhorar a precisão da experiência.
Reconhecer um cheiro e reproduzi-lo de maneira fiel são desafios diferentes. O sistema atual não consegue recriar qualquer aroma encontrado no ambiente: ele depende das categorias reconhecidas pelo nariz eletrônico e dos líquidos disponíveis no aparelho receptor.
Como a tecnologia pode mudar as compras on-line
Uma das aplicações imaginadas pelos pesquisadores está no comércio eletrônico. Hoje, quem compra um perfume, uma vela aromática ou determinados produtos de alimentação pela internet depende principalmente de imagens, descrições e avaliações de outros consumidores.
Com uma tecnologia como essa, seria possível, no futuro, experimentar uma representação do aroma antes de decidir pela compra, desde que o sistema fosse adaptado ao produto e tivesse a fragrância correspondente disponível.
O recurso também poderia tornar experiências de realidade virtual e aumentada mais envolventes. Em uma simulação de cafeteria, por exemplo, o usuário poderia visualizar uma xícara de café e sentir um aroma relacionado à cena. Outra possibilidade seria compartilhar a experiência de uma refeição com familiares ou amigos que estivessem em outra cidade.
Essas situações ainda são perspectivas de uso, não recursos amplamente disponíveis ao público. Para funcionar em escala comercial, o sistema precisará reconhecer uma variedade maior de cheiros e reproduzi-los com mais precisão.
O que falta para chegar ao público?
Apesar dos resultados iniciais, o Scentronic ainda está em fase experimental. Os pesquisadores apontam desafios como ampliar a base de aromas, melhorar o reconhecimento de misturas complexas e tornar os aparelhos menores e mais práticos.
Também será necessário avaliar questões como o custo de fabricação, a reposição dos líquidos aromáticos, a durabilidade dos equipamentos e a segurança da exposição repetida às fragrâncias liberadas.
A integração com celulares também é uma possibilidade futura, mas não significa que os smartphones estejam prestes a transmitir cheiros sozinhos. Seria necessário conectar um acessório capaz de armazenar e liberar as substâncias responsáveis pelos aromas.
O estudo, publicado na revista científica Science Advances, representa um avanço na tentativa de acrescentar o olfato às experiências digitais. Por enquanto, a tecnologia demonstra que é possível identificar e reproduzir alguns cheiros a distância, mas transformar essa ideia em algo acessível e confiável para o cotidiano ainda depende de novas etapas de pesquisa.


