Comercialização de energia no Brasil ganha novos players globais, de tradings a grupos financeiros
Comercialização de energia no Brasil ganha novos players globais, de tradings a grupos financeiros
Reuters
10/08/2026
Por Leticia Fucuchima
SÃO PAULO, 10 Ago (Reuters) - A comercialização de energia elétrica no Brasil despertou o interesse de grandes companhias globais, como a trading de commodities Trafigura e os grupos financeiros StoneX e Macquarie, que estão montando mesas de negociação e reforçando equipes para operar em um mercado com volume elevado de energia transacionada e crescente volatilidade de preços, disseram executivos à Reuters.
A aposta das multinacionais coincide com uma crise que se instalou entre as pequenas e médias empresas brasileiras do segmento, e que criou uma oportunidade para que as gigantes cresçam sua presença apoiadas em balanços financeiros robustos e reputação.
O Brasil é o sexto maior produtor mundial de energia elétrica, segundo dados da Agência Internacional de Energia, e também possui um dos maiores mercados consumidores.
As transações comerciais de compra e venda de energia, hoje ainda restritas ao mundo empresarial e ao mercado de balcão, somam quantias bilionárias todos os anos. Somente na BBCE, principal plataforma de negociação, foram R$90 bilhões em contratos em 2025.
Além do tamanho do mercado, as tradings citam como atrativo para os negócios a volatilidade de preços de energia, que aumentou nos últimos anos devido a fatores como a expansão da energia solar na matriz elétrica brasileira.
Com forte atuação em commodities agrícolas, a StoneX decidiu abrir no Brasil sua primeira mesa de trading de energia elétrica do mundo. A ideia é aproveitar sinergias com clientes do agronegócio, especialmente as usinas de cana, que estão ligadas à área de energia pela cogeração a biomassa, disse à Reuters Marcelo Mello, líder da empresa para o segmento no país.
Segundo o executivo, o grupo obteve no início do ano todas as licenças de comercialização de energia, mas aguardará para iniciar operações até ter mais visibilidade sobre uma resolução da guerra no Irã, que causou distúrbios em todo o setor global de energia, e também da crise local das comercializadoras.
Enquanto isso, a StoneX começou a oferecer serviços de gestão de risco para o setor elétrico. 'Nossa marca registrada é a gestão de risco... Nós vamos fazer também em energia elétrica, onde isso está em falta', disse Mello.
A australiana Macquarie também está se posicionando no segmento no Brasil, tendo intensificado atividades desde o ano passado, segundo duas fontes com conhecimento do assunto.
A StoneX e Macquarie ainda não tinham anunciado publicamente suas mesas de trading de energia no Brasil.
Em nota enviada à Reuters, Rafael Thomaz, diretor da Macquarie no país, disse que o grupo enxerga potencial para, a partir de sua atuação como instituição financeira e expertise em commodities, 'ajudar a gerenciar riscos de preços, garantir financiamento e estruturar soluções para transações complexas'.
A Trafigura, que anunciou sua entrada no mercado brasileiro de energia elétrica em junho, enxerga o país como uma adição relevante ao portfólio, disse Marc Erb, chefe de Trading de Energia e Gás no Brasil.
'A estrutura do mercado é muito interessante, pelo fato de a maioria da geração do Brasil ser hidrelétrica, isso é muito complementar ao mix de energia que temos nos EUA e Europa... Hidrologia é sinônimo de risco', afirmou Erb.
CRISE NO SETOR
A investida internacional ocorre enquanto várias empresas brasileiras de compra e venda de energia enfrentam dificuldades financeiras, com pelo menos uma dezena de recuperações judiciais registradas no segmento no último ano. Essa situação restringiu a liquidez e afastou empresas do mercado.
O cenário adverso não diminuiu o apetite de tradings que anunciaram sua chegada ao Brasil antes da crise.
A dinamarquesa Danske, parte do grupo Equinor, iniciou operações no Brasil em 2023 e passou os anos seguintes avaliando o mercado, obtendo aprovações regulatórias e analisando oportunidades e riscos antes de acelerar atividades neste ano, afirmou Felipe Gatti, chefe recém-nomeado para as operações da trading no Brasil.
As turbulências recentes não reduziram o interesse da Danske por negócios no país, e a empresa continua enxergando demanda por suas soluções, disse Gatti. 'É um ciclo de mercado, temos plena capacidade de atravessá-lo com sucesso... Faz parte do jogo', afirmou, acrescentando que a trading tem um compromisso de longo prazo com o Brasil.
Diante da crise local, a segurança de mercado se tornou um tema importante de discussões empresariais e regulatórias. A plataforma de balcão BBCE avalia a introdução de garantias, enquanto a N5X trabalha para lançar uma bolsa de energia em 2027, com base na expertise de seus acionistas B3 e EEX Group.
Se implementadas, essas soluções podem transformar a forma de se comercializar energia elétrica, disse Murilo Soares, diretor comercial da Vitol no Brasil, onde a trading global atua no segmento desde 2022.
'Quando há exigências de colateral e garantias, a maneira de operar muda completamente em comparação com o que tínhamos no passado, quando se podia ampliar a alavancagem das posições praticamente à vontade, sem penalidades.'
Os executivos do setor são unânimes em apontar uma transformação em andamento no mercado, com consolidação e concentração em um menor número de agentes.
'Isso cria oportunidade para os 'blue-chips' passarem a negociar com um grupo mais selecionado de contrapartes, de forma mais apropriada', opinou Erb, da Trafigura.
(Por Letícia Fucuchima; edição de Roberto Samora)
Reuters

