TRAGÉDIAS FERROVIÁRIAS: O PASSADO QUE ALERTA O PRESENTE
EM ENTREVISTA À ANTENNA 1 DE ROMA, O ADVOGADO E PESQUISADOR GIANLUCA BARNESCHI REVISITA O DESASTRE DE 1944 E ANALISA OS DESAFIOS DA SEGURANÇA FERROVIÁRIA APÓS A TRAGÉDIA NA ESPANHA
João Carlos
06/11/2026
A colisão entre dois trens de alta velocidade em Urda, na Espanha, voltou a colocar em discussão a segurança ferroviária, a prevenção de acidentes e a necessidade de esclarecer responsabilidades. A tragédia, ocorrida em 28 de outubro de 2026, na província de Toledo, provocou dezenas de mortes, mobilizou equipes de emergência e ganhou ampla repercussão internacional.
O episódio também trouxe à tona a memória de outros grandes desastres ferroviários. Em entrevista à Antenna 1, emissora do grupo Antena 1 em Roma, na Itália, o advogado, escritor e pesquisador histórico Gianluca Barneschi conversou com a jornalista Manuela Poidomani sobre as circunstâncias que podem transformar falhas operacionais em catástrofes, estabelecendo um paralelo com a tragédia de Balvano, em 1944, considerada a mais grave da história ferroviária italiana.

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Autor de Il disastro dimenticato. Treno 8017 Balvano 1944 (O desastre esquecido. Trem 8017, Balvano, 1944), Barneschi dedicou cerca de três décadas à investigação do episódio, recuperando documentos históricos, ouvindo sobreviventes e familiares das vítimas e questionando as explicações oficiais que prevaleceram durante décadas. A entrevista revela não apenas as circunstâncias de uma tragédia que deixou centenas de mortos, mas também como a preservação da memória pode contribuir para compreender os riscos que continuam presentes no transporte ferroviário moderno.
Uma viagem em busca de alimento
O trem 8017 transportava centenas de pessoas em uma composição destinada a cargas. Era março de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial, e a escassez de alimentos obrigava moradores do sul da Itália a procurar alternativas de sobrevivência. Na reconstrução apresentada por Barneschi, a fome explica por que tantos passageiros se submeteram àquelas condições precárias de viagem.
“Eram pessoas que não deveriam estar a bordo de um trem de carga, mas que acabaram viajando naquelas condições absolutamente perigosas e precárias por um motivo muito simples: a fome”, afirma o pesquisador.
Barneschi destaca a presença de mães de família e adolescentes entre as vítimas. O desastre também deixou órfãos, viúvas e viúvos, cujas histórias passaram a integrar sua pesquisa. Ao ouvi-los, o pesquisador procurou compreender as circunstâncias que levaram os passageiros até aquele trem e as consequências da perda para quem ficou.
O número exato de vítimas permanece incerto. A ANSA registra mais de 500 mortos e observa que a contagem nunca foi estabelecida de maneira definitiva. Barneschi sustenta que o total ultrapassou 600 pessoas. A diferença entre as estimativas acompanha a dificuldade de reconstruir integralmente um episódio ocorrido em meio à desorganização provocada pela guerra.
O que aconteceu no túnel Delle Armi
Na madrugada de 3 de março de 1944, o trem parou no túnel Delle Armi, próximo de Balvano, na região da Basilicata. Duas locomotivas a vapor estavam à frente da composição. Com o comboio imobilizado, os gases produzidos pela combustão se acumularam no interior da passagem ferroviária.
As vítimas morreram por intoxicação, sobretudo pelo monóxido de carbono. A tragédia se consumou sem o choque entre composições que costuma ser associado à imagem de um grande acidente ferroviário. É essa dinâmica que, segundo Barneschi, ainda surpreende o público durante suas apresentações sobre o caso.
O monóxido de carbono é um gás tóxico, sem cor e sem cheiro, produzido na combustão incompleta de materiais que contêm carbono, entre eles o carvão. Em espaços com ventilação insuficiente, pode atingir concentrações perigosas. Essa característica ajuda a explicar a gravidade da exposição dentro do túnel.
O advogado que procurou respostas nos arquivos

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Com atuação em Roma, Gianluca Barneschi é escritior, historiador e advogado especializado em mídia, radiodifusão e telecomunicações. Sua trajetória também inclui a pesquisa de episódios da história contemporânea italiana.
Sua ligação com o rádio antecede a carreira jurídica. Sua atuação no setor é situada a partir de 1976, com passagens pela apresentação de programas, pelo jornalismo musical, especialmente ligado à new wave inglesa, e pela programação.
O interesse por Balvano começou no início dos anos 1990, como ele relata à Antenna 1. A primeira reação ao encontrar a história foi de surpresa diante do próprio desconhecimento. A busca por explicações o levou a arquivos, hemerotecas e redações, até que a dificuldade de localizar informações se tornou parte do problema que pretendia investigar.
“Naquela época, pensei que a culpa fosse minha, que eu era desinformado por não conhecer esse episódio”, recorda.
Barneschi conta que encontrou nos arquivos britânicos documentos da investigação realizada pelas autoridades aliadas. O material permitiu aprofundar a reconstrução do acidente e examinar explicações que haviam se consolidado ao longo das décadas.
“Mas aquilo que não consegui encontrar na Itália, encontrei em Londres, nos arquivos britânicos.”
Esse percurso resultou em sucessivas publicações: Balvano 1944. I segreti di un disastro ferroviario ignorato, de 2005, premiado com o Prêmio Basilicata; Balvano 1944. Indagine su un disastro rimosso, de 2014; e Il disastro dimenticato. Treno 8017 Balvano 1944, lançado pela Cantagalli em 2024. São etapas de uma investigação ampliada ao longo dos anos.
A pesquisa documental foi acompanhada de entrevistas. Uma resenha publicada em 2025 pela Rassegna dell’Arma dei Carabinieri descreve quase três décadas de trabalho na Itália e no exterior, com documentos particulares, arquivos britânicos e mais de uma centena de testemunhos.
“Conheci e entrevistei testemunhas oculares, sobreviventes, equipes de resgate e, sobretudo, familiares das vítimas”, afirma Barneschi.
O peso dos rótulos sobre as vítimas
Entre os pontos mais sensíveis da entrevista está a maneira como os passageiros foram apresentados pelas autoridades da época. Barneschi contesta as classificações de clandestinos e contrabandistas, que considera ofensivas à memória de pessoas levadas àquela viagem pela necessidade de sobreviver.
A linguagem tem registro histórico. A ata do Conselho de Ministros italiano de 9 de março de 1944, reunido em Salerno sob o governo de Pietro Badoglio, descreve os passageiros com a expressão italiana viaggiatori di frodo. Um relatório anexado também os caracteriza, em sua maioria, como contrabbandieri. A documentação está reproduzida a partir da edição crítica das atas do Arquivo Central do Estado italiano.
Na avaliação de Barneschi, esses rótulos contribuíram para afastar a atenção das condições em que as pessoas viviam e das responsabilidades relacionadas ao desastre. Sua crítica se dirige à permanência dessa representação, inclusive na forma como o episódio passou a ser contado.
O esforço de ouvir familiares procura recuperar a dimensão que essas classificações deixam de fora: a perda de quem buscava alimento, os dependentes que ficaram e a necessidade de ter sua história reconhecida. Para o pesquisador, a preservação da memória faz parte da resposta que ainda pode ser oferecida às famílias.
A controvérsia sobre o carvão e o socorro
A explicação baseada na má qualidade do carvão ocupa lugar central na discussão sobre Balvano. Ela já aparece no registro da reunião ministerial realizada poucos dias depois do acidente. Barneschi contesta a interpretação que concentra nesse fator a responsabilidade pela tragédia e sustenta que os atrasos no socorro agravaram o número de mortes.
Na entrevista, o advogado argumenta que a demora em perceber a emergência e encaminhar ajuda precisa ser examinada junto às condições do trem. Ele também destaca que a operação continuou tratando a composição como transporte de carga, apesar das centenas de passageiros a bordo. Sua conclusão é que uma resposta mais rápida poderia ter reduzido a dimensão da perda, interpretação que também apresentou à ANSA, em 2024.
Há documentação histórica que discute a resposta operacional. O relatório anexado à ata do Conselho de Ministros registra a falta de verificação do paradeiro de um trem que havia saído de uma estação e não chegado à seguinte. O texto considera que uma intervenção tempestiva poderia ter atenuado as consequências do acidente.
Outras pesquisas também apontam a combinação de circunstâncias. Em julho de 2026, a ANSA apresentou a reedição de uma obra do jornalista Mario Restaino, com um relatório britânico que relaciona o desastre à fumaça acumulada, às dificuldades das locomotivas, à debilitação dos ferroviários pelos gases e à falta de ação das estações.
Essa documentação amplia a discussão para o funcionamento da operação ferroviária e de sua resposta à emergência. A contribuição de Barneschi se concentra justamente em recuperar os registros e testemunhos que permitem questionar explicações simplificadas e examinar decisões tomadas antes e depois da parada do trem.
Urda e os limites das primeiras explicações
Ao trazer a conversa para o acidente espanhol, Manuela Poidomani propõe uma reflexão sobre a persistência de tragédias em um sistema de transporte que passou por profundas mudanças tecnológicas desde 1944. Barneschi chama a atenção para o acúmulo de acontecimentos e falhas, capaz de comprometer a segurança de uma operação.
“Infelizmente, esses fatores se acumulam e acabam provocando um acontecimento cujas consequências são extremamente difíceis de prever”, afirma.
Em Urda, a dinâmica foi uma colisão pela traseira. Segundo a nota preliminar da autoridade espanhola de investigação de acidentes, a AITAT, o AVE 2080, da Renfe, atingiu o Iryo 6076, que estava parado diante do sinal de entrada da estação. Os dois trens percorriam a linha de alta velocidade entre Madri e Sevilha.
O documento, divulgado em 29 de outubro, registra uma avaria no sistema de controle LZB antes do choque. A circulação passou a seguir um procedimento alternativo, baseado em sinalização lateral e na troca de instruções entre o centro de controle e os maquinistas.
A nota ressalta, porém, que as hipóteses sobre as causas permaneciam abertas. A apuração deveria examinar as falhas técnicas, as comunicações e os fatores organizacionais e procedimentais. A existência de uma avaria anterior ao impacto, por si só, não encerra a explicação do acidente nem estabelece a responsabilidade de uma pessoa.
Segurança ferroviária e aprendizado contínuo
A evolução dos sistemas de proteção é um dos assuntos abordados pelo pesquisador na entrevista. Ele destaca o papel dos dispositivos automáticos e dos procedimentos de operação, ao mesmo tempo que chama a atenção para situações de manutenção ou de funcionamento fora das condições habituais.
A rede europeia de organismos nacionais de investigação ferroviária, em texto disponível no portal da Agência Ferroviária da União Europeia, situa as ferrovias entre os meios de transporte terrestre mais seguros. O mesmo documento ressalta que parte dos avanços tecnológicos e organizacionais do setor resultou do aprendizado com acidentes anteriores.
Nesse modelo, investigar permite identificar os fatores que produziram um acidente e formular recomendações para prevenir outros. O trabalho exige examinar a interação entre equipamentos, procedimentos e pessoas, inclusive quando a circulação precisa ocorrer em condições diferentes das previstas para a operação normal.
O debate recuperado pela entrevista alcança, assim, o modo como uma sociedade documenta suas falhas e transforma o conhecimento adquirido em medidas de proteção. A história de Balvano acrescenta a essa discussão a dificuldade de aprender com um acontecimento que permaneceu, por tanto tempo, pouco conhecido.
Memória como reparação
Para Barneschi, o trabalho de pesquisa também responde ao desejo de reconhecimento expresso pelos familiares. Ao longo das entrevistas que realizou, a reconstrução do acidente se encontrou com relatos de perdas que continuaram a marcar as famílias muitas décadas depois.
“Esses familiares me transmitiram sua vontade e seu desejo de obter, ao menos por meio da preservação da memória dessa tragédia, uma espécie de reparação moral.”
Assista abaixo à entrevista completa de Gian Luca Barneschi à Manuela Poidomani, da Antenna 1, em Roma.


