A INTERNET SE PREPARA PARA UMA NOVA FORMA DE NAVEGAR
Levantamento com quase 2 mil sites brasileiros mostra que a próxima etapa da web já começou e abre espaço para novas formas de interação entre pessoas, páginas e sistemas de IA
Bruna Valle
06/10/2026
A próxima transformação da internet pode acontecer sem que seja necessário abrir uma nova aba no navegador.
Com a evolução dos agentes de inteligência artificial, sistemas capazes de interpretar informações e realizar etapas de tarefas em nome do usuário começam a ganhar espaço. Em vez de apenas encontrar uma página, a tecnologia pode, por exemplo, localizar informações, comparar alternativas e ajudar a conduzir uma jornada digital.
Os sites brasileiros ainda estão no início dessa adaptação, mas os dados mostram justamente o tamanho da oportunidade. O State of Crawl 2027, da Conversion, analisou 1.955 sites de grande audiência no país e identificou que 85,42% já atendem aos requisitos técnicos avaliados para mecanismos de busca. Apenas 11, ou 0,56%, alcançaram o patamar definido pelo levantamento para navegação por agentes de IA.
Mais do que apontar uma deficiência, o resultado revela que a web está entrando em uma nova fase, e que empresas e desenvolvedores ainda têm espaço para construir essa próxima experiência digital.
Da busca para a interação
Durante anos, uma das principais preocupações de quem mantinha um site era garantir que suas páginas fossem encontradas pelos buscadores. O SEO ajudou a transformar essa tarefa em uma área estratégica da internet.
Agora, a lógica começa a se ampliar.
Um agente de IA pode receber um pedido do usuário e percorrer diferentes páginas para encontrar informações ou avançar em determinadas etapas. Para isso, precisa conseguir interpretar o conteúdo, compreender a estrutura da página e identificar caminhos de interação.
É uma mudança importante: a internet deixa de ser apenas um grande catálogo de informações consultado por pessoas e passa, aos poucos, a funcionar também como um ambiente que pode ser percorrido por sistemas inteligentes.
Uma base já construída
O levantamento mostra que existe uma infraestrutura importante sobre a qual essa transformação pode avançar.
Na avaliação técnica tradicional, a mediana dos sites analisados chegou a 90 pontos em uma escala de 0 a 100. Já na dimensão relacionada aos agentes de IA, a mediana ficou em 25 pontos. O estudo considera preparado o site que alcança pelo menos 70 pontos nas duas dimensões.
Ou seja, boa parte da web brasileira já passou por uma etapa fundamental: organizar páginas para que mecanismos de busca consigam encontrá-las e interpretá-las.
O próximo passo é acrescentar novas camadas a essa estrutura.
O começo de uma nova oportunidade
Entre os critérios analisados estão recursos que tornam o conteúdo mais acessível para sistemas automatizados, como a possibilidade de leitura sem depender de JavaScript, estabilidade das páginas e informações que orientem o uso do conteúdo por inteligência artificial.
Algumas tecnologias mais específicas ainda aparecem pouco. Recursos como negociação em Markdown, cabeçalhos de orientação e ferramentas WebMCP têm baixa presença nos sites avaliados. Para empresas de tecnologia, agências e desenvolvedores, isso significa que existe um território ainda pouco explorado.
A tendência também pode estimular uma nova geração de soluções para a web, com páginas pensadas desde o início para serem compreendidas tanto por pessoas quanto por sistemas inteligentes.
Moda e beleza mostram o tamanho do espaço para evolução
Um dos resultados mais interessantes aparece em moda, beleza e acessórios.
O setor apresentou a maior diferença entre as duas dimensões analisadas: 99,17% dos sites avaliados alcançaram o patamar técnico de SEO, mas nenhum chegou ao nível definido pela pesquisa para agentes de IA.
É justamente um segmento em que a evolução pode ser especialmente interessante. Catálogos, características de produtos, preços, disponibilidade e outras informações já fazem parte da experiência digital e podem, no futuro, ser cada vez mais utilizadas por assistentes capazes de ajudar o consumidor a encontrar e comparar opções.
O mesmo vale para o comércio eletrônico. Segundo o levantamento, apenas 40% dos sites de comércio e marketplaces analisados conseguem apresentar o conteúdo sem depender de scripts, um dos fatores que podem dificultar a leitura automatizada.
Uma internet mais preparada para trabalhar junto com a IA
O estudo não significa que os demais sites estejam simplesmente “invisíveis” para a inteligência artificial. A própria Conversion ressalta que a análise mede condições técnicas específicas e não determina se um agente conseguirá ou não realizar uma tarefa em cada página.
O cenário, portanto, pode ser visto como um ponto de partida.
A internet já passou pela adaptação aos buscadores, depois incorporou dispositivos móveis, redes sociais, vídeos e novas formas de comércio. Agora, começa a se preparar para uma realidade em que sistemas de inteligência artificial também poderão participar da navegação.
Para quem desenvolve sites, administra marcas ou cria experiências digitais, o desafio é também uma oportunidade: construir páginas que não apenas sejam encontradas, mas que estejam prontas para fazer parte das novas jornadas digitais.
A próxima geração da internet ainda está sendo construída, e, pelos números do levantamento, há muito espaço para inovação.


